Um pouco de tudo... e também de nada.
Aqui expresso minhas representações acerca do que penso, sinto, faço, vivo...
Originalidade?
Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo. As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor. Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso. Divirta-se ou se entristeça. Boa viagem!
Há um dito popular muito utilizado aqui no sul do Brasil, o qual diz que "tem que matar a cobra e mostrar o pau". Ele é mencionado quando alguém quer provar algum feito. Frequentemente alguém remexe o baú existencial e sai contando algumas histórias e/ou estórias. Quase sempre tem alguém que não acredita no que está sendo tratado. Então o camarada trata de chamar alguém que comprove isso, que diga ter presenciado o fato ou outro indício de que seja mesmo algo real. E então "tá aí, eu mato a cobra e mostro o pau". Em conversas nostálgicas eu costumo citar meu sonho frustrado de ser jogador de futebol profissional. Quando cito alguns episódios de minha passagem pela capital e pela dupla Gre-Nal, há aaanos atrás, eu utilizo as fotos que tenho guardadas como algo que comprove o que eu estou dizendo. Estou "matando a cobra e mostrando o pau". Mas me veio uma coisa à cabeça. Mostrar o pau não quer dizer que tenha matado a cobra. Mostrar a cobra morta, sim. É difícil que se ache uma cobra morta para se gabar. Quando se aparece com uma cobra morta, muito provável é que a própria pessoa a tenha matado. Então vou corrigir este dito. Não basta mostrar o pau. Taura mesmo é quem mata a cobra e mostra a cobra morta. "Entre nós reviva Atenas, para assombro dos tiranos. Sejamos gregos na glória, e na virtude, romanos" P.S.: Parabéns gauderiada de todos os pagos e querências pela passagem do 20 de Setembro.
Acho que é apropriado para a época. Quem se arriscar a me acompanhar, bem vindo(a). Mas antes de me julgar, por favor, tente me compreender. Se acaso surgirem críticas fundamentadas, que agreguem vou considerá-las e refletir a respeito. Se vierem críticas mesquinhas, calcadas em preconceitos e dogmatismos ridículos eu só vou lê-las e nada mais. Na minha adolescência eu vi Marcelo D2 e toda a banda Planet Hemp serem presos mediante o argumento de que eles faziam apologia às drogas. De fato, eles falavam de maconha nas letras, afinal, segundo uma das letras "uma erva natural não pode te prejudicar". Além disso, as letras eram repletas de críticas à corrupção de policiais (uma música, aliás, chama-se "Porcos Fardados") e políticos e de mais um monte de coisa podre que o sistema alimentava. São elementos que muita gente via, mas poucos eram os que tinham a coragem de apontar e se posicionar a respeito. Toquei em um tema delicado, mas não é sobre maconha que eu quero falar. É que na época a que me reporto eu tomei conhecimento de algumas passagens da Constituição Brasileira de 1988, que versam, entre outros fatores, sobre a liberdade de escolha e de expressão. Em caráter elucidativo, cito o Art. 5º e seus incisos IV, VIII e IX: "Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o
anonimato; VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença
religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se
de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa,
fixada em lei; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;" Seguindo os pressupostos da Constituição, cada pessoa tem o direito de escolha. Não só existencialmente, mas legalmente. É lícito e de direito que a pessoa possa optar em torcer para o time de futebol que preferir, em participar de atividades religiosas seja qual for a sua religião, em seguir a orientação sexual de sua escolha, em partilhar de representações de mundo vindas de suas predileções filosóficas, em militar no partido político que melhor satisfazer suas ideologias... E mais! A pessoa tem a liberdade de expressar isso da forma que quiser. Esses são os pilares da democracia. Uma ressalva: o regime democrático considera a vontade da maioria, mas nem sempre o que a maioria julga como melhor é, de fato, o melhor (além do fato de nem sempre a maioria ser livre para escolher, devido à coações e falcatruras - conhecidas como o velho jeitinho brasileiro). Outra ressalva: neste mesmo regime os políticos eleitos deveriam representar a vontade dos que o elegeram. Somos livres para fazer nossas escolhas e para expressá-las. Ao menos em tese e legalmente. Porém, infelizmente, o jogo de xadrex político, calcado em interesses individuais e de determinados grupos em detrimento do coletivo, geralmente coloca em xeque o que está na Constituição. No papel e no discurso tudo é muito bonito. Os problemas costumam acontecer com o que se faz a partir disso. Em tempos de eleições, como agora, os ânimos acabam se exaltando e o trem quase sempre acaba por descarrilar. Uma dica: não jogue para o ar amizades e parcerias pelo simples fato de haver discordância em alguns pontos. O fato de alguém discordar de uma ideia sua não implica que ele esteja desconsiderando todo o resto. Da mesma forma, tome cuidado para não desprezar o outro por torcerem para times diferentes, por serem de religiões diferentes, por terem opções sexuais diferentes, por militaram em partidos diferentes. Talvez o que falta para que você seja respeitado é apenas um pouco de respeito para com o outro. Monólogos são bons no teatro. Fechar-se em um único ponto de vista acaba ceifando possibilidades de crescimento. Dialogar é uma arte e um bom exercício de paciência, de escuta, de humanidade.
Que cada um tenha o discernimento para fazer suas escolhas, arcando com as consequências disso. E que o direito do outro pensar diferente e de expressar livremente suas ideias seja respeitado. Um salve às cabeças pensantes! Porque concordar com tudo é escravidão.
Dormi acariciando meu cachorro. De madrugada, abracei forte o travesseiro. Acordei no meio da manhã com o barulho da chuva no telhado. Minha mãe me disse que o tempo feio já havia passado. Fiquei na cama por mais algum tempo, ainda meio sonolento, pensando nos sonhos que me visitaram durante a noite. Abri a janela. Um vento gelado deu um tapa no meu rosto. Por instantes fiquei olhando a chuva, contemplando as cores cinzas do céu contrastando com os tons coloridos de algumas flores. O cheiro disso tudo também é algo mágico, divino. Pensei em tomar um banho de chuva. Desisti. Pensei em um banho quente e demorado. Também abortei a ideia. Fui lavar meu rosto. Me olhei no espelho e tive dó dele. Que pecado ele fez para ter que me refletir todo dia? Cara amassada, olheiras bem delineadas, cabelos desarrumados ao extremo e mais alguns detalhes horrorosos. Fiz xixi sentado. Não estava com pressa. Não estava sendo observado. Não precisava cumprir horário. Não tinha sequer a companhia do meu amigo fiel, meu cachorro. Sim, às vezes eu faço xixi sentado. E como tinha acabado de levantar, fiz sem roupa alguma. "Visão do inferno", você pode estar pensando. Pois que seja visão do que quer que seja. Escovei meus dentes. Escolhi aquela roupa velha, batida, cheia de furos e marcas do tempo, mas mais confortável que qualquer roupa de grife. Gosto desse estilo mulambento, largado, despretensioso. Se perfeição fosse algo que existisse fora dos dicionários, diria que hoje é um dia quase perfeito. Ideal para se resguardar. Fazer uma viagem introspectiva. Ajustar o que ultimamente anda meio desregrado. Por alguns pingos nos is. Conversar comigo mesmo. Hoje é um dia para lavar a alma. Talvez até mesmo tenha que exorcizar alguns demônios. Algumas coisas vão ser deixadas para trás. Outras vão ser incorporadas. Acho que atualização é uma palavra para descrever tudo isso. Depois de beliscar uma torta fria com refrigerante, refugiei-me para o meu quarto. Alguns livros precisam ser lidos. Maldita mania de começar a ler várias coisas ao mesmo tempo. O acervo da minha mini biblioteca está crescendo e o que eu mais tenho feito é escrever a data de aquisição na folha inicial das obras. As leituras estão com o freio de mão puxado à meia altura. Meu mundo hoje vai ser entre essas quatro paredes. Espero que o dia passe rapidinho. Quando a madrugada chegar e eu for me deitar, quero repetir os mesmos passos: acariciar meu cachorro e abraçar o travesseiro. E vou ficar na torcida para que você venha novamente me fazer companhia em sonhos.
Bicho de Sete Cabeças é um
longa-metragem brasileiro, lançado em 2001, inspirado no livro Canto dos
Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno. O livro é baseado na história do
autor, hoje ativista da causa antimanicomial, que em 1974, com 17 anos,
peregrinou por hospitais psiquiátricos. O filme tenta ser um retrato fidedigno
da dura realidade que o mesmo vivenciou.
Neto
é um adolescente de classe média que vive em crise com sua família. Seu pai,
autoritário, não consegue estabelecer um diálogo com o filho. Sua mãe, uma
espécie de mediadora dos conflitos familiares, até se esforça para que haja um
entendimento entre eles. Em vão.
Os fatores psicossociais
(os conflitos com os pais, o convívio com o grupo de amigos) influenciam Neto a
fumar maconha e ter um comportamento rebelde. Porém, considerando a fase da
adolescência, nada que comprometesse sua sanidade, pois, apesar da grande
vulnerabilidade ao vício, ele não era dependente químico. Ainda assim, seu pai
o internara num hospital psiquiátrico após ter encontrado um cigarro de maconha
na jaqueta do menino.
No hospital psiquiátrico
os internos eram submetidos a um rigoroso tratamento, que na realidade não
visava a reabilitação ou a cura. O intuito era manter uma quantidade ‘x’ de
pessoas em internação para continuar recebendo as verbas do hospital. As
pessoas internadas recebiam fortes medicamentos que abriam o apetite para que
elas comessem e apresentassem um bom aspecto quando do recebimento de visitas.
Quando Neto obtém alta do
hospital ele até tenta levar uma vida social. Ele consegue um emprego e se
esforça para superar os traumas que a internação causara em sua estrutura.
Porém, em determinados situações ele recai, sofre vômitos e rememora episódios
que vivenciou e que certamente levará para a vida toda.
Após ele beber em uma
festa o jovem se altera, não consegue realizar um ato sexual com uma garota.
Neto acaba se revoltando e promove um quebra-quebra no local. Pelo histórico de
ser uma pessoa com problemas de internação, novamente volta ao hospital psiquiátrico.
O trama acaba com Neto
tentando suicídio numa cela isolada. Ao final do filme, pai e filho
encontram-se sentados um ao lado do outro.
Muitos aspectos podem ser
destacados e servir como pontos de reflexão. A situação que Neto se encontrava
ao início do filme, por exemplo, traduz muito bem o que ocorre na adolescência,
ou seja, uma fase de experimentação de novas vivências, identificação com o
grupo, além de outros que poderíamos destacar. A postura do pai, de certa
forma, é o que desencadeou uma sucessão de problemáticas em Neto.
Sua internação levou em
conta apenas o depoimento do pai. Isso remete aos casos em que o diagnóstico é
precipitado ou forjado. Em nossa sociedade, o paciente é realmente ouvido e o
diagnóstico dá conta do que ele está vivenciando no momento?
Enfim, em se tratando de
saúde mental e patologias, me parece que o filme consegue alcançar uma profundidade sobre o
assunto. Neto até sofria de um distúrbio de personalidade, mas isso não foi
trabalhado de forma que seria mais producente ao caso. A condução do caso pela
família, que o rejeitou, poderia ter resolvido o problema se conduzido de
maneira diferente. Ao contrário, ele foi rotulado e passou a viver um caos.
Pressionado a obedecer/reproduzir um regime que visava, por assim dizer, a
produção da loucura, era quase impossível Neto não desencadear problemas de
cunho psicológico.
O filme foi postado na íntegra no YouTube em efeito espelho. Ainda assim dá pra assistir legal.
João e Maria se enamoraram e passaram um tempo neste romance. Eles formaram um belo casal, compartilharam princípios de verdade, construíram um linda história juntos.
Certa feita Maria decidiu comunicar João de sua decisão de romper o relacionamento. Ela disse que aprendeu muita coisa com ele, que o amou como nunca amara alguém antes, que foi muito feliz no tempo em que estiveram juntos, se disse agradecida por tudo, mas que tinha novos caminhos para trilhar e que nisso ele, João, não estava incluído. Surpreso, ele não entendeu muito bem.
Pode ser que João tenha sido uma estrada, um apoio, uma mediação para que Maria amadurecesse e conseguisse vislumbrar novos horizontes.
Ocorre que algo que servia como elo de interseção entre ambos não tem mais o mesmo significado, a mesma força ou até mesmo deixou de existir.
Se olharmos para nossa própria história, veremos que algumas vezes fomos mediação para nós mesmos, que noutras servimos de mediação para outras pessoas, ou ainda que utilizamos algo ou alguém como mediação. Isso não quer dizer que tenhamos agido de má fé ou que assim agiram para conosco, ou que seja negativo, errado, pecado, ruim, nem nada.
São possibilidades que se apresentam à nossa alma e que independem apenas de nossa própria volição. Respeitar isso é o mais indicado, pois é parte da dignidade humana deixar a outra pessoa partir.
Saber lidar com uma situação como a descrita acima é uma atitude nobre. Que bom se pudéssemos todos vivenciar este processo sem culpa, sem mágoas, sem remorso. Isso não ocorre na maioria dos casos porque em nossa época o amor ainda é vivenciado como posse e a racionalidade é acionada nestas circunstâncias para procurar os porques, apontar culpados, dramatizar, julgar e uma gama de outras coisas que não contribuem em nada para o nosso aprendizado, para o nosso desenvolvimento, para o nosso crescimento existencial.
Outro exemplo rápido de mediação:
Sabe aquela criança que ralou desde muito cedo para alcançar seu objetivo de se tornar um jogador de futebol, passou por necessidades financeiras e de tantas outras ordens, deixou a família e foi morar na sede do clube?
Pois, agora adulto, essa pessoa que fez de tudo visando a profissionalização decaiu em rendimento, não tem mais vontade de treinar, de concentrar, de jogar. O que será que aconteceu? Pode ser que esta pessoa utilizou seu talento como mediação para o sucesso, para a fama, para a fortuna. Agora que alcançou o que pretendia, simplesmente abdicou daquilo que era apenas mediação para a efetivação disso.
*Produzido a partir de anotações feitas em aulas, palestras, workshops de Filosofia Clínica ministradas pelo Professor Lúcio Packter.
Certa feita, no final de um show, um flanelinha se aproximou de mim antes mesmo de eu fazer menção de entrar no meu carro. Eu não tinha grana. No carro tinha algumas moedas, alguns centavos que não somavam dois reais. Depois que abri o carro, peguei as moedas e antes de entregá-las para aquela pessoa que disse o ter vigiado estendi a mão para ela. Falei algo que nem lembro. Tipo, "obrigado, tenha uma boa noite" ou "desculpa, mas é o que tenho pra te pagar", ou algo do gênero.
Antes mesmo de eu sair de onde o carro estava estacionado, um amigo que viu a cena me ligou perguntando se eu não tinha medo de ser assaltado, sequestrado e toda uma gama de possibilidades - todas péssimas, diga-se de passagem. Eu ri e desliguei o telefone.
Nunca vi uma pessoa tão feliz na vida. Aquele tiozinho apertou minha mão, deu um sorriso e me agradeceu. Me disse que o aperto de mãos valia mais que qualquer grana que ele ganhasse naquela noite.
Outro dia conversei demoradamente com uma pessoa radical, dogmática ao extremo, rígida, dona da verdade (tanto que não é fácil vê-la conversando com alguém). Por conhecer como ela funciona, me debrucei em interferir minimamente e ouvir suas teses mais mirabolantes, suas verdades absolutas, etc e tal. Fiquei zonzo. Foi um turbilhão de informações. Vez em quando eu dava uma opinião, falava um pouco sobre o que eu pensava a respeito, já pensando em encerrar o assunto e, consequentemente, a conversa que já se estendia por um longo tempo.
Mal tinha me despedido de tal pessoa, um colega me questionou como eu podia ter paciência para ficar ouvindo asneiras daquela pessoa.
Eu queria que alguém visse a alegria gritante do tagarela por eu ter dedicado um tempinho para conversar com ele. A expressão do rosto dele foi fantástica.
Eu converso com guardas de trânsito, com porteiros de edifício, com pessoas no elevador, com garçons e atendentes de restaurantes e cafés, cumprimento pessoas que nunca vi na vida, que nem sei quem são. Quando faço isso, percebo que tais pessoas se sentem vistas, valorizadas por gestos tão pequenos. É incrível como isso as deixa num pé de igualdade conosco. É um contato de pessoa para pessoa. Caem as máscaras de idade, profissão, estado civil, opção sexual, religiosa, política... Claro que algumas, sabe-se lá por que motivos, preferem ignorar minhas tentativas. Para estes casos, paciência e respeito à forma delas se posicionarem no mundo.
Eu gosto disso. Muitas experiências bacanas nascem daí. O diálogo, a troca, a interseção despertam meu interesse. -muito embora monólogos sejam interessantes, às vezes.
Finalizo com o que escreveu Renato Janine Ribeiro em sua coluna na Revista Filosofia - Ciência & Vida, Nº 72, de julho deste ano:
"Eu não preciso dialogar só com quem concorda comigo, Aliás, a maturidade existe justamente quando consigo conversar, com respeito, com quem é diferente de mim. Aprende-se muito desse jeito."
Nunca pensei em me transformar em um fantoche para agradar alguém. Não gosto de ser manipulado, embora acredite que não tem como viver uma liberdade plena, dadas algumas coações e obrigações que o mundo nos cobra. Por não gostar de faz-de-contas, tampouco me esforço para passar uma imagem de mocinho, de bom samaritano. Talvez eu perca oportunidades ímpares de conhecer pessoas bacanas por conta disso. Mas não vale a pena ser algo por alguns instantes sabendo que logo a máscara vai cair. É melhor assim. Não engano outrem, nem a eu mesmo. Também não tenho pretensão alguma em esculpir alguém com as formas e conteúdos que me convenham. Quem sou eu para ditar os rumos da vida de outra pessoa? Se isso me for solicitado, é de se pensar; caso contrário, jamais. Prefiro a autenticidade, que cada um viva conforme suas singularidades. E que assim seja. Sejamos felizes, cada um com seus travesseiros.
Me permito compartilhar esse recorte de Humano, demasiado humano, do Nietzsche. Claro que, sendo um recorte, o trecho perde em contexto. Ainda assim passo adiante. Talvez sirva de reflexão para algumas pessoas.
"Deveríamos recordar-nos de um pensamento de Lichtenberg: 'É nos impossível sentir por outrem, como se costumar dizer; sentimos apenas por nós. A frase parece dura, mas não o é, desde que seja bem entendida. Não amamos nem pai, nem mãe, nem mulher, nem filhos, mas as sensações agradáveis que eles nos dão', ou conforme diz La Rouchefoucauld: 'se cremos amar a nossa amante por amor a ela, estamos bem iludidos'". Boa noite! =)
O Show de Truman: o show da vida (do original The Truman Show) é um filme lançado em 1998 que tem Jim Carrey como ator principal. Truman leva uma vida tranquila até descobrir que tudo em seu mundo é artificial, manipulado. Desde o seu nascimento ele é vigiado por milhares de câmaras que transmitem sua vida ao vivo por um canal de televisão. Seu primeiro choro, o primeiro sorriso, o primeiro dia da escola, a perda do primeiro dente, as alegrias, as angústias, tudo isso e muito mais é visto há anos pelos telespectadores. Ao descobrir indícios da farsa, aos poucos Truman vai buscando se desvencilhar deste mundo inventado. Não vou falar o final para não perder a graça para quem não viu o filme ainda. A película instiga várias reflexões. Uma delas é a questão de acomodar-se ao que se tem posto, ficar numa zona de conforto, até mesmo numa certa alienação ou romper com isso, superar aparentes limitações e inventar um mundo que tenha a ver com as próprias singularidades e buscas? É uma boa indicação de filme. Talvez tenha que ser visto e revisto para uma melhor percepção dos detalhes. Mas vale a pena.
Vontade de pedir que você diga tudo aquilo que eu quero ouvir. Mas para isso eu preciso saber o que é que eu quero ouvir. E estou te dispensando desta. Ao menos até que dure esta indefinição. Aliás, dispensas têm sido uma tônica ultimamente. Desapego levado ao pé da letra, mesmo que não por iniciativa própria; talvez por falta de opção. Apegar-se ao desapego é que é um risco. "O problema não é contigo". Ok, se não é comigo, o problema sou eu? Ou "o problema não é contigo" é esquiva? Ou não é uma questão de ter problemas. Esquivar. Racionalizar. Argumentar. Tentar explicar algo que não se tem propriedade. Ouvir formulazinhas prontas de quem nunca quebrou a cara, de quem na real está cagando para ti e para como tu estás se sentindo é um exercício de paciência. Viver cercado de mestres dos magos é reminiscência da Caverna dos Dragões. E o que menos quero agora é poluir a animação com minhas paranoias. A poesia tem me salvado. A música tem me alimentado. A solidão tem me feito uma ótima companhia. Tenho saudade de sentir saudade. Da verdadeira, não da de faz-de-contas. Colorir os dias ou viver num preto e banco? Talvez uma luz cinza, que é menos mau que a escuridão completa. Um risinho idiota, ou um semblante fechado e não menos idiota? Vou deixar tudo isso para outra hora. Agora vou pegar meus patins, um vento no rosto, me drogar de adrenalina. Depois do banho muito disso já terá ficado para trás. A noite será uma criança. E depois de contemplar a lua os horizontes serão outros.
"Ocupamos nosso tempo com todas as distrações que a sociedade pode nos apresentar. E, ainda, não param de subir os índices de tristeza, depressão, insatisfação, tédio. Buscando alegrias fora de nós, cada vez menos somos capazes nós mesmos de gerá-las. Com tantas rotas de fugas existenciais, falhamos em perceber e em exercitar a capacidade de lidar com as intempéries da vida, tão inevitáveis como qualquer outro fato natural. Preocupados em sermos mais tecnológicos, perdemos a chance de sermos mais humanos."
Artigo de capa da Revista Filosofia, da Ciência e Vida, intitulada "Conhece-te a ti mesmo", escrito por Gustavo Dainezi (fica a dica; uma ótima leitura).
Nos
tempos da graduação em Filosofia tive a oportunidade de conhecer um livro chamado 1984, de
George Orwell (curiosamente, e não sei o motivo, o nome verdadeiro do autor é
Eric Arthur Blair). Tal obra, escrita no ano de 1948, foi inspirada nos regimes
totalitaristas, ou totalitários que assolaram a humanidade nas décadas de
1930/1940 e as restrições moralistas que os mesmos impregnavam sobre a
sociedade e seus indivíduos.
Imagine
você, leitor, morar em um lugar onde tudo é controlado pelo governo ao ponto de
você ser assassinado caso não obedeça as regras impostas por quem está no
poder. Pois é numa circunstância assim que Orwell desenvolve sua história. O
Partido exercia total poder sobre seus comandados. Em cada casa havia uma
teletela, semelhante a uma televisão, que, além de captar informações sobre a
vida das pessoas, transmitia as ordens do temido Big Brother (O Grande Irmão).
Para
manter a ordem havia o Ministério da Verdade. Quem trabalhava nele tinha a
incumbência de manipular dados históricos, alterar eventos, destruir provas do
passado e incinerar documentos originais, tudo para defender os interesses do
Partido. Quem tivesse idéias contrárias aos ideais do Partido ou se negasse a
seguir as regras impostas por ele era denunciado à Polícia do Pensamento. As
crianças, desde muito cedo, aprendiam a fazer as denúncias ao pessoal deste
departamento. Quem fosse pego pela Polícia do Pensamento geralmente virava pó,
morria vaporizado. Até mesmo uma língua diferente, a Novilíngua, própria do
Partido, estava sendo criada para alienar ainda mais as pessoas.
O
personagem principal do livro, Winston Smith, era um funcionário do Partido que
não consentia com a situação a que o povo era submetido. Indignando, ele compra
clandestinamente um lápis e um bloco de folhas em um estabelecimento. Se fosse
pego com esses artigos, provavelmente perderia sua vida, visto que eram
produtos de venda proibida pelo risco de conspiração contra a ordem do Partido.
Em
sua casa, Winston consegue encontrar um canto em que a teletela não conseguia
capturar seus movimentos. Foi justamente neste local que ele inicia uma espécie
de diário, no qual ele externa seu desejo de uma sociedade diferente desta
opressora, imposta pelo Partido. As primeiras palavras que Winston grifa na primeira
página foram: “Abaixo o Grande Irmão”.
Pois
bem, algo lhe pareceu familiar nessa história que comecei a contar? Vou
interrompê-la para fazer um paralelo com a questão que eu quero chegar. Ainda
assim, 1984 fica como indicação de leitura. Acho que vai valer a pena dispensar
um tempo para conferir o desfecho do enredo.
Ainda
que de conhecimento de poucos, a obra que mencionei foi uma espécie de
inspiração para o ‘reality show’ mais popular dos últimos tempos. Isso mesmo!
Será mera coincidência uma casa vigiada por câmeras 24 horas por dia e o
programa se chamar justamente Big Brother?
Não
cabe a mim aqui fazer juízo do programa, da emissora que detém os direitos
autorais, dos participantes, dos telespectadores, das regras do jogo, nem nada.
O ponto que quero chegar é propor uma reflexão acerca daquilo que vivenciamos
diariamente, reflexão esta que pode contribuir com nosso desenvolvimento
cultural e humanístico. Assim, talvez possamos superar o que alguns teóricos
apontam como uma consequência da modernidade, a cultura inútil.
*Por Everton Augusto Corso.
Publicado no Jornal Folha da
Produção em março de 2009.
A morte é algo que dá uma bagunçada na minha estrutura existencial. Geralmente eu tenho que ficar muito atento para re-organizar as coisas quando falece alguém próximo de mim ou próximo de quem eu tenho certa afinidade e/ou contato. Aprendi a elaborar meus processos de luto de forma producente. Não é insensibilidade, não é o caso de não sofrer com as perdas; é minha forma singular de significar as vivências (e nem convém ficar explicando detalhadamente como faço isso). O fato é que a morte não é apenas uma morte. Seguidamente reflito sobre dois fatores que estão relacionados a ela e me fazem chegar a algumas conclusões. Primeiro: é um traço de nossa cultura sermos educados para o sucesso, para o êxito, para as vitórias, para o pódio. São poucos os casos em que nos alertam que a vida nem sempre segue os roteiros dos filmes de Hollywood, que às vezes ocorrerão eventos trágicos inevitáveis, que alguns de nossas relacionamentos chegarão ao fim, que seremos traídos, que muitas coisas não dependem somente da nossa volição e do nosso esforço, que a morte é uma realidade intrasponível. Segundo: a morte remete ao passado e ao futuro. Ela trás a dor de estarmos perdendo alguém e suscita saudades de outras pessoas que já partiram. De forma semelhante, passamos a pensar que pessoas que ainda temos conosco podem, casual e inevitavelmente, nos deixar no percurso da vida. Esses fatores trazem à tona vários elementos que tornam a morte um evento tão traumático para a maioria das pessoas. Talvez refletir sobre isso possa trazer certo mal estar para alguns. Por outro lado, para outros pode ser o que venha a aliviar a dor nos momentos críticos em que ela está passando, nos instantes nebulosos e tristes que envolvem a morte, a perda de algum ente querido.
Eu já havia comentado algo sobre a Gangue da Matriz aqui. Trata-se do rap criado por Tonho Crocco, ex-integrante da banda Ultramen, no qual ele manifesta-se contra o aumento abusivo de salários (73%) que os Deputados Estaduais do Rio Grande do Sul deram a si mesmos num passado recente. Para quem não sabe, a Assembleia Legislativa gaúcha fica localizada ao lado da Praça da Matriz. Daí o nome do rap. Na época deu um blá-blá-blá na mídia. Moveram processo contra o músico. Depois que a opinião pública se posicionou contra o que, a meu ver foi uma tentativa de abuso de poder, o processo foi retirado. Eis o vídeo da música tão polemizada.
Os ânimos deram uma acalmada. Mas as falcatruas, ao que tudo indica, não. A reportagem de capa do jornal Zero Hora de 10/07/2012 aborda o caso de Lídia Rosa Schons, uma funcionária da Assembleia Legislativa, que por 15 dias foi flagrada passeando com seu cão e fazendo compras quando deveria estar cumprindo horário no gabinete do Deputado Paulo Azeredo (PDT). Em entrevista ao jornal, ela afirma que 7 dos 15 dias são de suas férias, que teriam sido tiradas apenas "no papel", que trabalha das 08h30min às 13h30min, que tem a mãe doente, precisando de seus cuidados, e que comunicou seus superiores sobre o fato. O líder da bancada do PDT, Gerson Burmann, o deputado Paulo Azeredo e o chefe de seu gabinete, Jose Renato Heck, isentam-se de responsabilidade pela efetividade (ou melhor, né?!, pela não efetividade) da funcionária. Aquele famoso não é comigo, não vi nada, não sei de nada. Os fatos vão ser apurados pelo Ministério Público e isso vai dar, provavelmente, em algo parecido com pizza. Não cabe a eu julgar os poderes e atribuições de cada função. Ademais, cada um é dono do seu rabo. Só que tem uma ressalva: admitir as consequâncias de suas escolhas, de suas atitudes é o mínimo que se pode fazer. Pois bem. Onde vamos chegar? O Ministéio Público já apurou várias vezes a existência de funcionários fantasmas na Assembleia. Fica a pergunta: alguém foi responsabilizado ou obrigado a devolver R$ 1,00 aos cofres públicos? Talvez eu seja um ignorante besta que não esteja sabendo de como terminaram as investigações, mas... Outra coisa! A reportagem aponta que o salário da funcionária é de R$ 24.300,00. Oras, não me interessa que ela esteja trabalhando na Assembleia desde que os índios foram catequizados pelos portugueses. E não estou pondo em questão seu desempenho, nem diminuindo sua importância naquela casa. Me refiro, apenas, à gritante disparidade salarial. Eu preciso trabalhar 2 anos (e não me envergonho de admitir isso - tampouco me orgulho) para ganhar o que essa funcionária ganha em um único mês. Aliás, o que eu ganho num mês de trabalho deve ser o que ela gasta com a ração que dá para o cão que leva diariamente passear. Alguma coisa está errada nisso tudo, não? Bem, fica registrada minha indignação. Queria ter poderes mágicos que pudessem diminuir meu sentimento de impotência frente a essa triste realidade. Sao coisas rotineiras que acontecem ali, ao lado da Catedral Metropolitana, ao lado da Praça da Matriz...
Paixão e amor não tem exatidão matemática. Não há um indicativo que aponte onde começa um e onde termina o outro. Tampouco existe uma lógica entre o que vem primeiro e o que (ou no que), mais tarde, isso vai se tornar.
Conheço pessoas que se apaixonam e essa paixão vira um amor. Não menos verdade, conheço pessoas que amam para depois se apaixonar. Outras não sabem o que estão vivenciando, se paixão, se amor, entre tantos outros "se".
Algumas
pessoas sentem verdadeiramente. Outras fingem tão bem que
enganam-se a si próprias. Certas vezes o sentimento é expontâneo,
natural, lindo. Em outros casos, imposição, faz de contas, tesão.
Pedrinho, certa feita, me disse que não consegue amar Mariazinha. Ele se diz um eterno apaixonado e ter medo que o amor chegue e bagunce tudo o que seu romantismo construiu. Outro dia, Y, que é uma mulher muito atraente, me confidenciou que desconfia que não ama mais X, mas que não vive sem o corpo dele, sem seu sexo. E (olhem só!), dias atrás H, num papo de bastidores, naquelas conversas descontraídas que às vezes revelam muitos mistérios, deixou escapar que ama muito M mas que não quer ter um romance com ela. Para ele, o amor não obedece regras de mercado, de escambos, na qual uma pessoa só ama a outra na ânsia de ser amada. Ele apenas a ama. Só isso e nada mais.
São coisas da alma humana, não? E, sendo assim, querer que as vivências das outras pessoas se baseiem em nossas próprias verdades, em nossos parâmetros existenciais, pode ser um tanto nocivo para ambas as partes, tanto para quem julga, quanto para quem é julgado. O caminho é a compreensão, não os rótulos.
"Não tenha medo de conhecer pessoas, de se relacionar, de se envolver ou de desistir de tudo isso! Tenha medo, isto sim, de se deixar contaminar pela hipocrisia que gere a vida da maioria, pela falsidade e por esta habilidade asquerosa de mentir e dizer ao outro palavras doces que não correspondem aos seus sentimentos."
"O brabo de experimentar quase tudo na vida é que chega um momento em que você parece que já fez tudo, ouviu todas as canções, foi a todas as festas, provou todos os gostos, fotografou todas as paisagens. Eu e o mundo exterior estamos em litígio, nos separando aos poucos, às vezes apenas nos esforçando para manter as aparências. Foi-se a época de sexo, drogas e rock n' roll. Meu lema, nos últimos tempos, tem sido jazz, chocolate e auto-erotização."
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter
outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para
fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque
não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E,
à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a
amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na
hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal
no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer
sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é
noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e
dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E,
aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os
mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas
negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone:
hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que
necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a
ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar
mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a
procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as
revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a
comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado,
conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado
e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque
que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À
contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a
não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a
hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma
planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses
pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um
ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a
gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de
semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai
dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a
pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para
esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se
acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta
de tanto acostumar, se perde de si mesma.