Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Da minha vibração*

As famílias tentam educar, as escolas e universidade tentam ensinar, mas o fato é que tem coisas na vida que não têm como serem absorvidas sem a vivência.
Saber perder, por exemplo, é algo que não se encontra em nenhuma cartilha. Ninguém chega e te oferece um curso de como ser um bom perdedor em três módulos, básico, intermediário e avançado. Não é que a vida seja como um jogo, no qual depois do start inicial é cada um por si e deus contra todos. Mas há algumas semelhanças, não?
Quando falo em perdas não me refiro a algo em específico, mas num âmbito geral. Ainda crianças, devido aos estágios do desenvolvimento, perdemos o peito materno - ah, o peito da mamãe! Com as confusões e os enigmas da adolescência ganhamos uma certa malandragem, que aos poucos vai deixando os atributos angelicais e a inocência para trás. Depois das primeiras transas o lance já não é mais só beijar na boca. As responsabilidades do adulto jovem fazem dar saudades dos tempos em que os compromissos eram poucos ou que se podia esquivar deles. Enfim, cada momento tem seu êxtase e, inevitavelmente, algumas coisas vão se perdendo no caminho. 
Bem, voltando à questão de saber perder. A cada dia a gente tem um decréscimo de vida. É duro admitir isso? É, até pode ser. Mas a cada tic-tac do relógio nosso tempo vai expirando tal como uma licença de antivírus de computador. Com um detalhe, as licenças podem ser renovadas, já a vida tem de ser vivida até o último suspiro. E depois disso? Cremação, céu, inferno, purgatório, reencarnação e tudo mais não passa de especulação. Afinal, não se tem registro de alguém que voltou para dizer o que vem depois que o médico atesta o óbito.
Acontece que a maior parte da sociedade insiste em imprimir nas pessoas que elas devem ser bonitas, saudáveis (ou nem tanto, desde que tenham silicone e bunda empinada e barriga de tanquinho), vencedoras, cheias de sucesso, realizações, prosperidade, etc e tal. Isso não remete às semelhanças da vida com um jogo? Ah, deixa pra lá esse lance de vida, jogo, jogo da vida. Esquece.
Então, às vezes o melhor caminho é andar na contramão do que é imposto como certo. Ao conjecturar que na vida tudo é um mar de rosas você pode estar à beira do suicídio se alguma pétala for levada pelo vento. Porque não admitir nossa condição humana, imperfeita? Não que isso seja explicação para os fracassos ou discurso de derrotado. Ao contrário, é importante tomar ciência de que as coisas podem não sair conforme planejamos, que algumas coisas não dependem apenas da nossa volição, que exatidão mesmo só nas ciências exatas. Probabilidades e possibilidades, aproximações. É isso que temos. E aprender a trabalhar com isso é muito bacana.
Às vezes vamos perder uma amizade, relacionamentos afetivos serão desfeitos, haverá morte de pessoas queridas e tantas outras coisas que fazem parte dos mistérios da vida. Cada uma destas situações envolve perdas. E para perdas há de se fazer um processo de luto bem elaborado para não cair em problemas ainda mais sérios que a própria perda.
Muitas pessoas se desestabilizam, se desestruturam quando passam por perdas, por menores que possam parecer seus efeitos. Eu até me dou bem com as intempéries e armadilhas da vida. E quando estou parecendo um bobo alegre é porque eu não posso deixar de vibrar com cada detalhe desta dádiva que é estar vivo. 
São apenas características. Não existe uma maneira certa e outra errada de viver, tampouco algo bom ou ruim. São diferentes formas que se expressam as existencialidades. Como diria Will Goya "sem contexto, tudo é nada".

* Inspirado pela crônica de David Coimbra, O que mais sei fazer, publicada no jornal Zero Hora de 29/05/2012.
"O que quero dizer é que a rejeição e o fracasso não me roubam o bom humor. Estou acostumado com eles. Mas vejo que a maioria das pessoas não está. A maioria das pessoas é vencedora. Elas têm excelente opinião sobre si mesmas e, se sofrem um revés, se abalam, se entristecem."          

"O amor é o ridículo da vida...

... a gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas.
Morrer não dói."

Cazuza

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Possibilidades

Às vezes dizem algumas verdades não para que se sinta culpado, humilhado ou porque querem que mude. Muito menos para que se envaideça. Só o fazem por imaginar que você tem condições de ouvir isso sem que uma ferida se abra.
Mentem não para trapacear ou te fazer de idiota. Talvez sejam meias verdades, omissões. Isso pode ser com o intuito de não fazer teu mundo desmoronar. Longe de ser trapaça, pode ser demonstração de carinho. 
Às vezes a cabeça pensa uma coisa, o coração diz outra, os valores indicam para outra direção, a sociedade aponta novas possibilidades ou velhas respostas. E disso tudo podem vir perguntas ou respostas, afirmações ou incertezas.
O mesmo ócio que pode ser criativo, pode levar à beira do precipício, ao abismo. As crises podem tanto impulsionar para baixo quanto dar um up, revelar perspectivas surpreendentes que jamais seriam vislumbradas numa zona de conforto.
A rotina tem um poder de destruição enorme. Porém, pode ser ela, ou a luta contra ela, um elo de interseção que mantém pessoas unidas. Algumas até fazem questão de seguir rotinas pré-estabelecidas a ponto de tudo ir por água abaixo caso uma vírgula não saia como planejado. 
Alguns finais são finais, alguns são inícios, outros são recomeços. Alguns inícios não passam de retomadas. Algumas retomadas nada tem a ver com recomeços.

O que isso tudo quer dizer? Talvez nada, talvez muito. 
Possibilidades. E quando se fala de possibilidades, algo pode ser considerado ou impossível ou pouco provável, dependendo de quem encara o desafio. 
Mesmo sendo pouco provável, algumas coisas não são impossíveis.
E para as impossíveis, paciência e serenidade para admitir, novamente, a condição humana, de meros mortais.


F O R Z A !

Ao som de Fix You - Coldplay
 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Das obsolescências

O desenvolvimento científico-teconlógico tem tornado muita coisa ultrapassada da noite para o dia. Para experienciar isso basta dar uma olhada ao nosso redor. Aparelhos eletrônicos surgem num ritmo frenético com funcionalidades mil e o que foi lançado hoje como top de linha está sujeito a ser obsoleto amanhã.
Não há como negar os pontos positivos disso. A comunicação, por exemplo, tem sido possibilitada por N formas que no século passado sequer podiam ser pensadas. Ainda assim, surgem algumas reflexões. Até que ponto isso é producente para a humanidade? Como isso está refletindo na vida das pessoas? 

Tenho observado, de modo geral, que os relacionamentos estão, de certa forma, se tornado um tanto superficiais. Talvez eu esteja exagerando, ou dirigindo minha intencionalidade ao que estou querendo explicar, sei lá. Mas percebo que muita coisa de foro íntimo, de relacionamentos interpessoais, de altruísmo tem se tornado descartável. Parece que para tudo há um prazo de validade. E nesse ritmo, muitas existencialidades estão perdendo suas referências. Então começam a aparecer sintomas diversos, devido aos conflitos existenciais, estruturais, e algumas pessoas dizem não saber o que está acontecendo. 

Parece uma tese muito simplista, mas algumas estruturas existenciais não estão preparadas para acompanhar as rápidas e constantes mudanças, a ponto de desencadearem processos de desestruturação.
Por isso nunca é demais diminuir o ritmo, respirar fundo e pensar onde quero chegar e o que estou fazendo para tanto. Talvez isso seja producente para algumas pessoas. Para outras, não.   

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quando eu blogava direto, quando postava mais coisas aqui eu devia ter uma meia dúzia de leitores. Como tem ficado longo o tempo entre as postagens, devo ter umas duas pessoas que leem o que publico neste espaço.
=)

O penúltimo post foi sobre a polêmica envolvendo a Participação do Gabriel O Pensador na Feira do Livro de Bento Gonçalves/RS. Pois nem bem tinha baixado a poeira e O Pensador apresentou um clipe em resposta ao que aconteceu.
Na minha opinião, uma grande sacada. 
E ficou assim.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Eu estou sendo ingênuo

Algumas coisas estão além de nossa capacidade de entendimento lógico e não dependem somente de nós, da nossa volição.
Nas palavras de Nietzsche, "Só as pessoas por demais ingênuas é que podem acreditar que a natureza humana poderia ser transformada numa natureza puramente lógica".


As coisas meio que descarrilaram e eu com essa minha mania de querer entender tudo. Às vezes penso que por isso sou um idiota, mas Nietzsche me alertou que isso é ingenuidade. 
Menos mau que há uma enorme diferença entre ser ou estar sendo algo.
E, sim, eu estou sendo ingênuo. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A cultura ou a ignorância - 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves


O escritor e músico Gabriel, O Pensador foi convidado para ser patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves/RS, que acontecerá neste ano de 2012. A Prefeitura Municipal optou, ainda, por contratar o artista para duas palestras para alunos da cidade e para o show musical de encerramento da Feira, além da compra de 2 mil livros (mil de “Diário Noturno” e mil de “Um garoto chamado Roberto”) para serem repassados às bibliotecas das escolas municipais como incentivo à leitura.

Agindo conforme orienta o bom censo e a legalidade, a Prefeitura divulgou os valores envolvidos nas atividades de Garbiel, O Pensador, R$ 169.430,00. Isso gerou certo desconforto para alguns escritores convidados que receberiam um cachê simbólico pela participação no evento, que foram à mídia e veicularam os milhares de reais a serem repassados para o artista como sendo cachê pela sua participação na Feira do Livro e por ser ele o patrono da mesma. Estava instalado o mal entendido.

Gabriel, O Pensador veio a público para esclarecer o que estava acontecendo. Segundo ele, no valor estavam incluídos todos os serviços e impostos de suas atividades. Ele citou algumas: a venda dos 2 mil exemplares de livros a R$ 35,00 cada, que resulta em R$ 70.000,00, mais R$ 2.016,00 de 2,88% de imposto; passagens aéreas, diárias de alimentação, hospedagem e transporte terrestre para o recebimento da faixa de patrono, que fecharia em cerca de R$ 2.093,00; os mesmo serviços para as palestras, outros R$ 2.093,00; para o show, R$ 60.000,00, mais R$ 10.200,00 de 17% de imposto, mais passagens, hospedagens, transporte e alimentação para a banda e a equipe, R$ 18.568,00; material e equipe de produção de DVD, R$ 3.890,00, mais R$ 661,98 de 17% de impostos; entre outros valores que chegam aos tão comentados R$ 169.430,00. Pela polêmica que se tornou sua presença na Feira do Livro, a Prefeitura Municipal e o artista chegaram ao consenso de não haver mais a compra dos livros para o repasse às escolas, tampouco o show musical de encerramento do evento. Gabriel, O Pensador, porém, não abriu mãos de ser o patrono da feira e o fará de forma gratuita.



Como estamos vivendo um momento do politicamente correto, não é de se espantar que se faça sensacionalismo em torno de algumas temáticas no intuito de desviar o foco de outras.

Ora bolas! O que significa R$ 170.000,00 para ser investido em cultura e educação? Garanto que se os valores referentes à contratação dos serviços de Gabriel, O Pensador não tivessem sido divulgados, nada disso teria acontecido e tudo sairia conforme programado, com entrega de livros às bibliotecas escolares, palestras, show e tudo mais. E digo mais: as cifras de R$ 170.000,00 são desviadas de tantas coisas cotidianamente neste nosso Brasil hipócrita e para isso não acontece nada. Chegamos ao ponto de estar quase se tornando lei que enriquecimento ilícito é crime. Ah, mas que comédia mesmo! Se uma pessoa fatura R$ 5.000,00 por mês, não é o correto que ao final do ano (que tem só 12 meses) ela tenha acumulado algo em torno dos R$ 60.000,00? Não é estranho que uma pessoa, nas circunstâncias citadas, chegue ao final do ano com uma conta bancária de R$ 300.000,00? De onde vem a grana? Depósito transcendental divino?
                Ademais, voltando ao episódio de honorários para escritores, artistas etc, etc... não é digno que os mesmos recebam por seu trabalho? Ou hão de se alimentar de luz, de andar com lençóis cobrindo o corpo, andando descalços? Talvez por alguns elementos arraigados na educação brasileira, a cultura é algo que não merece investimentos. Parafraseando a ilustre frase de Derek Bok, se custear a cultura está caro, arcar com o preço da ignorância será ainda pior.

sábado, 21 de abril de 2012

2037: que Brasil será o seu?

Este é o título de um artigo de Carolina Fuhrmeister, Diretora do Fórum da Liberdade, publicado no Jornal Zero Hora. Nele, Fuhrmeister apresenta alguns dados referentes à realidade do Brasil no cenário mundial: somos a 6ª economia do mundo, estamos na 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupamos a posição 104 em infraestrutura, na qualidade do sistema educacional estamos no 115º lugar, no índice de percepção da corrupção estamos em 73º (o que significa um rombo nos cofres públicos de cerca de R$ 82 bilhões por ano em falcatruas) e temos 16 milhões de pessoas na miséria.
Fuhrmeister aponta que planejamento não é forte do Brasil, pois a previsão para os próximos 4 anos é que sejam gastos 70 bilhões com a Copa do Mundo e com as Olimíadas.
A autora afirma que "guerreiro esse povo é. Mas ainda nos faltam grandes doses de atitude".

Que Brasil eu estou construindo para as próximas gerações? Não sei se estou conseguindo por em prática, mas o país que eu quero é um país em que, no mínimo, as pessoas consigam pensar de forma que não sejam apenas meras reprodutoras do que é posto pelo sistema.
Pouco? Utopia? Pode ser. Mas é meu trabalho de formiguinha, lento e gradual. Quem sabe vá fazer alguma diferença algum dia. E se não fizer, fuck you too!   

Música tema: Marilyn Manson - Mutilation is the most sincere form of flattery

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Do filme "Medianeras - Buenos Aires na era do amor digital"

"
Quem será que foram os gênios que taparam os rios com prédios e o céu com fios? Tantos km de cabos servem pra nos unir ou nos afastar? Cada em seu lugar...
A telefonia celular invadiu o mundo com a promessa de te deixar conectado sempre, mensagens de texto! Uma nova linguagem adaptada a 10 teclas que reduz as nossas línguas mais belas a um vocabulário primitivo limitado e sem cultura.
O futuro está na fibra ótica e no céu limpo! Dentre tantas vantagens eles prometem que você conseguirá ajustar a temperatura de sua casa mesmo estando no trabalho, é claro que eles já sabem que não tem ninguém te esperando com a casa quentinha.
Bem vindo à era das relações virtuais.
"

Como diria o Chorão, "cuide de quem corre do teu lado e quem te quer bem. Essa é a coisa mais pura".

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Por uma nova ética

O Supremo Tribunal Federal (STF) me chamou para eu dar meu voto no julgamento que pede a liberação ou a descriminalização do aborto para fetos sem cérebro. Num primeiro momento eu fiquei surpreso, mas vesti uma toga preta e lá fui eu.

Depois de cumprimentar os ministros que tem poder de decisão, tratei de deixar bem claro que eu não sou ministro, não sou advogado, não sou desembargador, não sou juiz, não sou deputado, não sou padre e nem pastor, não sou médico, não sou cientista, não sou santo, não sou nenhuma divindade e, mesmo não sabendo o motivo pelo qual eu estava ali dando meu veredito, disse que não queria afrontar ou ofender alguém com minhas considerações.

Eu estava trêmulo. Que caminhos percorrer?

- “Meus caros, quando começa uma vida? Quando o óvulo é fecundado pelo espermatozoide? Com a passagem de alguns meses de desenvolvimento do feto? A vida começaria, talvez, no nascimento?

Bem, permitam-me algumas considerações. A partir do surgimento do Cristianismo, a vida passou a ter um caráter sagrado, sendo que a vida humana foi sobreposta à vida de qualquer outro ser. Esta ideia cristã perpassou tradições e perdurou por mais de dois mil anos. Somente há pouco tempo algumas pessoas começaram a contrapor as verdades advindas dos dogmas cristãos, fazendo surgir novas visões de mundo e ampliando as possibilidades de reflexões éticas.

Peter Singer é uma destas pessoas que apresentaram novos paradigmas para a humanidade. Ele propõe uma ética teleontológica, na qual o valor de uma ação é medida por seu fim, por seu resultado. Nesta perspectiva utilitarista, Singer requer que imaginemos as possíveis consequências de nossos atos. Segundo suas considerações, uma ação será moralmente boa quando seus resultados proporcionarem um aumento de felicidade ou uma diminuição da dor da maioria dos afetados por tal ação.

Para a ética tradicional calcada em valores arraigados há milênios, a ética proposta por Singer é insustentável, pois vários de seus elementos entram em conflito com o que a tradição nos legou. A vida possui um valor sagrado, estando acima de todo e qualquer aspecto, privar alguém dela é pecado, homicídio, crime. No rompimento que Singer promove com o que ele chama de velha ética, a eutanásia e o aborto são elencadas como atitudes que podem ser moralmente aceitas e justificáveis, de tal forma que tais atos sejam descriminalizados.

Visto que a proposta singeriana leva em consideração o aumento de felicidade ou a diminuição da dor, interromper uma gravidez na qual foi detectada anencefalia é uma atitude considerada moralmente boa. Isto devido ao sofrimento de todos os envolvidos numa gestação nestes termos, nos quais nem imaginamos o quão doloroso seja, tanto física quanto psicologicamente.

Cabe ressaltar que quando estamos na esfera da ética, a decisão final é sempre do indivíduo. Portanto, se é o desejo de uma mãe ou da família que seja interrompida uma gravidez de um feto anencefálico, não é o Estado ou a Igreja quem deve intervir em tal decisão. Se uma pessoa manifesta conscientemente seu desejo de não permanecer em estado vegetativo, em coma induzido caso isso venha lhe acontecer, quem tem poder de desautorizar esta decisão? Da mesma forma, se uma família decide que é melhor que os profissionais da saúde desliguem os aparelhos daquele familiar que está vegetando já há algum tempo, é o juramento dos médicos que impede que isso se realize?

Devemos pensar, sim, em garantir o direito à plenitude da vida. Mas não devemos confundir o direito à morte com crime, com homicídio.

Tenho meus motivos, portanto, para votar a favor da descriminalização do aborto em casos de má formação genética que indicam anencefalia. E meu voto se dá neste sentido.

Obrigado pela atenção”.

Antes mesmo do relator dar prosseguimento ao ato, eu acordei suado. Meu quarto escuro ao invés da luminosidade da sede do STF, sozinho, ao contrário dos holofotes daquele agitado lugar, de cueca no lugar da toga e com a convicção de que o resultado seria favorável ao que havia sido encaminhado para votação.

quarta-feira, 28 de março de 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

A farra das diárias

Tem como não ficar puto da vida em época de declaração de Imposto de Renda? Há quem reclame por pagar muito de imposto; já outros, como eu, ficam decepcionados por não declarar o IR porque os rendimentos anuais ficam abaixo do que estabelece a lei do leão.
Como eu sou um curioso nato, decidi dar uma olhada nas diárias que foram pagas aos servidores do Poder Legislativo do Rio Grande do Sul, no Portal da Transparência. Tais diárias são referentes ao período de janeiro a março deste ano. O resultado é o seguinte (e vou citar somente os valores recebidos em diárias acima de R$ 5.000,00):
Aloisio Talso Classmann: R$ 7.044,90 (viajou para Santiago da Compostela, na Espanha, do dia 21 ao dia 28 de janeiro);
Antônio Carlos Gomes da Silva: R$ 6.120,99;
Diógenes Luiz Basegio: R$ 6.991,50;
Edson Meurer Brum: R$ 11.722,91;
Ernani Polo: R$ 14.344,85;
Gilberto Capoani: R$ 11.652,50;
Gilson Pereira: R$ 9.356,90;
José Antônio Junior Frozza Paladini: R$ 6.292,35;
José Franciso Soares Sperotto: R$ 8.156,71;
Jurandir Marques Maciel: R$ 6.023,22;
Luis Fernando Schmidt: R$ 10.254,20;
Marlon Arator Santos da Rosa: R$ 9.788,10;
Nelson Luiz da Silva: R$ 5.312,17;
Pedro Bandarra Westphalen: R$ 10.193,25;
Pedro Ozorio Pereira: R$ 5.847,75;
Ronaldo Santini: R$ 7.560,42;
Volmir José Miki Breier: R$ 5.876,53;
Zilá Maria Breitenbach: R$ 8.766,14.
Eu tentei somar a quantia que estas 18 pessoas receberam em diárias nestes 3 meses de 2012, mas são tantos números que eu me perdi. E esses números são só o começo dos rombos no dinheiro público gastos em sabe-se lá o que.
Para bancar estas diárias sobra dinheiro (talvez nelas estejam inclusos custos de wisky importado e acompanhantes; vai saber...); para umentar escandalosamente os salários dos Deputados tem dinheiro; mas para dar qualificação aos profissionais e remunerá-los com o mínimo de dignidade que eles merecem, aí governo nenhum tem como bancar.

Fica então minha homenagem à Gangue da Matriz.



quarta-feira, 21 de março de 2012

O jeitinho brasileiro não tem jeito mesmo

"Excesso de peso danifica a rodovia. Denuncie."
Prestei atenção em uma placa dessas no início da semana. E andei pensando sobre isso.
Fiz milhares de quilômetros em fevereiro, durante minhas férias. Não lembro de ter visto um posto de pesagem. Oras, o Brasil é o país do jeitinho, então muitas pessoas aproveitam a falta de fiscalização e andam por aí com toneladinhas a mais em suas cargas. É lógico que isso contribui para que o asfalto fique danificado.
Aí vem as licitações forjadas, superfaturadas e tudo mais que estamos carecas de saber para refazer trechos asfálticos. Mais uma vez o jeitinho brasileiro entra em cena: faz-se uma camada de asfalto com qualidade bem inferior para que sobre grana para o pessoal do esquema sujo. 
Isso é malandragem, falcatrua, roubo, descaso, corrupção. 
Estou me convencendo que no Brasil quem se rala é o trabalhador honesto, infelizmente.
E os péssimos exemplos de quem deveria dar bons exemplos só faz com que cada dia mais pessoas rumem para a banda podre. Que desgraça!

quinta-feira, 15 de março de 2012

sábado, 10 de março de 2012

As respostas prontas

Li no Jornal Diário Catarinense de hoje que Lucio Mauro Filho está viajando pelo país com seu monólogo "Clichê". O espetáculo é, de certa forma, uma crítica ao excesso de frases feitas e conta com mais de 600 expressões clichês que se expandem e se reproduzem diariamente.
Em uma rápida entrevista dada ao jornal, o ator declara algo que merece ser ponderado: "Com o advento da internet as pessoas estão cada vez mais rasas". Isto é, de fato, verificável na maioria das conversações do mundo cibernético, principalmente em redes sociais, onde as frases feitas são repetidas com extrema frequência.
O perigo de utilizar os jargões é que eles podem estar deslocados do significado original, além de desprezarem uma série de fatores.  

Vamos a um exemplo: No "Pequeno Príncipe", do escritor Antoine de Saint-Exupéry, uma frase ultrapassou gerações e vem sendo reproduzida aos quatro ventos. Trata-se de algo que uma raposa ensinou a uma criança, ambas personagens do livro, sobre o amor: "Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos". Pois bem, para o enredo do livro esta é uma verdade que tem um contexto. Ela revela ainda os traços de como pensava Saint-Exupéry, o autor da obra. Mas isso não implica que esta seja uma verdade universalmente válida quando se trata do amor ou de qualquer outro tema. 
Pode acontecer que, mesmo se tratando de amor, alguém tenha uma representação de mundo na qual o que tem mais valor é justamente o contrário, ou seja, aquilo que olhos veem. Isso já seria suficiente para derrubar a lição de que "o essencial é invisível aos olhos".

Ainda outros jargões são utilizados como se valessem para todas as pessoas e em todas as situações.
"Errar é humano, perdoar é divino". Algumas pessoas perdoam porque tem uma ligação amorosa, ou por amizade, ou por caridade e por tantos outros motivos. Mas isso não quer dizer que elas sejam divindades ou seres de outra galáxia.
"Para amar o outro é preciso amar a si mesmo". Não precisamos nos esforçar para perceber que algumas pessoas não estão nem aí para si mesmas e amam profundamente outras.
"É dando que se recebe". Então há sempre este processo de troca, de escambo no qual se da algo pensando em ser retribuido?
Esses e outros infindáveis exemplos podem contribuir para que pensemos que cada pessoa tem uma representação única de mundo e que não necessariamente ela vai pensar e agir como pensa e age a maioria. Algumas até vão nesse ritmo, mas não todas...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

As decisões às vezes passam por um clic

Estou me cansando de ouvir lamúrias e choramingos a respeito da grade de programação da televisão brasileira. Isso vale tanto para os canais abertos quanto para os exclusivos para assinantes.

Volta e meia alguém reclama:
- Na parabólica não nada de interessante para olhar.
Ou então: 
- A tv por assinatura só tem mesmo quantidade de canais. Qualidade que é bom, nada.
A pergunta que eu faço para essas pessoas é se o único meio de entretenimento que existe no mundo é a tv.
Parece que não existe atividade física, leitura, conversa com outras pessoas, estudos ou seja lá o que for.

Tem algumas que falam mal do Big Brother, por exemplo, mas não perdem um capítulo do programa. Eu gostaria de entender o que se passa. Talvez a logística dos programas consigam de fato alienar grande parte dos telespectadores.

Ora, se não gosta de consumir determinada coisa, não consome, se controla, muda de hábitos, abondona o comodismo e a mesmice.

Neste sentido, o controle remoto ou os botões dos aparelhos (talvez alguns até já tenham comando de voz) é uma ferramenta e tanto. Algo não te agradou? Muda de canal. Ou assiste e tenta incorporar algo de bom daquilo para tua vida. Ou aproveita as asneiras para não repetir em suas vivências. Ou desliga o aparelho.

O que não pode mais acontecer, poooor favor, é alugar meus ouvidos para reclamações que não vão levar a lugar algum.

Quem me dera eu tivesse um controle remoto para acionar o "mute" de algumas pessoas...

Abraçosss.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Singularidades

Da mesma forma que algumas pessoas necessitam
de uma luz no fim do túnel,
outras precisam de um túnel no final da luz.
Esse é mais um dos motivos que demonstra a diversidade, a diferença, a pluralidade que existe entre os viventes deste mundo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Às vezes é assim

O dito popular "quem cala, consente" é verificável em muitas ocasiões.
Nos cenários político e social atuais me parece que tem gente que se cala mesmo não consentindo. Muitas pessoas que teriam grande influência e poder de esclarecimento e de decisão se omitem, ficam totalmente passivas. Talvez pela grana que tem, que certamente trás alguma comodidade que os impede de sair d´uma zona de conforto, talvez por medo sabe-se lá de que, talvez por se sentirem ameaçados, talvez por terem o rabo preso com algo ou com alguém, ou por tantos outros motivos que a gente não consegue conjecturar.
Algumas coisas são tão certas como 2 + 2 = 4. Basta querer abrir os olhos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sobre o carnaval

Bem... Cada qual com sua estrutura, seu modo de ser, seu jeito, seus gostos, etc. e tal.
Não tenho a mínima pretensão de ofender alguém ou algum estilo de vida. Quero apenas que minha meia-dúzia de leitores reflitam e cheguem às conclusões que lhes forem pertinentes. 
E segue a vida.



"Ontem foi quarta-feira feira de fogo e eu não vejo a hora de chegar a quarta-feira de cinzas. Não, não é que eu seja inimiga do carnaval – até já brinquei muito em clubes, nos blocos, nas prévias, fui até Olinda em plena terça-feira de carnaval. Portanto, vou falar com conhecimento de causa e revelar algumas verdades que eu encontrei por trás da fantasia do carnaval.
A primeira delas: “O carnaval é uma festa genuinamente brasileira”. Não, não é. O carnaval tal como nós o conhecemos surgiu na Europa, durante a era vitoriana, e se espalhou pelo mundo afora, adaptando-se a outras culturas.
Segunda falsa verdade: “É uma festa popular”. Balela. O carnaval virou negócio, e dos ricos. Que o digam os camarotes vip, as festas privadas e os abadas caríssimos chamadas passaportes da alegria. E quem não tem dinheiro para comprar aquela roupinha colorida não tem também o direito de ser feliz? Não tem não!
E aqui na Paraíba, onde se comemoram as prévias, não é muito diferente, não. A maioria dos blocos vive às custas do poder público e nenhuma atração sobe no trio elétrico para divertir o povo só por ser o carnaval uma festa democrática. Milhões de reais são pagos a artistas da terra (e fora dela) para garantir o circo a uma população miserável, que não tem sequer o pão na mesa.
Muitas coisas hoje me revoltam no carnaval. Uma delas é ouvir a boa música ser calada à força por hits do momento como o “melô da mulher maravilha” e similares que eu não ouso nem citar. Eu fico indignada quando vejo a quantidade de ambulâncias disponibilizadas num desfile de carnaval para atender aos bêbados de plantão e valentões que se metem em brigas e quebra-quebra. Onde estão essas mesmas ambulâncias quando uma mãe precisa socorrer um filho doente, quando um trabalhador está enfartando, quando um idoso do interior precisa se deslocar de cidade para se submeter a um exame? Eu me revolto em ver que os policiais estão em peso nas festas para garantir a ordem durante o carnaval e no dia-a-dia falta segurança para o cidadão de bem exercitar o simples direito de ir e vir.
Mas o carnaval é uma festa maravilhosa. Dizem até que faz girar a economia, que os pequenos comerciantes conseguem vender suas latinhas, seu churrasquinho. Olha, se esses pais de família dependessem do carnaval para vender e para viver passariam o resto do ano à míngua. Carnaval só dá lucro para dono de cervejaria, para proprietário de trio elétrico e para uns poucos artistas baianos. No mais, é só prejuízo.
Alguém já parou para calcular o quanto o Estado gasta para socorrer vítimas de acidentes causados por foliões embriagados? Quantos milhões são pagos em indenizações por morte ou invalidez decorrente desses acidentes? Quanto o poder público desembolsa com procedimentos de curetagem, que muitas jovens se submetem, depois de uma carnaval sem proteção que gerou uma gravidez indesejada? E isso sem falar na quantidade de DST´s que são transmitidas na festa em que tudo é permitido.
Eu até acho que o carnaval já foi bom, mas isso foi nos tempos de outrora".
Rachel Sheherazade. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Filosofia Clínica, como assim?

            Minha intenção com as breves considerações a seguir é dar luz do que seja esta abordagem terapêutica que vem ganhando campo tanto em território nacional quanto internacional. Longe de minha alçada está o objetivo de encerrar o assunto. Pelo contrário, quero provocar e convidar o leitor a buscar mais informações a respeito da Filosofia Clínica.
            A Filosofia Clínica foi sintetizada pelo filósofo Lúcio Packter na década de 1990. Packter fundamentou esta abordagem terapêutica, entre outras teorias, com base no logicismo formal, no empirismo, na analítica da linguagem e essencialmente na fenomenologia. Filósofos como Protágoras, Platão, Aristóteles, Bertrand Russell, Schopenhauer, Locke, Berkeley, Kant, Karl Popper, Georg Cantor, Wittgenstein, Levi-Strauss, Deleuze, Foucalt, Paul Ricoeur, Searle, Gadamer, Merleau-Ponty, Jaspers, Heidegger, entre tantos outros tiveram suas teses adaptadas à clínica filosófica.
            Aqui já cabe um pedido de atenção. Tais filósofos e correntes filosóficas apenas fundamentam os métodos da Filosofia Clínica. Isso não quer dizer que nos atendimentos o filósofo clínico irá utilizar obras e teorias com seu partilhante, como ocorre no aconselhamento filosófico ou na filosofia prática.
            Adiante. Falamos em métodos, certo? Correto, pois em Filosofia Clínica não há um método rígido. O que existe são possibilidades de aplicação que se adaptam à singularidade do partilhante e à demanda clínica. Claro que algumas particularidades precisam ser respeitadas, como, por exemplo, estabelecer interseção com o partilhante (condição indispensável para o andamento do trabalho), respeitar suas singularidades, buscar compreender o que está se passando com ele e ter cuidado com os agendamentos (acompanhar o partilhante e não direcioná-lo inadvertida ou aleatoriamente).
             Packter nos diz, no Caderno A, que “o objetivo da clínica filosófica é, tanto quanto possível, reconhecer e entender as interseções (choques) entre tópicos da Estrutura de Pensamento e em seguida utilizar os submodos (procedimentos clínicos) para tentar trabalhar essas interseções tópicas”. Como fazer isso? Veremos adiante, mas antes vamos falar da Estrutura de Pensamento, ou EP.
            A EP é tudo o que habita a pessoa, a forma como ela vê o mundo e a si mesma, suas representações, emoções, buscas, valores, crenças, enfim, é o modo como a pessoa está existencialmente. O filósofo clínico cataloga a historicidade do partilhante em 30 tópicos estruturais, cada qual com seu peso e determinância no todo da EP. Não é o caso de encerrar o ser humano em apenas 30 tópicos, ocorre que os tópicos se inter-relacionam e formam infindáveis formas de ser no mundo, tal como uma mistura de matizes de cores ou as letras do alfabeto formando palavras, frases, textos, etc.
            Os atendimentos terapêuticos contribuem para o acúmulo de experiência do filósofo clínico, porém, visto que cada pessoa é um universo distinto, nunca os atendimentos serão iguais para diferentes partilhantes; o filósofo clínico não sabe de antemão o que encontrará em cada singularidade que o procurará.
            Pois bem. Algo levou uma pessoa a procurar pelos trabalhos do filósofo clínico. Esta pessoa é denominada partilhante. A pessoa não é chamada de paciente ou de cliente, como em algumas outras abordagens psicoterápicas e outras áreas do conhecimento a concebem. Os motivos? Paciente remete a alguém doente que está (paciente) entregue aos cuidados de outrem, o que não ocorre em Filosofia Clínica, visto que aqui não utilizamos a nomenclatura de normalidade e patologia, saúde e doença. E cliente não se aplica por conter certa frieza e um ar meramente comercial. Trabalhamos com pessoas, com existências, então nada mais justo que denominar partilhante a pessoa que irá compartilhar os caminhos existenciais com o terapeuta, com o filósofo clínico.
            Então o partilhante chega ao consultório. Não necessariamente as sessões são entre quatro paredes. Alguns preferem fazer a terapia num café, ou num parque, ou numa praça, ou caminhando em alguma direção. São várias as possibilidades. Há o encontro entre partilhante e filósofo clínico, o que este fará? A princípio conversará informalmente com o partilhante, ouvirá o que o trouxe à clínica, explicará em termos gerais como se dá a terapêutica filosófica e falará como serão os encontros. É um exemplo didático, que nem sempre se dá nesta ordem.
            O assunto que a pessoa inicialmente trouxe à clínica pode não ter nada a ver com o que realmente será trabalhado na terapêutica. Pode ser apenas algo sintomático, uma queixa que resulta de alguma outra demanda. O assunto último, aquele que norteará o planejamento clínico é elucidado no decorrer da clínica. Às vezes é fácil identificá-lo, às vezes é muito trabalhoso para o clínico, dependendo do caso. 
             Então o filósofo clínico pedirá que o partilhante fale sobre sua história de vida, o que ele lembra desde os tempos mais remotos. Como história é o que de fato ocorreu e o relato disso não é mais história, sim uma interpretação do que foi vivenciado, a isso chamamos historicidade. Alguns elencam aspectos desde o início da vida, 2, 3 anos. Outros só passam a lembrar de episódios a partir de 5, 6 anos, da época da escola e assim conforme a singularidade de cada um. Alguns não conseguem retomar do início e o caminho é ir retrocedendo cada vez mais até chegar ao passado. É impressionante como cada pessoa possui uma estruturação única, singular, inigualável.
            O filósofo não direcionará a narrativa do partilhante, tampouco interromperá com questionamentos por hora inúteis. Agora o que se busca é ordenar a historicidade e o filósofo utilizará suas ferramentas para tanto. Não é à toa que a formação em Filosofia Clínica exige, em média, 3 a 4 anos para ser concluída, pois envolve clínicas didáticas e estágios supervisionados, tudo devidamente registrado e acompanhado pelo Instituto Packter, pelos Centros de Formação e pelo Conselho de Ética da ANFIC – Associação Nacional de Filósofos Clínicos.
            E se a pessoa não utiliza a fala como meio de expressar? Se ela fala dela mesma, de sua historicidade através da escrita, ou por desenhos, ou por esculturas? Cabe ao filósofo clínico trabalhar com a pessoa através do que é mais producente a ela. Ele tem habilidades para não deixar que isso seja um empecilho à clínica.
            O conteúdo da historicidade é o que preencherá os tópicos da EP, que o filósofo monta quando esgotada esta primeira etapa da clínica. Quanto tempo isso leva? Talvez semanas, ou meses, dependendo de como é a historicidade que se apresenta diante dele. Ao mesmo tempo que o filósofo está atento à forma como a pessoa está estruturada, como está a EP desse partilhante, ele verá como a pessoa costumeiramente resolveu seus problemas no decorrer da vida. Isso é de grande valia para o desenvolvimento da clínica.
            Agora que a o filósofo clínico já sabe o assunto último, aquele que precisa ser trabalhado e que a EP do partilhante já está montada, resta organizar o planejamento clínico e aplicar os procedimentos clínicos, também chamados de submodos, com o partilhante. São 32 procedimentos clínicos que podem ser utilizados individualmente ou mesclados, dependendo do objetivo clínico. Os submodos podem compor uma variedade enorme de possibilidades de aplicação, semelhante ao que ocorre com os 30 tópicos da EP.
            O filósofo saberá o que pode fazer e como fazer para ajudar a pessoa, pois a trajetória da clínica o permite a chegar a tais conclusões. Os choques estruturais que fizeram a pessoa procurar a terapia foram identificados e o filósofo trabalha com o partilhante novos caminhos para o exercício existencial.
            Vale ressaltar que a terapêutica em Filosofia Clínica parte da pessoa, ou seja, não é algo estabelecido aprioristicamente. Os rumos do trabalho se dão de acordo com o que está sendo visto no diálogo das singularidades. Como cada pessoa possui uma estruturação, é digno que a terapêutica dela seja aplicável a ela e de forma que não afronte seu modo de ser no mundo.
            Espero ter dado uma explanada de modo que tenha possibilitado o entendimento, ao menos em termos gerais, de como a Filosofia se tornou Clínica e de como se dá o processo terapêutico nessa abordagem. Como dito no início, não é em alguns parágrafos que se encerra uma explicação ou caracterização da Filosofia Clínica. Fica, então, o convite para buscar mais informações e conhecer mais sobre os temas aqui relacionados.
            Em www.filosofiaclinica.com.br é possível ler e baixar o livro Propedêutica, de Lúcio Packter e ter acesso a outros conteúdos. Lúcio possui outros títulos publicados, assim como Monica Aiub, Helio Strassburger, José Maurício de Carvalho, Marta Claus, Nichele Paulo e mais alguns filósofos clínicos e especialistas da área que apresentam a Filosofia Clínica em seus mais variados aspectos.
*Everton Augusto Corso, especialista em Filosofia Clínica,  Centro de Filosofia Clínica de Chapecó/SC.