Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

terça-feira, 17 de julho de 2012

O caminho está em nós mesmos


"Ocupamos nosso tempo com todas as distrações que a sociedade pode nos apresentar. E, ainda, não param de subir os índices de tristeza, depressão, insatisfação, tédio. Buscando alegrias fora de nós, cada vez menos somos capazes nós mesmos de gerá-las. Com tantas rotas de fugas existenciais, falhamos em perceber e em exercitar a capacidade de lidar com as intempéries da vida, tão inevitáveis como qualquer outro fato natural. Preocupados em sermos mais tecnológicos, perdemos a chance de sermos mais humanos."


Artigo de capa da Revista  Filosofia, da Ciência e Vida, intitulada "Conhece-te a ti mesmo", escrito por Gustavo Dainezi (fica a dica; uma ótima leitura).

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Grande Irmão*


         Nos tempos da graduação em Filosofia tive a oportunidade de conhecer um livro chamado 1984, de George Orwell (curiosamente, e não sei o motivo, o nome verdadeiro do autor é Eric Arthur Blair). Tal obra, escrita no ano de 1948, foi inspirada nos regimes totalitaristas, ou totalitários que assolaram a humanidade nas décadas de 1930/1940 e as restrições moralistas que os mesmos impregnavam sobre a sociedade e seus indivíduos. 
         Imagine você, leitor, morar em um lugar onde tudo é controlado pelo governo ao ponto de você ser assassinado caso não obedeça as regras impostas por quem está no poder. Pois é numa circunstância assim que Orwell desenvolve sua história. O Partido exercia total poder sobre seus comandados. Em cada casa havia uma teletela, semelhante a uma televisão, que, além de captar informações sobre a vida das pessoas, transmitia as ordens do temido Big Brother (O Grande Irmão).
         Para manter a ordem havia o Ministério da Verdade. Quem trabalhava nele tinha a incumbência de manipular dados históricos, alterar eventos, destruir provas do passado e incinerar documentos originais, tudo para defender os interesses do Partido. Quem tivesse idéias contrárias aos ideais do Partido ou se negasse a seguir as regras impostas por ele era denunciado à Polícia do Pensamento. As crianças, desde muito cedo, aprendiam a fazer as denúncias ao pessoal deste departamento. Quem fosse pego pela Polícia do Pensamento geralmente virava pó, morria vaporizado. Até mesmo uma língua diferente, a Novilíngua, própria do Partido, estava sendo criada para alienar ainda mais as pessoas.
         O personagem principal do livro, Winston Smith, era um funcionário do Partido que não consentia com a situação a que o povo era submetido. Indignando, ele compra clandestinamente um lápis e um bloco de folhas em um estabelecimento. Se fosse pego com esses artigos, provavelmente perderia sua vida, visto que eram produtos de venda proibida pelo risco de conspiração contra a ordem do Partido.
         Em sua casa, Winston consegue encontrar um canto em que a teletela não conseguia capturar seus movimentos. Foi justamente neste local que ele inicia uma espécie de diário, no qual ele externa seu desejo de uma sociedade diferente desta opressora, imposta pelo Partido. As primeiras palavras que Winston grifa na primeira página foram: “Abaixo o Grande Irmão”.
         Pois bem, algo lhe pareceu familiar nessa história que comecei a contar? Vou interrompê-la para fazer um paralelo com a questão que eu quero chegar. Ainda assim, 1984 fica como indicação de leitura. Acho que vai valer a pena dispensar um tempo para conferir o desfecho do enredo.
         Ainda que de conhecimento de poucos, a obra que mencionei foi uma espécie de inspiração para o ‘reality show’ mais popular dos últimos tempos. Isso mesmo! Será mera coincidência uma casa vigiada por câmeras 24 horas por dia e o programa se chamar justamente Big Brother?
         Não cabe a mim aqui fazer juízo do programa, da emissora que detém os direitos autorais, dos participantes, dos telespectadores, das regras do jogo, nem nada. O ponto que quero chegar é propor uma reflexão acerca daquilo que vivenciamos diariamente, reflexão esta que pode contribuir com nosso desenvolvimento cultural e humanístico. Assim, talvez possamos superar o que alguns teóricos apontam como uma consequência da modernidade, a cultura inútil.
        
*Por Everton Augusto Corso.
Publicado no Jornal Folha da Produção em março de 2009.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A morte mexe comigo

A morte é algo que dá uma bagunçada na minha estrutura existencial. Geralmente eu tenho que ficar muito atento para re-organizar as coisas quando falece alguém próximo de mim ou próximo de quem eu tenho certa afinidade e/ou contato. Aprendi a elaborar meus processos de luto de forma producente. Não é insensibilidade, não é o caso de não sofrer com as perdas; é minha forma singular de significar as vivências (e nem convém ficar explicando detalhadamente como faço isso).
O fato é que a morte não é apenas uma morte. Seguidamente reflito sobre dois fatores que estão relacionados a ela e me fazem chegar a algumas conclusões.
Primeiro: é um traço de nossa cultura sermos educados para o sucesso, para o êxito, para as vitórias, para o pódio. São poucos os casos em que nos alertam que a vida nem sempre segue os roteiros dos filmes de Hollywood, que às vezes ocorrerão eventos trágicos inevitáveis, que alguns de nossas relacionamentos chegarão ao fim, que seremos traídos, que muitas coisas não dependem somente da nossa volição e do nosso esforço, que a morte é uma realidade intrasponível.
Segundo: a morte remete ao passado e ao futuro. Ela trás a dor de estarmos perdendo alguém e suscita saudades de outras pessoas que já partiram. De forma semelhante, passamos a pensar que pessoas que ainda temos conosco podem, casual e inevitavelmente, nos deixar no percurso da vida.
Esses fatores trazem à tona vários elementos que tornam a morte um evento tão traumático para a maioria das pessoas. 
Talvez refletir sobre isso possa trazer certo mal estar para alguns. Por outro lado, para outros pode ser o que venha a aliviar a dor nos momentos críticos em que ela está passando, nos instantes nebulosos e tristes que envolvem a morte, a perda de algum ente querido.

FORZA!          

terça-feira, 10 de julho de 2012

Mais uma da Gangue da Matriz

Eu já havia comentado algo sobre a Gangue da Matriz aqui. Trata-se do rap criado por Tonho Crocco, ex-integrante da banda Ultramen, no qual ele manifesta-se contra o aumento abusivo de salários (73%) que os Deputados Estaduais do Rio Grande do Sul deram a si mesmos num passado recente. Para quem não sabe, a Assembleia Legislativa gaúcha fica localizada ao lado da Praça da Matriz. Daí o nome do rap.
Na época deu um blá-blá-blá na mídia. Moveram processo contra o músico. Depois que a opinião pública se posicionou contra o que, a meu ver foi uma tentativa de abuso de poder, o processo foi retirado.
Eis o vídeo da música tão polemizada.
Os ânimos deram uma acalmada. Mas as falcatruas, ao que tudo indica, não.
A reportagem de capa do jornal Zero Hora de 10/07/2012 aborda o caso de Lídia Rosa Schons, uma funcionária da Assembleia Legislativa, que por 15 dias foi flagrada passeando com seu cão e fazendo compras quando deveria estar cumprindo horário no gabinete do Deputado Paulo Azeredo (PDT). Em entrevista ao jornal, ela afirma que 7 dos 15 dias são de suas férias, que teriam sido tiradas apenas "no papel", que trabalha das 08h30min às 13h30min, que tem a mãe doente, precisando de seus cuidados, e que comunicou seus superiores sobre o fato.
O líder da bancada do PDT, Gerson Burmann, o deputado Paulo Azeredo e o chefe de seu gabinete, Jose Renato Heck, isentam-se de responsabilidade pela efetividade (ou melhor, né?!, pela não efetividade) da funcionária. Aquele famoso não é comigo, não vi nada, não sei de nada. Os fatos vão ser apurados pelo Ministério Público e isso vai dar, provavelmente, em algo parecido com pizza.
Não cabe a eu julgar os poderes e atribuições de cada função. Ademais, cada um é dono do seu rabo. Só que tem uma ressalva: admitir as consequâncias de suas escolhas, de suas atitudes é o mínimo que se pode fazer.
Pois bem. Onde vamos chegar? O Ministéio Público já apurou várias vezes a existência de funcionários fantasmas na Assembleia. Fica a pergunta: alguém foi responsabilizado ou obrigado a devolver R$ 1,00 aos cofres públicos? Talvez eu seja um ignorante besta que não esteja sabendo de como terminaram as investigações, mas...
Outra coisa! A reportagem aponta que o salário da funcionária é de R$ 24.300,00. Oras, não me interessa que ela esteja trabalhando na Assembleia desde que os índios foram catequizados pelos portugueses. E não estou pondo em questão seu desempenho, nem diminuindo sua importância naquela casa. Me refiro, apenas, à gritante disparidade salarial. Eu preciso trabalhar 2 anos (e não me envergonho de admitir isso - tampouco me orgulho) para ganhar o que essa funcionária ganha em um único mês. Aliás, o que eu ganho num mês de trabalho deve ser o que ela gasta com a ração que dá para o cão que leva diariamente passear. Alguma coisa está errada nisso tudo, não?
Bem, fica registrada minha indignação. Queria ter poderes mágicos que pudessem diminuir meu sentimento de impotência frente a essa triste realidade.
Sao coisas rotineiras que acontecem ali, ao lado da Catedral Metropolitana, ao lado da Praça da Matriz... 

(in)exatidão matemática

Paixão e amor não tem exatidão matemática. Não há um indicativo que aponte onde começa um e onde termina o outro. Tampouco existe uma lógica entre o que vem primeiro e o que (ou no que), mais tarde, isso vai se tornar.

Conheço pessoas que se apaixonam e essa paixão vira um amor. Não menos verdade, conheço pessoas que amam para depois se apaixonar. Outras não sabem o que estão vivenciando, se paixão, se amor, entre tantos outros "se".

Algumas pessoas sentem verdadeiramente. Outras fingem tão bem que enganam-se a si próprias. Certas vezes o sentimento é expontâneo, natural, lindo. Em outros casos, imposição, faz de contas, tesão.

Pedrinho, certa feita, me disse que não consegue amar Mariazinha. Ele se diz um eterno apaixonado e ter medo que o amor chegue e bagunce tudo o que seu romantismo construiu. 
Outro dia, Y, que é uma mulher muito atraente, me confidenciou que desconfia que não ama mais X, mas que não vive sem o corpo dele, sem seu sexo. 
E (olhem só!), dias atrás H, num papo de bastidores, naquelas conversas descontraídas que às vezes revelam muitos mistérios, deixou escapar que ama muito M mas que não quer ter um romance com ela. Para ele, o amor não obedece  regras de mercado, de escambos, na qual uma pessoa só ama a outra na ânsia de ser amada. Ele apenas a ama. Só isso e nada mais.

São coisas da alma humana, não? E, sendo assim, querer que as vivências das outras pessoas se baseiem em nossas próprias verdades, em nossos parâmetros existenciais, pode ser um tanto nocivo para ambas as partes, tanto para quem julga, quanto para quem é julgado.
O caminho é a compreensão, não os rótulos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O que temer

"Não tenha medo de conhecer pessoas, de se relacionar, de se envolver ou de desistir de tudo isso! Tenha medo, isto sim, de se deixar contaminar pela hipocrisia que gere a vida da maioria, pela falsidade e por esta habilidade asquerosa de mentir e dizer ao outro palavras doces que não correspondem aos seus sentimentos."

Cláudia de Marchi em seu blog, Apenas Ideias.

sábado, 7 de julho de 2012

Qualquer semelhança não é mera coincidência

"O brabo de experimentar quase tudo na vida é que chega um momento em que você parece que já fez tudo, ouviu todas as canções, foi a todas as festas, provou todos os gostos, fotografou todas as paisagens. Eu e o mundo exterior estamos em litígio, nos separando aos poucos, às vezes apenas nos esforçando para manter as aparências. Foi-se a época de sexo, drogas e rock n' roll. Meu lema, nos últimos tempos, tem sido jazz, chocolate e auto-erotização."

Gabito Nunes em sua página.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A gente se acostuma

Um espetáculo para ler ou ouvir (ou ambos).
Boa reflexão.
Abraço de paz!


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

 

terça-feira, 3 de julho de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Da minha vibração*

As famílias tentam educar, as escolas e universidade tentam ensinar, mas o fato é que tem coisas na vida que não têm como serem absorvidas sem a vivência.
Saber perder, por exemplo, é algo que não se encontra em nenhuma cartilha. Ninguém chega e te oferece um curso de como ser um bom perdedor em três módulos, básico, intermediário e avançado. Não é que a vida seja como um jogo, no qual depois do start inicial é cada um por si e deus contra todos. Mas há algumas semelhanças, não?
Quando falo em perdas não me refiro a algo em específico, mas num âmbito geral. Ainda crianças, devido aos estágios do desenvolvimento, perdemos o peito materno - ah, o peito da mamãe! Com as confusões e os enigmas da adolescência ganhamos uma certa malandragem, que aos poucos vai deixando os atributos angelicais e a inocência para trás. Depois das primeiras transas o lance já não é mais só beijar na boca. As responsabilidades do adulto jovem fazem dar saudades dos tempos em que os compromissos eram poucos ou que se podia esquivar deles. Enfim, cada momento tem seu êxtase e, inevitavelmente, algumas coisas vão se perdendo no caminho. 
Bem, voltando à questão de saber perder. A cada dia a gente tem um decréscimo de vida. É duro admitir isso? É, até pode ser. Mas a cada tic-tac do relógio nosso tempo vai expirando tal como uma licença de antivírus de computador. Com um detalhe, as licenças podem ser renovadas, já a vida tem de ser vivida até o último suspiro. E depois disso? Cremação, céu, inferno, purgatório, reencarnação e tudo mais não passa de especulação. Afinal, não se tem registro de alguém que voltou para dizer o que vem depois que o médico atesta o óbito.
Acontece que a maior parte da sociedade insiste em imprimir nas pessoas que elas devem ser bonitas, saudáveis (ou nem tanto, desde que tenham silicone e bunda empinada e barriga de tanquinho), vencedoras, cheias de sucesso, realizações, prosperidade, etc e tal. Isso não remete às semelhanças da vida com um jogo? Ah, deixa pra lá esse lance de vida, jogo, jogo da vida. Esquece.
Então, às vezes o melhor caminho é andar na contramão do que é imposto como certo. Ao conjecturar que na vida tudo é um mar de rosas você pode estar à beira do suicídio se alguma pétala for levada pelo vento. Porque não admitir nossa condição humana, imperfeita? Não que isso seja explicação para os fracassos ou discurso de derrotado. Ao contrário, é importante tomar ciência de que as coisas podem não sair conforme planejamos, que algumas coisas não dependem apenas da nossa volição, que exatidão mesmo só nas ciências exatas. Probabilidades e possibilidades, aproximações. É isso que temos. E aprender a trabalhar com isso é muito bacana.
Às vezes vamos perder uma amizade, relacionamentos afetivos serão desfeitos, haverá morte de pessoas queridas e tantas outras coisas que fazem parte dos mistérios da vida. Cada uma destas situações envolve perdas. E para perdas há de se fazer um processo de luto bem elaborado para não cair em problemas ainda mais sérios que a própria perda.
Muitas pessoas se desestabilizam, se desestruturam quando passam por perdas, por menores que possam parecer seus efeitos. Eu até me dou bem com as intempéries e armadilhas da vida. E quando estou parecendo um bobo alegre é porque eu não posso deixar de vibrar com cada detalhe desta dádiva que é estar vivo. 
São apenas características. Não existe uma maneira certa e outra errada de viver, tampouco algo bom ou ruim. São diferentes formas que se expressam as existencialidades. Como diria Will Goya "sem contexto, tudo é nada".

* Inspirado pela crônica de David Coimbra, O que mais sei fazer, publicada no jornal Zero Hora de 29/05/2012.
"O que quero dizer é que a rejeição e o fracasso não me roubam o bom humor. Estou acostumado com eles. Mas vejo que a maioria das pessoas não está. A maioria das pessoas é vencedora. Elas têm excelente opinião sobre si mesmas e, se sofrem um revés, se abalam, se entristecem."          

"O amor é o ridículo da vida...

... a gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas.
Morrer não dói."

Cazuza

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Possibilidades

Às vezes dizem algumas verdades não para que se sinta culpado, humilhado ou porque querem que mude. Muito menos para que se envaideça. Só o fazem por imaginar que você tem condições de ouvir isso sem que uma ferida se abra.
Mentem não para trapacear ou te fazer de idiota. Talvez sejam meias verdades, omissões. Isso pode ser com o intuito de não fazer teu mundo desmoronar. Longe de ser trapaça, pode ser demonstração de carinho. 
Às vezes a cabeça pensa uma coisa, o coração diz outra, os valores indicam para outra direção, a sociedade aponta novas possibilidades ou velhas respostas. E disso tudo podem vir perguntas ou respostas, afirmações ou incertezas.
O mesmo ócio que pode ser criativo, pode levar à beira do precipício, ao abismo. As crises podem tanto impulsionar para baixo quanto dar um up, revelar perspectivas surpreendentes que jamais seriam vislumbradas numa zona de conforto.
A rotina tem um poder de destruição enorme. Porém, pode ser ela, ou a luta contra ela, um elo de interseção que mantém pessoas unidas. Algumas até fazem questão de seguir rotinas pré-estabelecidas a ponto de tudo ir por água abaixo caso uma vírgula não saia como planejado. 
Alguns finais são finais, alguns são inícios, outros são recomeços. Alguns inícios não passam de retomadas. Algumas retomadas nada tem a ver com recomeços.

O que isso tudo quer dizer? Talvez nada, talvez muito. 
Possibilidades. E quando se fala de possibilidades, algo pode ser considerado ou impossível ou pouco provável, dependendo de quem encara o desafio. 
Mesmo sendo pouco provável, algumas coisas não são impossíveis.
E para as impossíveis, paciência e serenidade para admitir, novamente, a condição humana, de meros mortais.


F O R Z A !

Ao som de Fix You - Coldplay
 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Das obsolescências

O desenvolvimento científico-teconlógico tem tornado muita coisa ultrapassada da noite para o dia. Para experienciar isso basta dar uma olhada ao nosso redor. Aparelhos eletrônicos surgem num ritmo frenético com funcionalidades mil e o que foi lançado hoje como top de linha está sujeito a ser obsoleto amanhã.
Não há como negar os pontos positivos disso. A comunicação, por exemplo, tem sido possibilitada por N formas que no século passado sequer podiam ser pensadas. Ainda assim, surgem algumas reflexões. Até que ponto isso é producente para a humanidade? Como isso está refletindo na vida das pessoas? 

Tenho observado, de modo geral, que os relacionamentos estão, de certa forma, se tornado um tanto superficiais. Talvez eu esteja exagerando, ou dirigindo minha intencionalidade ao que estou querendo explicar, sei lá. Mas percebo que muita coisa de foro íntimo, de relacionamentos interpessoais, de altruísmo tem se tornado descartável. Parece que para tudo há um prazo de validade. E nesse ritmo, muitas existencialidades estão perdendo suas referências. Então começam a aparecer sintomas diversos, devido aos conflitos existenciais, estruturais, e algumas pessoas dizem não saber o que está acontecendo. 

Parece uma tese muito simplista, mas algumas estruturas existenciais não estão preparadas para acompanhar as rápidas e constantes mudanças, a ponto de desencadearem processos de desestruturação.
Por isso nunca é demais diminuir o ritmo, respirar fundo e pensar onde quero chegar e o que estou fazendo para tanto. Talvez isso seja producente para algumas pessoas. Para outras, não.   

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quando eu blogava direto, quando postava mais coisas aqui eu devia ter uma meia dúzia de leitores. Como tem ficado longo o tempo entre as postagens, devo ter umas duas pessoas que leem o que publico neste espaço.
=)

O penúltimo post foi sobre a polêmica envolvendo a Participação do Gabriel O Pensador na Feira do Livro de Bento Gonçalves/RS. Pois nem bem tinha baixado a poeira e O Pensador apresentou um clipe em resposta ao que aconteceu.
Na minha opinião, uma grande sacada. 
E ficou assim.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Eu estou sendo ingênuo

Algumas coisas estão além de nossa capacidade de entendimento lógico e não dependem somente de nós, da nossa volição.
Nas palavras de Nietzsche, "Só as pessoas por demais ingênuas é que podem acreditar que a natureza humana poderia ser transformada numa natureza puramente lógica".


As coisas meio que descarrilaram e eu com essa minha mania de querer entender tudo. Às vezes penso que por isso sou um idiota, mas Nietzsche me alertou que isso é ingenuidade. 
Menos mau que há uma enorme diferença entre ser ou estar sendo algo.
E, sim, eu estou sendo ingênuo. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A cultura ou a ignorância - 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves


O escritor e músico Gabriel, O Pensador foi convidado para ser patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves/RS, que acontecerá neste ano de 2012. A Prefeitura Municipal optou, ainda, por contratar o artista para duas palestras para alunos da cidade e para o show musical de encerramento da Feira, além da compra de 2 mil livros (mil de “Diário Noturno” e mil de “Um garoto chamado Roberto”) para serem repassados às bibliotecas das escolas municipais como incentivo à leitura.

Agindo conforme orienta o bom censo e a legalidade, a Prefeitura divulgou os valores envolvidos nas atividades de Garbiel, O Pensador, R$ 169.430,00. Isso gerou certo desconforto para alguns escritores convidados que receberiam um cachê simbólico pela participação no evento, que foram à mídia e veicularam os milhares de reais a serem repassados para o artista como sendo cachê pela sua participação na Feira do Livro e por ser ele o patrono da mesma. Estava instalado o mal entendido.

Gabriel, O Pensador veio a público para esclarecer o que estava acontecendo. Segundo ele, no valor estavam incluídos todos os serviços e impostos de suas atividades. Ele citou algumas: a venda dos 2 mil exemplares de livros a R$ 35,00 cada, que resulta em R$ 70.000,00, mais R$ 2.016,00 de 2,88% de imposto; passagens aéreas, diárias de alimentação, hospedagem e transporte terrestre para o recebimento da faixa de patrono, que fecharia em cerca de R$ 2.093,00; os mesmo serviços para as palestras, outros R$ 2.093,00; para o show, R$ 60.000,00, mais R$ 10.200,00 de 17% de imposto, mais passagens, hospedagens, transporte e alimentação para a banda e a equipe, R$ 18.568,00; material e equipe de produção de DVD, R$ 3.890,00, mais R$ 661,98 de 17% de impostos; entre outros valores que chegam aos tão comentados R$ 169.430,00. Pela polêmica que se tornou sua presença na Feira do Livro, a Prefeitura Municipal e o artista chegaram ao consenso de não haver mais a compra dos livros para o repasse às escolas, tampouco o show musical de encerramento do evento. Gabriel, O Pensador, porém, não abriu mãos de ser o patrono da feira e o fará de forma gratuita.



Como estamos vivendo um momento do politicamente correto, não é de se espantar que se faça sensacionalismo em torno de algumas temáticas no intuito de desviar o foco de outras.

Ora bolas! O que significa R$ 170.000,00 para ser investido em cultura e educação? Garanto que se os valores referentes à contratação dos serviços de Gabriel, O Pensador não tivessem sido divulgados, nada disso teria acontecido e tudo sairia conforme programado, com entrega de livros às bibliotecas escolares, palestras, show e tudo mais. E digo mais: as cifras de R$ 170.000,00 são desviadas de tantas coisas cotidianamente neste nosso Brasil hipócrita e para isso não acontece nada. Chegamos ao ponto de estar quase se tornando lei que enriquecimento ilícito é crime. Ah, mas que comédia mesmo! Se uma pessoa fatura R$ 5.000,00 por mês, não é o correto que ao final do ano (que tem só 12 meses) ela tenha acumulado algo em torno dos R$ 60.000,00? Não é estranho que uma pessoa, nas circunstâncias citadas, chegue ao final do ano com uma conta bancária de R$ 300.000,00? De onde vem a grana? Depósito transcendental divino?
                Ademais, voltando ao episódio de honorários para escritores, artistas etc, etc... não é digno que os mesmos recebam por seu trabalho? Ou hão de se alimentar de luz, de andar com lençóis cobrindo o corpo, andando descalços? Talvez por alguns elementos arraigados na educação brasileira, a cultura é algo que não merece investimentos. Parafraseando a ilustre frase de Derek Bok, se custear a cultura está caro, arcar com o preço da ignorância será ainda pior.

sábado, 21 de abril de 2012

2037: que Brasil será o seu?

Este é o título de um artigo de Carolina Fuhrmeister, Diretora do Fórum da Liberdade, publicado no Jornal Zero Hora. Nele, Fuhrmeister apresenta alguns dados referentes à realidade do Brasil no cenário mundial: somos a 6ª economia do mundo, estamos na 84ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupamos a posição 104 em infraestrutura, na qualidade do sistema educacional estamos no 115º lugar, no índice de percepção da corrupção estamos em 73º (o que significa um rombo nos cofres públicos de cerca de R$ 82 bilhões por ano em falcatruas) e temos 16 milhões de pessoas na miséria.
Fuhrmeister aponta que planejamento não é forte do Brasil, pois a previsão para os próximos 4 anos é que sejam gastos 70 bilhões com a Copa do Mundo e com as Olimíadas.
A autora afirma que "guerreiro esse povo é. Mas ainda nos faltam grandes doses de atitude".

Que Brasil eu estou construindo para as próximas gerações? Não sei se estou conseguindo por em prática, mas o país que eu quero é um país em que, no mínimo, as pessoas consigam pensar de forma que não sejam apenas meras reprodutoras do que é posto pelo sistema.
Pouco? Utopia? Pode ser. Mas é meu trabalho de formiguinha, lento e gradual. Quem sabe vá fazer alguma diferença algum dia. E se não fizer, fuck you too!   

Música tema: Marilyn Manson - Mutilation is the most sincere form of flattery

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Do filme "Medianeras - Buenos Aires na era do amor digital"

"
Quem será que foram os gênios que taparam os rios com prédios e o céu com fios? Tantos km de cabos servem pra nos unir ou nos afastar? Cada em seu lugar...
A telefonia celular invadiu o mundo com a promessa de te deixar conectado sempre, mensagens de texto! Uma nova linguagem adaptada a 10 teclas que reduz as nossas línguas mais belas a um vocabulário primitivo limitado e sem cultura.
O futuro está na fibra ótica e no céu limpo! Dentre tantas vantagens eles prometem que você conseguirá ajustar a temperatura de sua casa mesmo estando no trabalho, é claro que eles já sabem que não tem ninguém te esperando com a casa quentinha.
Bem vindo à era das relações virtuais.
"

Como diria o Chorão, "cuide de quem corre do teu lado e quem te quer bem. Essa é a coisa mais pura".

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Por uma nova ética

O Supremo Tribunal Federal (STF) me chamou para eu dar meu voto no julgamento que pede a liberação ou a descriminalização do aborto para fetos sem cérebro. Num primeiro momento eu fiquei surpreso, mas vesti uma toga preta e lá fui eu.

Depois de cumprimentar os ministros que tem poder de decisão, tratei de deixar bem claro que eu não sou ministro, não sou advogado, não sou desembargador, não sou juiz, não sou deputado, não sou padre e nem pastor, não sou médico, não sou cientista, não sou santo, não sou nenhuma divindade e, mesmo não sabendo o motivo pelo qual eu estava ali dando meu veredito, disse que não queria afrontar ou ofender alguém com minhas considerações.

Eu estava trêmulo. Que caminhos percorrer?

- “Meus caros, quando começa uma vida? Quando o óvulo é fecundado pelo espermatozoide? Com a passagem de alguns meses de desenvolvimento do feto? A vida começaria, talvez, no nascimento?

Bem, permitam-me algumas considerações. A partir do surgimento do Cristianismo, a vida passou a ter um caráter sagrado, sendo que a vida humana foi sobreposta à vida de qualquer outro ser. Esta ideia cristã perpassou tradições e perdurou por mais de dois mil anos. Somente há pouco tempo algumas pessoas começaram a contrapor as verdades advindas dos dogmas cristãos, fazendo surgir novas visões de mundo e ampliando as possibilidades de reflexões éticas.

Peter Singer é uma destas pessoas que apresentaram novos paradigmas para a humanidade. Ele propõe uma ética teleontológica, na qual o valor de uma ação é medida por seu fim, por seu resultado. Nesta perspectiva utilitarista, Singer requer que imaginemos as possíveis consequências de nossos atos. Segundo suas considerações, uma ação será moralmente boa quando seus resultados proporcionarem um aumento de felicidade ou uma diminuição da dor da maioria dos afetados por tal ação.

Para a ética tradicional calcada em valores arraigados há milênios, a ética proposta por Singer é insustentável, pois vários de seus elementos entram em conflito com o que a tradição nos legou. A vida possui um valor sagrado, estando acima de todo e qualquer aspecto, privar alguém dela é pecado, homicídio, crime. No rompimento que Singer promove com o que ele chama de velha ética, a eutanásia e o aborto são elencadas como atitudes que podem ser moralmente aceitas e justificáveis, de tal forma que tais atos sejam descriminalizados.

Visto que a proposta singeriana leva em consideração o aumento de felicidade ou a diminuição da dor, interromper uma gravidez na qual foi detectada anencefalia é uma atitude considerada moralmente boa. Isto devido ao sofrimento de todos os envolvidos numa gestação nestes termos, nos quais nem imaginamos o quão doloroso seja, tanto física quanto psicologicamente.

Cabe ressaltar que quando estamos na esfera da ética, a decisão final é sempre do indivíduo. Portanto, se é o desejo de uma mãe ou da família que seja interrompida uma gravidez de um feto anencefálico, não é o Estado ou a Igreja quem deve intervir em tal decisão. Se uma pessoa manifesta conscientemente seu desejo de não permanecer em estado vegetativo, em coma induzido caso isso venha lhe acontecer, quem tem poder de desautorizar esta decisão? Da mesma forma, se uma família decide que é melhor que os profissionais da saúde desliguem os aparelhos daquele familiar que está vegetando já há algum tempo, é o juramento dos médicos que impede que isso se realize?

Devemos pensar, sim, em garantir o direito à plenitude da vida. Mas não devemos confundir o direito à morte com crime, com homicídio.

Tenho meus motivos, portanto, para votar a favor da descriminalização do aborto em casos de má formação genética que indicam anencefalia. E meu voto se dá neste sentido.

Obrigado pela atenção”.

Antes mesmo do relator dar prosseguimento ao ato, eu acordei suado. Meu quarto escuro ao invés da luminosidade da sede do STF, sozinho, ao contrário dos holofotes daquele agitado lugar, de cueca no lugar da toga e com a convicção de que o resultado seria favorável ao que havia sido encaminhado para votação.

quarta-feira, 28 de março de 2012