Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O caminho é você quem traça

Não sou muito pretensioso. Lembro de um passado no qual eu bolava planos mirabolantes na minha cabeça quanto ao futuro. Mas hoje a lista do que eu preciso para viver é bem menor. Acho que a tônica agora é intensidade, qualidade e não quantidade. Mas isso não necessariamente quer dizer que eu não queira ser uma pessoa melhor a cada dia. Não melhor que alguém, mas melhor para eu mesmo e melhor que eu mesmo. Superação, desenvolvimento, crescimento para que a vida não passe em vão e para que ela não seja inútil, fútil.

Mário Sérgio Cortella diz que "gente que é grande de verdade sabe que é pequena e por isso cresce; gente muito pequena acha que já é grande e o único modo de ela crescer é se ela abaixar/humilhar outra pessoa". Portanto, para potencializar a capacidade de crescimento devemos perceber nossa condição de pequenez. Não que devemos abortar nossos sonhos e ambições, mas nutrirmos a insatisfação. Guimarães Rosa já nos alertou que "o animal satisfeito dorme". A satisfação dá a falsa impressão de que tudo está consumado e de não se pode ir além de onde se está. 

Os deuses deram as cartas. A sorte foi lançada. Mas muito do resultado depende do que você fez a partir do momento que entrou no jogo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"tu és um vice-treco do sub-troço" *

"Tu és um indivíduo entre outros 6 bilhões e 400 milhões de indivíduos, compondo uma única espécie entre outras 3 milhões de espécies já classificadas, que vive num planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre outras 100 bilhões de estrelas, compondo uma única galáxia, entre outras 200 bilhões de galáxias, num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

Quem é você? Quem sou eu?
Quem sou para achar que o único modo de fazer as coisas é como eu faço? Quem sou eu para achar que cor de pele adequada é a que eu tenho? Quem sou para achar que o único lugar bom para nascer foi onde eu nasci? Quem sou eu para achar que o único sotaque correto é o que eu uso? Quem sou eu para achar que a única religião certa é a que eu pratico? Quem sou eu?
Quem és tu? Tu és um vice-treco do sub-troço.”



* Mário Sérgio Cortella - em 2007.

=)


terça-feira, 18 de junho de 2013

Cansamos

Impossível não lembrar das canções do Cazuza, do Renato Russo, do Raul Seixas, da Plebe Rude, dos Titãs, dos Paralamas do Sucesso, dos Detonautas Roque Clube, do Gabriel O Pensador e tantos outros artistas que expressam em suas letras um sentimento de protesto, de revolta, de indignação. Mas não dá pra esquecer que muitos deles também propaga a paz, o amor, a poesia.
O Brasil está em ebulição. Muitas pessoas estão mudando de atitude, passando da passividade para a atividade, do comodismo para a reflexão, da teoria para a prática. Muitos brasileiros cansaram.
Nosso cansaço vem do descaso com as necessidades básicas dos cidadãos. Cansamos de trabalhar meio ano para pagar impostos. Cansamos de ver esses impostos irem para contas bancárias e cuecas de políticos corruptos. Cansamos de sustentar esse engravatados que são os mais caros do mundo. Cansamos de ver políticas públicas baratas feitas somente com o intuito de troca de favores eleitorais. Cansamos de ver gente morrendo em filas de hospitais. Cansamos de ver colarinhos brancos atolados até a bunda com propinas e falcatruas de todas as espécies. Cansamos de ver criança passando fome. Cansamos de idosos levando anos para receber uma migalha de aposentadoria. Cansamos de mendigar o mínimo, sabendo que de nós sempre foi cobrado o máximo. Cansamos de ver servidores públicos abandonando a carreira por falta de capacitação e de remuneração. Cansamos de ter nossos direitos privados sem justificativas morais e legais para tanto. Cansamos duma falsa democracia. Cansamos de ver gente fodendo com a nossa vida e com os nossos sonhos enquanto apenas gritávamos gol. Cansamos disso e de muitas outras coisas que cada um pode ir acrescentando motivos na lista ad infinitum. O jogo agora é outro. As regras são outras. Chega de ser prego, é hora de sermos martelo.
As manifestações que estão ocorrendo no país são, sim, legítimas. Essa história que a mídia está tentando passar, de que são apelos pela redução dos valores das passagens do transporte público das grandes cidades, é mais uma tentativa de minimizar os problemas que estão bem embaixo do nosso nariz. Só não enxerga quem não quer ver e quem é da elite que caga para o resto da população. Aliás, para entender um pouco mais do que realmente está acontecendo o mais indicado é que a televisão seja desligada. As redes sociais estão cheias de conteúdos, textos, imagens, vídeos do que está se passando em todos os cantos do Brasil. 
Os protestos estão ocorrendo num momento oportuno, já que os holofotes mundiais estão direcionados ao país devido à realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de Futebol. Os maiores motivos que eu vejo para a indignação e que me parecem contribuir para isso são os gastos elevados na construção de estádios para esses eventos, principalmente os das cidade que depois não sediarão eventos da mesma magnitude, e as barbáries que nossos representantes da Câmara dos Deputados e do Senado estão cometendo.
Está havendo excessos da polícia? Sim! Muitas vezes os policias acabam exagerando na dose e cometendo idiotices sem tamanho de abuso de autoridade e violência contra os manifestantes. Na semana passada o que mais teve foi disparo com munição de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. Isso só mostra o despreparo que eles têm para lidar com situações assim. Ontem em São Paulo a manifestação já foi mais pacífica e espera-se que assim seja de agora em diante.
Está havendo atos de vandalismo? Sim! Algumas pessoas também acabam confundindo um ato pacífico com um ato extremista. Além disso, há todo tipo de pessoa infiltrada numa massa de milhares de manifestantes. Então, nem 8, nem 80. Nem toda a polícia, nem todos os manifestantes são santos.
O fato é que o momento é um marco no futuro do país. 
Eu sou a favor das manifestações. Se possível, que seja sem violência de todas as partes. 
E que as cabeças pensantes continuem espalhando mensagens que possam contribuir para dar novos rumos para a zona chamada Brasil. Porque administrada do jeito que está, não dá. E nós cansamos...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

um pouco de realidade na fantasia ou um pouco de fantasia na realidade

Apenas mais um dia. Difícil, diga-se de passagem.
Depois de dias difíceis as criaturas noturnas tem ainda mais dificuldade de acomodar os pensamentos e dormir em paz. Uma mesa de bar e algumas bebidas costumam ser ótimas companhias e tranquilizantes melhores do que os vendidos nas farmácias.
Fim de noite. Esgotamento quase total. Percepção alterada. A noção do tempo já foi para o espaço. As energias são levemente revigoradas com apenas um olhar, com um gesto mínimo que aponte para a reciprocidade de diversão a dois. É hora de dar vazão aos instintos sem se preocupar com os papéis sociais ou quaisquer outras convenções que não se aplicam para o momento. Como expressou Bukowski, “sinta mais, pense menos”. E esse é o nosso acordo: se entregar, curtir e guardar isso só para nós mesmos. Foda-se o mundo lá fora. Agora o que importa é eu e você. E o que a gente pode fazer juntos.
O momento é nosso e de ninguém mais. Nossos corpos ávidos e sedentos entram em combustão quando sentem o calor um do outro. A química envolve os olhares, os toques, os cheiros, os suspiros, os sussurros, os gemidos, os sorrisos. E tudo isso é espontâneo. Ninguém nos obrigou, ninguém nos forçou. Estamos nos divertindo por opção, sendo levados pelo desejo, pelo tesão. Sensações indescritíveis fazem parte desses instantes sublimes. Esses prazeres carnais contribuem para deixar a alma leve.
Eu curti pra caralho! Quero bis. Se tiver outra oportunidade pode crer que não vai ser menos intenso, nem menos divertido.
O dia seguinte não teve ressaca moral. E a coisa mais agradável foi sentir o cheiro do teu corpo e dos teus cabelos em mim e na minha roupa.  

Valeu. Um piscar de olhos para você. ;) 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dos dilemas da vida*

Duas pessoas, um homem e uma mulher, tem um compromisso uma para com a outra. 
O homem adoece. É diagnosticado um problema renal e a necessidade de transplante é urgente. 
A mulher realiza exames para verificar a compatibilidade. Ela poderia ser a doadora, não fosse a gravidez, descoberta na bateria de exames há pouco feita. Caso deseje mesmo doar o órgão ao parceiro, o feto não resistirá.
Eis aí o dilema para ambos.
O homem abre mão de sua própria vida para que a mulher tenha o bebê?
E a mulher, aborta o bebê para salvar a vida do companheiro?
Vários aspectos têm que ser ponderados para um esboço de argumentação. Imaginem, então, vivenciar esse dilema na pele... 
Deixemos as respostas simplórias para depois e nos esforcemos nessa tarefa hipotética. A questão é: e se eu estivesse diretamente envolvido numa situação assim?

* Ao som de

domingo, 19 de maio de 2013

Uma dúzia de mulheres que fazem minha cabeça

Algumas coisas mexem com o imaginário masculino. Às vezes eu fecho os olhos, abstraio e viajo com as vozes, sussurros e gritos dessas divas da música. Elas cantam e encantam, literalmente.

#musicismyreligion

Tarja Turunen, Amy Lee, Pitty, Flávia Couri, Érika Martins, Vivi Peçaibes, Vanessa Krongold, Megh Stock, Tati Portella, Deia Cassali, Luísa LoveFoxxx, Andrea Martins.

Di-vir-tam-se!
=)


























segunda-feira, 13 de maio de 2013

Barba Ensopada de Sangue

O pai o chama o para uma conversa franca. Eles conversam sobre a misteriosa e não esclarecida morte do avô. Inesperadamente, o pai pede para que lhe prometa uma coisa: sacrificar a cadela que há tantos anos lhe acompanha. Motivo? O pai tomara a decisão de suicidar-se. Acha que está velho e doente, que já viveu o que poderia viver, que já cumpriu sua jornada na terra.
Após o suicídio do pai, pega seus poucos pertences e muda-se para Garopaba. Não sacrifica a cadela, que torna-se sua melhor companhia. Aluga um lugar à beira-mar para morar, com pagamento adiantado por um ano. Vende seu Fista e começa a trabalhar numa academia, dando aulas de natação. Passa a perguntar para as pessoas se tem alguma informação do Gaudério, seu avô, que teria sido morto por aquelas bandas. Em vão.
Conhece algumas pessoas, inclusive algumas garotas com as quais manteve relacionamentos curtos e conturbados. Continua tentando desvendar o mistério da morte do avô e larga o trabalho. Se mete em grandes enrascadas remexendo no passado e pondo a própria vida (e a sanidade) em risco.
Certa feita recebe a visita da mãe. Quem o visita também é a esposa do seu irmão, sua ex-namorada, que o convida para ser padrinho do filho que está esperando...
Isso e tantas outras tramas se passam no livro de Gabriel Galera. Uma leitura envolvente, cheia de reflexões das bifurcações e surpresas que a vida eventualmente apresenta.

Trechos que (como de costume) grifei.

"Na adolescência o resto da vida parece uma eternidade e vamos supondo que sobrará tempo para tudo."

"Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo." 

"Tô começando a ficar doente e não tô a fim. Não sinto mais o gosto da cerveja, os charutos tão me fazendo mal e não consigo parar, não tenho vontade nem de tomar viagra pra fuder, não tenho nem a nostalgia de fuder. Essa vida é comprida demais e não tenho paciência. Viver depois dos sessenta, pra quem teve uma vida como a minha, é questão de teimosia. Respeito quem investe nisso, mas não tô a fim.Fui feliz até uns dois anos atrás e agora quero ir embora. Quem acha errado que viva até os cem se quiser, desejo sucesso. Nada contra."

"O que seria da gente sem falsas esperanças?"

"Às vezes só com as sacudidas e choques que a vida dá a gente consegue ter o desprendimento pra concretizar sonhos[...]"

"Essas coisas de relacionamento a gente não escolhe quando acontece. O vento cármico leva e traz."

"Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar despercebida."

"O melhor é jamais fazer esforço nenhum para conquistar ninguém."

"[...] há casos famosos de pessoas que se mataram por tédio ou cansaço, naturezas predispostas a ver a morte como uma questão pragmática. Vive-se enquanto vale a pena, enquanto é útil."

"O verão é euforia, dinheiro. O povo fica ocupado demais pra sofrer. O inverno é tédio, falta de perspectiva. Frio. Aí o bicho pega."

"É uma sociedade inteira despreparada pro sofrimento ou consciente demais do sofrimento. Quanto mais a gente compreende e trata o sofrimento mais a gente acha que sofre e ao mesmo tempo o sofrimento dos outros começa a parecer frescura."

"[...] falar sobre as coisas avacalha com tudo pra mim. Falar estraga. É só dar nome que morre."

"É sempre duro fazer o que tem que ser feito, romper com pessoas legais, mesmo quando se está convicto de que é o melhor."

"O amor é o coração do desespero."

"Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro."

"Ou existe livre-arbítrio ou não existe. Se o ser humano é um agente livre, se temos escolhas, podemos ser responsabilizados. Se não existe, se o universo é predeterminado pelas leis da natureza e tudo não passa do resultado do que aconteceu logo antes, aí ninguém tem culpa do que faz. Nem rancor nem perdão fazem sentido."

segunda-feira, 6 de maio de 2013

As coisas pelas quais valem a pena viver


Cada pessoa tem suas buscas e se posiciona perante o mundo de acordo com prerrogativas próprias, que vão sendo construídas no decorrer da vida. O respeito a isso é o mínimo que se espera.

A título de exemplificação, trago uma passagem do filme Sociedade dos Poetas Mortos, na qual um Professor explica aos seus alunos:
"Não lemos e escrevemos poesia porque é moda. Lemos e escrevemos poesia porque fazemos parte da raça humana. E a raça humana está impregnada de paixão. Medicina, Direito, Administração, Engenharia são atividades nobres, necessárias à vida. Mas a poesia a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais valem a pena viver"
Isso aponta para a representação de mundo do professor. As coisas são assim para ele. Para outras pessoas as coisas pelas quais valem a pena viver podem ser outras. 

Se eu te perguntar quais as coisas pelas quais valem a pena viver? Qual será a tua resposta? Faça um exercício: olhe para a tua história e veja se realmente isso que você está vivenciando tem a ver contigo e o que pode ser feito a partir daí.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

15 doses de Bukowski*

Sensacionais algumas passagens dos poemas do Bukowski. Palavras viscerais, ditadas pela experiência de vivências intensas e/ou devaneios complexos.
Nunca é demais compartilhar.
=)

Desempenhando
[...] às vezes o cheiro do amor e sempre o cheiro do sexo
[...] mas várias vezes
nos momentos mais intensos
e apaixonados
eu desejei se aquele
cara solitário novamente
sentado no cinema com
meu pacote de pipoca
enquanto ao meu redor
casais se sentavam
juntos
lado a lado."

Todas, uma boa tentativa
"[...] refletindo sobre o meu fértil passado
lembro de todas as mulheres que conheci
que no início do namoro 
já estavam desanimadas e in-
felizes por causa de suas tristes
experiências anteriores com outros
homens.
eu era considerado apenas mais uma
parada no meio do caminho
e talvez eu 
fosse e talvez eu não fosse.
as mulheres há tempos eram usadas e ab-
usadas
enquanto certamente acrescentavam sua porção de
abuso
à mistura."

Moça na escada rolante
[...] observo ele acompanhando ela
pela
escada rolante, seu braço
de forma protetora na cintura
dela, pensando que tem
sorte,
pensando que é um cara muito 
especial, pensando que
ninguém no mundo tem
o que ele tem.
e ele está certo, terrivelmente
terrivelmente certo"

Uma definição
"amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro
[...] amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
[...] amor é tudo que nós dissemos
que não era
[...] e amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.

Um poema de amor
[...] não fui nem depravado nem
desleal. apenas
um aprendiz.
[...] as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros 
assuntos; cada uma tem limites assim como eu tenho
limites e nos descobrimos
um ao outro
rapidamente."

Então você quer ser escritor?
"[...] a não ser que saia de 
sua alma como um foguete,
a não ser que ficar parado te
leva à loucura ou
ao suicídio ou assassinato,
não faça.
a não ser que o sol dentro de você esteja
queimando suas vísceras,
não faça."

O poema
"[...] o poema não é grande coisa
mas deixa eu te dizer
se não tivesse descoberto
ele
eu estaria morto"

Às vezes quando você fica triste há uma razão
"é preciso apenas 6 ou 8 líderes políticos inaptos
ou 8 ou 10 escritores, compositores e pintores pedantes para
fazer o curso natural do desenvolvimento humano
retroceder
50 anos
ou mais."

A índole da multidão
"[...] e os melhores, na guerra
- no final - são os que 
pregam 
a paz.
[...] Cuidado Com Os Que Sempre Procuram
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos."

Um truque para atenuar nosso sangramento
"[...] e o fracasso não foi nada maisque um
truque
para nos fazer continuar,
e a fama e o amor
um truque para atenuar nosso sangramento.
[...] palavras bonitas
assim como mulheres bonitas,
ficam enrugadas e morrem."

Está feito
"[...] se queixar sobre velhas feridas é
um estúpido desperdício do coração."

Fim
"[...]nós já matamos a nós mesmos
a cada dia que levantamos da cama."

Nós, dinossauros
"[...] nascemos nisso
em hospitais tão caros que é mais barato morrer
em advogados que cobram tanto que é mais barato
se declarar culpado
num país onde as cadeias estão lotadas e os hospícios fechados
num lugar onde as massas promovem idiotas a heróis ricos
nascemos nisso
caminhando e sobrevivendo a isso
morrendo por causa disso
mudos por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
desprezados por isso
ficando loucos e doentes por isso
ficando violentos
ficando desumanos
por isso"

Paraíso bastardo
"[...] mas o destino não é o único 
culpado.
nós desperdiçamos
nossas oportunidades,
nós estrangulamos
nossos próprios corações."

Jogue os dados
"se você tentar, vá até o 
fim.
caso contrário, nem comece.
[...] isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e 
talvez sua sanidade.
[...] solidão é uma dádiva."
           

                                                                                  *Trechos extraídos de

terça-feira, 2 de abril de 2013

Em que eu acredito?


            Religião é um tema um tanto delicado de conversar, sobretudo com quem tem uma visão unilateral e dogmática a respeita do mesmo. Por se tratar da fé das pessoas (e isso merece ser respeitado profundamente) geralmente o que se tem a fazer é ouvir a opinião da outra pessoa e entendê-la como legítima, contextualizando isso na história de vida dela. E ao expor a própria opinião não precisa ser ofensivo ou tentar convencer o outro a migrar para o mesmo credo que você. O mundo é muito vasto e nele tem espaço para todos, cada qual do seu modo, do seu jeito.
            Vez ou outra em converso com algumas pessoas que fazem parte de alguma religião ou que frequentam algum ritual religioso. Isso é uma opção existencial. Geralmente a institucionalização da fé acaba transformando a espiritualidade em religiosidade. E em casos assim o diálogo fica mais para monólogo. É quase inevitável que eu comunique a minha posição quanto aos assuntos apresentados. Acho interessante esse jogo de argumentos, embora perceba que a maioria deles já vem encaixotado/fechado de acordo com o que prega a doutrina que é seguida.
            Em alguns casos e para algumas pessoas a fé indispensável. Mas a fé cega, restrita aos dogmas das religiões, é um tanto perigosa, pois pode levar o indivíduo a uma alienação muito grande, deixando-o à mercê do que diz o padre, o bispo, o pastor. Às vezes esses que se intitulam como representantes de um sobrenatural na terra mais trabalham para tornar as pessoas ignorantes, quando na verdade deveriam esclarecê-las ou fazer outras coisas que não o que fazem. Com fé não se brinca. Ou ao menos não se deveria brincar.
            Há muito tempo me tornei agnóstico. Não tenho conhecimento, não posso saber da existência ou não de um ser sobrenatural, tampouco seus atributos e outros aspectos com relação a isso. Eu não sei. Simples assim. A capacidade humana é limitada e não temos alcance para saber/conhecer isso. O que existem são as crenças. Alguns acreditam na existência de um deus, ou de deuses, outros não acreditam. Eu estou mais para estes últimos. Então, recapitulando, sou agnóstico por não ter conhecimento, por não saber da existência de um sobrenatural e sou ateu por não acreditar nessa existência.
            Ter esses posicionamentos não me faz uma pessoa antiética, sem compaixão, desumana, et cetera e tal. Ser uma pessoa honesta e não fazer mal às pessoas, aos animais e ao planeta como um todo não necessariamente tem a ver com a crença religiosa. São coisas distintas. Algumas pessoas só agem assim impulsionadas pela fé, pela crença. Isso decorre, talvez, do entendimento de que Deus seria uma espécie de punidor das pessoas pelas coisas erradas que elas cometem e recompensador das mesmas pelas seus acertos. Meio infantil pensar assim, mas respeito que tem isso incutido sobre os ombros. E volto a afirmar, ética não tem a ver com religião. Se tivesse, pessoas religiosas não cometeriam algumas enormes atrocidades que vimos por aí.
            Eu costumo me questionar sobre dois pontos, já que admito não ter conhecimento, não saber sobre. Na hipótese afirmativa da existência de um sobrenatural e que ele possua algumas características que costumeiramente o são atribuídas, tal como onisciência, onipotência, onipresença, que ele seja infinitamente bom, infinitamente acolhedor e tudo mais que a tradição nos lega, (1) esse sobrenatural tem poder para interferir nas ações humanas? (2) Se tem, porque não o faz e permite que coisas más aconteçam com pessoas boas, com pessoas inocentes? Além dessas inquietações, outras coisas me instigam com relação ao assunto, mas vou abortar por aqui para não me estender muito e não correr (ainda mais) o risco de incompreensão ou julgamento equivocado.  
            É raro, após eu elucidar um pouco das minhas crenças (ou falta delas) não ouvir a pergunta “Mas então em que você acredita?” Não é uma resposta fácil. Há uma ebulição de ideias que apontam alguns caminhos. Costumo dizer que acredito nas pessoas, acredito no amor como sendo algo que dá sentido e movimento ao universo. Sim, o amor é o que nos move. Não esse amor romântico vendido nas bancas de revistas, nas novelas, nos faz-de-contas. Mas o amor como uma disposição para empenhar-se em fazer as coisas dando o melhor de si sem esperar nada em troca e sem querer tirar proveito sobre situações ou pessoas. Para alguns isso pode até parecer simplista, ou utópico, ou ridículo. Mas é isso. É nisso que eu acredito. É assim que eu me posiciono no mundo. É assim que eu vivo.
            Me desatei a escrever sobre essas coisas depois de ter lido, dias atrás, esse texto (clica pra ver) do David Coimbra, no qual ele fala de um câncer que culminou com a retirada de um rim. Sobre a situação ele fala do carinho e o apoio recebido das pessoas “Não há nada transcendental aí; o que há são as pessoas. Os homens. O homem que inventa a bomba atômica, mas que também desenvolve a medicina nuclear, o homem é, sim, o lobo do homem, mas também o seu consolo e a sua salvação. Depois de olhar na cara da morte, vi que a vida está na relação com as outras pessoas. As pessoas, as pessoas. Os outros seres humanos é que nos tornam humanos”.
            Minha pretensão com isso tudo? Instigar a reflexão e o senso crítico, lembrar que o preconceito não faz bem à nossa alma, quebrar algumas correntes que nos aprisionam e nos impedem de vislumbrar o que a vida tem a nos oferecer. Essas e algumas coisitas mais.
            Abraço de paz! 

sábado, 30 de março de 2013

*walk on

Duas pessoas vivenciam uma história juntas por um tempo. Um mês ou três séculos, sei lá. Curtem adoidado cada momento, são cúmplices uma para com a outra, se respeitam, combinam em muitas coisas e nas que discordam conseguem dialogar sem agressões verbais ou físicas. Enfim, se perfeição existisse elas seriam algo muito próximo dela. Mas eis que, por uma gama de fatores, o relacionamento finda. Aí vem as poções mágicas que tratam da existência como se a vida tivesse uma bula explicando a dosagem certa, o intervalo entre as aplicações ou ingestões, o período de repouso, o tempo para a recuperação plena...
Quem nunca ouviu algo parecido como as duas perguntas a seguir quando o assunto é o rompimento de um relacionamento? Minha opinião a respeito delas vem logo na sequência.

- Ah, se se dessem tão bem assim, se se amassem de verdade o relacionamento não acabaria, não é? 
Ué! Por que não? Volta e meia se vê gente por aí confessando que rompeu um relacionamento e que ainda ama o ou a ex. E que o ou a ex também continua o ou a amando. Se amor fosse tudo num relacionamento afetivo, certamente muitas relações ainda estariam de pé, firmes e fortes. Mas não, além do amor várias outras coisas estão envolvidas.

- Por que não deu certo?
E quem disse que não deu certo? Não deu certo para quem? Aquele mês ou aqueles três séculos foi o tempo que mais vai ficar marcado para a pessoa justamente porque deu certo, porque uma história foi criada nesse intervalo. O rompimento até pode ser motivo para algumas pessoas odiarem o ou a ex, quererem distância e tudo mais; mas muitas pessoas preferem ficar com as experiências do que passou na bagagem, aprender com isso, usar isso positivamente para as próximas etapas, logo ali na frente.

Oras! Nossa época continua acreditando que o amor romântico é tudo. De fato, para algumas pessoas ele é a base de tudo. Mas até as maiores edificações do mundo ruíram. Por que cargas d´água um amor seria imune a tudo? Tem nisso um respingo da nossa criação judaico cristã, aquela história de apesar de tudo e até a morte nos separe. Tem também um dedo da literatura infantil e dos romances holiwoodianos, nos quais o final é feliz, o famoso e viveram felizes para sempre.
Nossa existência não é matemática assim. Acho que nem seria interessante se fosse. O bacana é que algumas coisas podem e devem ser deixadas para trás, que outras nos acompanharão eternamente, que o mundo dará outras voltas.

Onde eu quis chegar com isso? Que viver transcende os jargões prontos. Que viver é uma dádiva que deve ser apreciada em todos os momentos. Que, apesar de tudo, é possível olhar para frente e continuar na direção que estamos dispostos a trilhar.

*(siga em frente)
Canção do U2 que não consegui linkar aqui. 

Abraço de paz!  

domingo, 24 de março de 2013

a arte não necessariamente imita a vida (e vice-versa)

Final de semana. Pós-almoço, que na real foi também um lanche da tarde. Não estava com sono, pois tinha acordado às 13 horas. Dormir tarde não é mais motivo para me deixar cansado, já que quase todas as noites tenho a companhia da insônia. Às vezes isso enche o saco, às vezes é bem bacana e producente. As madrugadas tem lá seus encantos.
Quis manter o silêncio para minha mãe repousar. Meu quarto estava escuro em plena luz do dia. Acendi a luz. Dei de mãos no Bukowski que estou lendo e me deitei, sem tirar os tênis, com os pés para fora da cama desarrumada. Li algumas páginas. Fiquei viajando em algo que me despertou atenção. Meus pensamentos divagaram. Repousei o livro aberto em meu rosto. Isso evitava o contato direto com a luz que cegava meus olhos. Fui marca páginas humano pelo instante que fiquei sentindo o cheiro do livro.
Momento sublime! Não vou dizer que teve a intensidade de um orgasmo. Não chegou a tanto, ao menos em termos de reações físicas. Mas foi algo quase que indescritível. Meio que uma espécie de sexo oral. Ela se oferecendo de pernas abertas, reconfortando sua maior zona erógena bem à disposição da minha boca. Senti o cheiro de pele úmida, embora o cheiro real fosse de material impresso industrializado. Minha salivação se alterou, fiquei com água na boca. Me policiei para que os movimentos da minha língua ficassem apenas entre meus dentes cerrados ou que alcançassem, no máximo, meus lábios, que vez ou outra eu mordi. Estava conectado com a ideia. Sexo é o que estava na minha mente. Talvez tenho sido remetido a isso justamente pela passagem que me fez interromper a leitura e me pôs a refletir. 
De repente meu telefone tocou. O livro mudou de posição. O clima se desfez. A realidade me trouxe de volta. E então li mais algumas páginas antes do banho. 
Se no chuveiro eu me masturbei ou não é tão fantasia ou realidade quanto o que expus até aqui.

sexta-feira, 22 de março de 2013

da arte de viver reclamando


Tem pessoas que são PHD em viver reclamando. E não se formaram em qualquer instituiçãozinha, não. Deve ter sido em Harvard, nos EUA, ou em Oxford, na Inglaterra. 
Tudo bem. Quem não tem problemas, não é mesmo? Mas é muita tempestade em copo d´água, minha gente! Pelamor!

O mundo gira. Só por que ele girou até agora não quer dizer que ele nunca vai ficar estático, sem movimento algum. O mundo gira.
As estações se sucedem. Pelos efeitos causados pelo homem na natureza, não necessariamente as condições climáticas respeitam as peculiaridades de primavera, verão, outono e inverno. As estações se sucedem.
O sol brilha. Ele dá a cara após semanas inteiras encoberto pelas nuvens cinza. Improvável que se esconda e não mais nos visite. O sol brilha.   
A lua reluz. Nova, crescente, cheia e minguante. Não é seguro que sua luz cesse e não mais se ofereça para nossa contemplação. A lua reluz.

Poucas são as coisas estáticas, não passíveis de mudança, de alternância, de modificação. E de nada adianta reclamar do calor, do frio, da chuva, do sol, do barro, da poeira, do vento e todos aqueles mi-mi-mis que frequentemente ganham espaço nas redes sociais e nas rodas de conversas. Essas coisas são muito mais pertencentes ao universo que nós mesmos. Estão aqui desde muito antes de nós e permanecerão até muito depois.


Nós somos animais. Não podemos nos esquecer da nossa capacidade de adaptação. A não ser que queiramos continuar fazendo birra/drama por aí porque esquentou, porque esfriou, porque choveu, porque anoiteceu, porque nascemos...

quarta-feira, 20 de março de 2013

crônicas de amor & sexo

Fabrício Carpinejar é uma pessoa um tanto exótica. Sua sua "guíngua pgesa", suas vestes, seus anéis, suas unhas pintadas, seu cortes de cabelo sempre com uma palavra na nuca e, claro, seu enorme potencial de jogar com as palavras o fizeram conhecido pelo país todo. Professor universitário, poeta e jornalista são os rótulos sociais e de formação. Mas muitos outros adjetivos cabem para descrever esse ser irreverente.

Em Ai meu Deus, Ai meu Jesus - Crônicas de Amor e Sexo Carpinejar esbanja conhecimento de causa (e de causos). Muito do livro é ironia, sarcasmo, espontaneidade. O que não dá para negar é que suas histórias pessoais, suas vivências deram origem a grande parte das crônicas. Cotidiano, intrigas, atrações, falhas, aprendizados. 
Quem dera a mistura amor e sexo pudesse estar presente na vida das pessoas!

Compartilho recortes de algumas crônicas.

A carne é forte
"Todos os meus pecados eram um único: bater punheta. Mudava apenas o horário.
Não, não dizia bater punheta. Eu bati punheta somente quando adulto.
Eu dizia: 'eu me toquei, padre'. [...]
Torturado por não ir ao céu, confidenciava por quem me tocava. Acho que não precisava, mas pecado bom é com detalhe.
O padre conheceu minhas fantasias eróticas melhor do que qualquer mulher."

Maldição
"O homem peca por estar exposto. [...] Tenta-se recordar da avó, da tia, da morte, da mendiga mais descabelada, despistar as imagens, mas nada o demove da inflação. O equivalente seria se, excitados, os seios crescessem a ponto de furar o sutiã ou inchar a blusa.
É comum o homem despir na sua imaginação a mulher com quem conversa. [...]
Não se respeita um homem de pau duro. É - de cara - um tarado. [...]
O pau é incontrolável, não tem como suborná-lo ou fazer um acordo - goza de vida própria. [...] Não respeita a mulher de seu melhor amigo ou filha de sua melhor amiga. Endurece e pronto, teimoso que só vendo. O jeito é dobrar as pernas, andar como um pato, botar a pasta na frente e rezar, rezar muito para que ninguém note a diferença."

Falso brilhante
"Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. [...]
O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo. [...]
O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado. [...]
Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com a comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.
São demonstrações sutis, que não dá pra contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida."

terça-feira, 19 de março de 2013

medo de mulher?!


Mês passado li a coluna ("quem tem medo de mulher?") da queridíssima Carol Teixeira na VIP. Quem quer saber do que se trata, e vai ser interessante para entender o que escrevo abaixo, clica aqui. Até mandei algumas palavras para a Carolzinha (só para os íntimos) e felizmente tive um retorno. =) Bem, ao que interessa...

Depois de ter lido, fiquei me perguntando por que diabos os homens não adoram as mulheres em questão. Me vieram várias coisas, viajei bonito e tals. Mas tem fatores que considero relevantes nesse processo. O primeiro é o machismo mascarado que ainda assola grande parte das culturas. Oras, é óbvio que as mulheres conseguiram seu lugar ao sol; nada mais legítimo e melhor que isso! A submissão e a passividade feminina têm mesmo que ficar para trás, a não ser que seja uma opção dela, a mulher, em viver assim. Aí respeita-se e ponto final. Mas, convenhamos, é bem mais producente aquele posicionamento à esse, não?! Afinal, brigar por liberdade e adquirindo-a preferir manter-se servil não me parece ser o melhor caminho, embora algumas criaturas assim o prefiram.
O segundo ponto que maquinei aqui com os meus botões é que em nossa sociedade o amor é vivenciado como propriedade, como posse. Muitas pessoas pensam que estar em um relacionamento com alguém lhes autoriza a serem donas das outras. Tem coisa mais arcaica que isso? Vai ver tem homem por aí que ambiciona sair pelo Gasômetro ou pela Avenida Paulista com sua companheira arrastando-a pelos cabelos. Quando tivermos ciência de que vivenciar o amor como afinidade é uma mudança radical que engrandece não só quem está no relacionamento, mas todos que estão às voltas dele, talvez as coisas tomem outros rumos. E tem também a questão que as pessoas podem se conhecer, paquerar, fazer sexo, trocar emoções sem que isso implique necessariamente em namoro, casamento, união estável ou seja lá o que for. Mas nem entremos nesse mérito.
Pensando por essa minha lógica (ou minhas lógicas - se é que tem alguma lógica nisso), seria o máximo poder manter um relacionamento com uma “puta mulher”, no sentido de inteligente, independente, poderosa, influente, sagaz e tudo mais que pode fazer uma mulher “fodástica”. 
“Temer mulheres assim? Que nada! Isso é dos tempos de dois mil e alguma coisa, quando os homens ainda ficavam meio receosos de flertar ou se relacionar com as super-mulheres, como aquela Carol Teixeira advertiu numa coluna de revista”, talvez digam algumas pessoas que vivenciarão as coisas de outras formas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

daquilo que não passou, o que fica?

A saudade tem várias facetas. Às vezes várias faces. 
Minha maior saudade é daquilo que não vivenciei, por mais paradoxal que isso soe. 
Aquilo que fica guardado na memória pode ser resgatado, digamos que revivido com uma intensidade menor do que a vivência original.  
Mas e aquilo que não foi registrado, que não foi vivido? E que não tem possibilidade alguma de se efetivar? Sim, estou pensando em quem partiu sem um adeus, sem despedida, sem um tchauzinho. 
A morte é mesmo um mistério. Assim como a vida também o é.
As lágrimas vêm para purificar a alma, para abrir espaço para a leveza, para fazer vir a tona aquelas boas lembranças que estão nos detalhes mínimos, em algumas circunstâncias, nas cores, nos cheiros, nas semelhanças ou nos contrastes, enfim em quase tudo tem um pouco daquilo que ficou para trás. Essa sensação é indescritível. É um misto de valeu a pena com gostinho de quero mais.
Mas a interrupção sem aviso prévio deixou irrealizável o que estava por vir. E, novamente, a saudade não é do que ficou para trás, mas daquilo que não aconteceu.
A saudade também tem nome. E endereço fixo: coração e alma de quem a sente.

E a vida vai passando. O tempo não poupa nada, nem ninguém.
Tem gente guardando emoções para sabe-se lá quando sem perceber que esse tempo pode não chegar. 
Fazer agora o que poderia ser feito depois não é burrice. Num piscar de olhos tudo pode se transformar em saudade. E aí, meus caros... ah aí a saudade do que não aconteceu pode vir e a gente só vai poder ficar com a clássica pergunta "como teria sido se?".


*Como diz um trecho da canção, "algo em tudo que passa, fica". Mas e daquilo que não passou, o que fica?

Seguimos...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Porre de Legião Urbana num sábado qualquer


Como música e literatura ocupam grande parte do meu tempo, às vezes faço paralelos entre uma coisa e outra, vejo coincidências ou discrepâncias. Viajo, literalmente. 
Agora mesmo estava ouvindo L´Âge D´or e lembrei de uma correspondência que Caio Fernando Abreu mandou para um amigo.
Um trecho da música diz assim "Já tentei muitas coisas de heroína a Jesus. Tudo que já fiz foi por vaidade". E isso me jogou para uma passagem da carta, na qual Caio adverte o amigo "Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? [...] Você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem."


Sou Legião Urbana Esporte Clube desde que tive o primeiro contato com as canções da banda. Se não me engano foi um amigo de infância, o Claudiano, que me falou sobre a banda. Ele grifava trechos das letras nas capas dos cadernos, fazia desenhos abstratos e era meio que da geração peace and love. "Por esse caminho que eu vou", devo ter pensado. 
Era o tempo das fitas K7 e primeira que comprei foi A Tempestade, de 1996. Depois consegui a Uma Outra Estação, de 1997. Anos mais tarde, já na faculdade, um colega meu, Alessandro, me emprestou seu CD´s para eu piratear. Fiquei nas nuvens. Coletânea completa da Legião Urbana, bah! Atrasei trabalhos, baixei a média para ouvir o que ainda não conhecia e para curtir o que já tinha familiaridade há algum tempo. Só que os CD´s que ficaram comigo eram de péssima qualidade. Como eu não parava de ouvir, eles descascaram e não tinha uma música sequer que rodasse inteira. Aí as canções ficaram só na cabeça e no coração. As fitas tinham sido descartadas, porque a época era outra; CD era mais moderno - uma pena que os meus eram importações baratas do Paraguay. Só poderia ter dado merda mesmo.
Com o advento da internet chegando aos poucos, baixei algumas coisas da Legião Urbana, documentários, shows, entrevistas. Foi a dose derradeira para causar uma overdose. Passei a admirar ainda mais a banda, seu surgimento, os impasses, as tramas. Conheci histórias interessantes. Brasília saindo do silêncio forçado pela ditadura militar e uma garotada soltando o verbo, falando e fazendo coisas sem medo de dar a cara à tapas. As letras das canções ganharam contexto. Um caleidoscópio foi se formando. Renato Russo virou um ídolo para mim. 
Voltei a estudar. Outra universidade, outro curso e, por sorte, um colega meu tinha todos álbuns da Legião Urbana armazenados no notebook que levava para a aula. "João, passa 'os Legião Urbana' no meu pendrive para eu salvar no meu note?! Faz em duas, três etapas, porque não tem espaço para tudo". Sabe uma criança quando ganha aquilo que ela pensa ser tudo na vida? Aquele sorrisão e, além disso, aquela euforia, aquele misto de sensações, de emoções... Bem assim eu voltei para casa. Consegui de novo a coletânea de uma das minhas bandas preferidas. E agora foi para não perder mais. 
Tenho arquivado em 3, 4 lugares todos os álbuns. Vai ver eu nem sei onde andam todas as cópias de segurança que tenho, mas elas existem. Tem dias que tomo porres de Legião Urbana. Ouço as canções, leio sobre a banda, vejo alguma coisa no YouTube e tudo mais.

Logo abaixo a música que impulsionou essa minha viagem.


Do meu primeiro contato com a Legião Urbana, A Tempestade, 1996, tem trechos de canções que dizem muito em poucas palavras. Compartilho agora com vocês. 
E vou mudar de música no player. O porre já está de bom tamanho para um sábado a tarde.


Natália
“A escuridão ainda é pior que essa luz cinza.
Mas estamos vivos ainda”

L´aventura
“Nada é fácil.
Nada é certo.
Não façamos do amor algo desonesto”

Longe do meu lado
“A paixão já passou em minha vida.
Foi até bom, mas ao final deu tudo errado.
E agora carrego em mim uma dor triste, um coração cicatrizado”

A Via Láctea
“Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida.
Ou fingir estar sempre bem.
Ver a leveza das coisas com humor”

Música ambiente
“Mesmo que tenhamos planejado um caminho diferente, tenho mais do que preciso.
Estar contigo é o bastante.”

Aloha
“Eu tenho um coração. Eu tenho ideais.
Eu gosto de cinema e de coisas naturais.
E penso sempre em sexo, oh yeah!”
 [...] 
“E meus amigos parecem ter medo de quem fala o que sentiu, de quem pensa diferente.
Nos querem todos iguais.
Assim é bem mais fácil nos controlar.
E mentir, mentir, mentir.
E matar, matar, matar o que eu tenho de melhor: minha esperança.”

Soul parsifal
“Pecado é despertar desejo e depois renunciar.”
 [...]
“Estive cansado.
Meu orgulho me deixou cansado.
Meu egoísmo me deixou cansado.
Minha vaidade me deixou cansado.”

Mil pedaços
“Eu não me perdi e mesmo assim você me abandonou.
Você quis partir e agora estou sozinho.
Mas vou me acostumar com o silêncio em casa, com um prato só na mesa.”
[...] 
“Pobre coração.
Quando o teu estava comigo era tão bom.”

Leila
“Adoro os teus cabelos.
Adoro a tua voz.
Adoro teu estilo.
Adoro tua paz de espírito.”

Esperando por mim
“Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de atenção”

O livro dos dias
“Não esconda a tristeza de mim.
Todos se afastam quando o mundo está errado, quando o que temos é um catálogo de erros, quando precisamos de força e cuidado.”  

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Um Vírus que destruiu um casamento

Sabe aqueles casamentos que dão inveja? Não no sentido pejorativo. Uma inveja boa. Pois assim estava sendo com Zoá e José. O casal era intimamente ligado. Eles se amavam, se respeitavam, tinham seus afazeres fora do relacionamento sem problema algum (ela lutava MMA e tinha roda de conversa com as amigas, ele jogava futebol e tocava rock´n´roll no violão com a galera), eram extremamente educados, iam ao cinema, andavam abraçados, tomavam sorvete, degustavam vinhos, faziam esportes radicais, trocavam olhares que diziam mais que muitas palavras. Enfim, nem em filme de romance havia um casal tão perto da perfeição como aquela.
E tudo estava muito bom, indo muito bem. Até que...
- José, eu não aguento mais! Não dá. Depois que você trouxe esse Vírus pra dentro de casa a gente não está mais se entendendo.
- Zoá, querida. Já cansei de pedir desculpas. Eu sei que quem fez a cagada fui eu, mas eu estava bêbado e meus amigos todos disseram que seria uma boa.
Ela não conseguia engolir essa desculpa. O Vírus deixou a casa de cabeça para baixo. E o relacionamento havia se tornado um caos desde que isso aconteceu.
- Amor, não foi proposital. Na hora eu pensei estar fazendo uma grande coisa. Mas também estou ficando de saco cheio dessa situação. 
- Ah é, José! É assim? Já que assumistes o erro, assuma também as consequências. Eu vou para a casa da minha mãe. Quando ela soube dessa história toda, me disse que eu poderia retornar quando quisesse. Acho que chegou a hora.
O rompimento era inevitável por tudo o que vinha acontecendo. Aquele casal de filme de romance se transformara em filme de terror. É bom poupar dos detalhes para não chocar os leitores.
E história linda ficou para trás por conta do coração grande e solidário de José, que trouxe o Vírus para dentro de casa. Agora aquela casa bonita e bem decorada era somente dos dois, José e Vírus. Zoá jurou por tudo o que há de mais sagrado no mundo e fora dele que não retorna mais à casa e que jamais sequer pensará em reatar o relacionamento.
Agora Vírus, o vira-latas que foi recolhido da rua por José numa noite depois do futebol com os amigos, tinha um espaço e tanto para continuar com as peripécias naquela enorme mansão.

Verifique se sua esposa ou seu marido gosta de animais de estimação antes de levar um para dentro de casa. 
Aaaahh, e tenha cuidado com nome que fores escolher para o animalzinho, que é para evitar equivocidades/dubiedades de interpretação como no caso desse breve relato.

=)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Carta-Convite da ARLRL

Não é fácil ser quem a gente é.
Pagamos o preço por ser do nosso jeito 
e botamos a cara à tapas.
Brigamos com a nossa voz,
por vezes com nosso silêncio,
que são nossas armas para termos vez,
para termos paz. 
Não precisamos forçar a barra, 
fingir ser algo que nem de perto se sustenta, 
que não se tem saco para representar, 
que não tem nada a ver conosco.
Somos autênticos.
Lutamos até o fim por aquilo que julgamos ser justo,
ser o melhor não somente para nossos próprios umbigos,
mas também para os outros.
Altruísmo, saca? Ao nosso jeito, mas ainda assim, altruísmo.
Ah, não devem saber do que se trata, tão empenhados estão com seus próprios egos, inflados e cada vez mais pobres.
Ainda assim, podemos conviver todos embaixo do mesmo céu, 
do mesmo sol, da mesma lua, das mesmas estrelas, 
até do mesmo teto.
Sabemos aceitar as diferentes representações de mundo
(as diferenças, não as desigualdades!).
Quase sempre somos mal entendidos,
mas temos ciência que nossa sintonia não é a mesma.
O terreno que pisamos pode ser o mesmo,
mas a conexão de ideias não fecha.
Não somos os melhores,
tampouco temos pretensão alguma em sermos

(os melhores ou o que quer que seja).
Sabemos que para obter a paz e o bem 
às vezes são necessários o mau e a guerra.

Estamos com inscrições abertas para o nosso crescente exército.

Att,
Associação dos Românticos, Lunáticos, Resistentes e Loucos