Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

passando a régua em 2013 e chegando firme em 2014

Numa reunião com minha chefia, eu estava anotando alguns compromissos profissionais que tenho prazo para cumprir. Depois de anotar, me dei por conta que restam algumas últimas páginas da agenda desse ano que está findando. Comecei a voltar as páginas. Algumas em branco, outras rabiscadas com canetas de cores diferentes, alguns "ok" em coisas que foram feitas, alguns palavrões ou anotações bizarras de quando o momento não era muito bom, balanços da grana que ganhei e da grana que torrei, extratos bancários presos com clips, bilhetes grampeados, enfim, aquela bagunça organizada que só eu sei como entender.
Folheando os dias, retrocedendo os meses fiz uma espécie de retrospectiva de 2013. Objetivamente estava tudo ali. Ou quase tudo. Mas aí é que pensei "tá bom, do mundo lá fora está muito bem compilado o ano de 2013. Mas e o meu mundo aqui dentro, como foi?".
Não é fácil fazer uma anamnese, uma análise de si mesmo, mas às vezes é necessário. Aproveitei a ocasião e dei uma desintegrada do que estava ao meu redor e me empenhei nessa tarefa. 
Olhei para trás e percebi onde minhas escolhas me trouxeram. Interessante como algumas coisas que na hora da decisão pareceram idiotice agora soam como producentes ao meu estilo de vida, à minha estruturação. E o inverso também. Muitas coisas que pareciam ser a melhor saída agora eu vejo que não foram escolhas tão maduras ou que poderiam ter sido diferentes.
As coisas poderiam ter sido diferentes. Sim, poderiam. Para isso as minhas escolhas tinham que ter sido diferentes. E tais escolhas diferentes provavelmente alterariam a forma das coisa estarem agora. Não é matemática, é existência. Só podemos usar a aproximação como critério, não a exatidão. Nessa de passar a limpo o ano, posso me orgulhar dos meus acertos e dos meus deslizes. Considerando meu eu agora, posso ver meu amadurecimento em alguns aspectos com relação ao eu que foi e está sendo lapidado.
Sim, eu mudei. Em algumas coisas mudei radicalmente. E isso está longe de ser contradição. É sinal de que atualizei algumas coisas que precisavam ser atualizadas na minha forma de pensar, de agir, de ser. 
Aliás, que dádiva ter me dado o direito de efetivar algumas mudanças sem medo de quebrar a cara logo ali na frente. Que bom ter deixado para trás algumas coisas que não me faziam bem e já não agregavam nada à minha existência. Que bom ter sido esse bicho-homem com possibilidades mil e ter escolhido e ter feito caminhos tão confortáveis para o meu coração e para a minha alma.
Claro que 2013 não foi conto de fadas, sempre com final feliz e "viveram felizes para sempre". Passei alguns perrengues, levei algumas quedas fortes, apanhei feio em e de algumas circunstâncias. Mas isso vem no pacote da vida. Alguns percalços são inevitáveis na trajetória mundana. Menos mau que consegui trabalhar comigo mesmo, ler e interpretar os sinais que a vida me deu, encaixar as peças dos quebra-cabeças, lamber minhas feridas e voltar a ver o brilho do sol e da lua, sentir o vento no corpo, os cheiros e aromas das flores e aquilo tudo que renova as energias. 
Importante ressaltar aquele ombro amigo, aquele abraço apertado, aquelas palavras de conforto e de incentivo de muitas pessoas que tenho contato. Muitos anjos disfarçados de pessoas me ajudam diariamente a pelear e a dar o melhor de mim em tudo o que faço. Minha gratidão a essas almas nobres, sempre. 
Pesando os prós e os contras, o que foi bom e o que poderia ter sido melhor, o que eu queria e o que de fato se concretizou 2013 foi um ano "do caralho!". Essa expressão é para sinalizar intensidade. Foi bacana. Eu fiz ser bacana, me esforcei para fazer isso acontecer.
Para o próximo ano minha prece é que não nos falte saúde, força e sensibilidade para vivermos intensamente aquilo que nossa existência carece para ser agradável. E isso é singular para cada indivíduo. Não quero apenas que 2014 traga coisas boas, porque o universo não cumpre promessas: ele não promete nada. Quero preencher o ano com coisas boas. Quero deixar minha marca em tudo aquilo a que me propuser a fazer. Quero praticar a minha religião do amor, que á única revolução verdadeira. E quero ser uma pessoa melhor. "Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu puder ser", como diria Chorão.
E aproveitando as palavras do saudoso e eterno marginal alado, "a vida é uma boca a ser beijada, mas a vida só gosta de quem gosta de viver. A vida não quer ser desperdiçada. Aproveite o seu tempo, está tudo aí pra você".

Abraços de urso e beijos de beija-flor.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

fazer o possível ou fazer o melhor?

Estava vendo uma palestra do filósofo Mário Sérgio Cortella e num determinado momento ele fala sobre a questão de se fazer o possível e de se fazer o melhor. 
Várias vezes, quando precisamos de alguma coisa, ouvimos alguém sentenciando "estou fazendo o possível" ou "farei o possível". Se aplica também ao plural disso. Diz Cortella que muitas vezes esse "fazer o possível" é indicativo de mediocridade. É como que se não tivesse empenho nisso que está sendo feito. Ou feito de forma morna, tipo "por mim tanto faz".
Para o filósofo, por outro lado, o que potencializa o crescimento existencial é se fazer o melhor dentro das condições que se tem, até que se tenha condições melhores de fazer ainda melhor. 
***
Outra coisa que merece destaque nas falas de Cortella é o fato dele seguidamente frisar que pessoas grandes sabem de sua pequenez e por isso tendem ao crescimento, enquanto que pessoas pequenas que se sentem grandes tendem a rebaixar os outros de alguma maneira.
***
É possível fazer uma conexão disso que foi mencionado com o trecho da música Camisa 10 Joga Bola até na Chuva, do Charlie Brown Jr.
"Sem desandar, sem humilhar ninguém. 
É assim que eu quero ser, sim, um cara melhor. Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu posso ser.
O tempo passa e tudo muda. E você tem que aprender que existem vários caminhos.
Escolha um pra você"
***
Qual caminho você escolheu, fazer o possível ou fazer o seu melhor?

domingo, 10 de novembro de 2013

dos retratos existenciais

Certamente você conhece alguma pessoa com quem não tem contato há 2 meses, 2 anos ou 2 décadas. É um familiar que mudou de cidade porque constituiu família, ou um amigo que foi promovido no emprego e teve que mudar também de cidade, uma amiga que foi para o exterior fazer um intercâmbio de estudos. Na hipótese de um reencontro, você conversa com a pessoa, percebe algumas mudanças e logo passa à sua cabeça "nossa, como o fulano mudou!". Isso pode ser um indicativo de que você fez um retrato existencial da pessoa e que ainda a enxerga como ela era tempos atrás.
***
Teu amigo era viciado em refrigerante e agora só toma água sem gás. Era o primeiro a sentar na mesa para apreciar um suculento churrasco e agora aderiu ao vegetarianismo. Sempre falou em ter um número de filhos que desse para montar um time de futebol e agora expressa a vontade de ter apenas mais um, para fazer companhia ao Júnior, o único filho até então. Tinha asco ao som de guitarras pesadas, pois só ouvia MPB em volume baixo, mas agora ouve rock´n´roll e metal a todo volume. Certamente você vai pensar que aconteceu alguma coisa esse amigo, pois ele mudou muito. Claro! Ele mudou de cidade, de emprego, ampliou o círculo de amizades, conheceu uma garota, casou-se com ela, teve um filho. Não é de estranhar que ele tenha mesmo mudado, não é?
Você pode ficar se perguntando como um outro amigo seu não teve essas mudanças, apesar de ter passado por contextos e circunstâncias parecidas. A resposta me parece simples: isso se dá porque cada criatura humana é única, cada pessoa possui um universo singular. E estamos tratando, aqui, de existência, não de lógica matemática.
***
As mudanças que uma pessoa realiza no decorrer de sua trajetória mundana não necessariamente indicam que ela está sendo contraditória, que não tem princípios, que deixou o poder subir à cabeça, ou coisas assim. 
É comum que muitos vejam a pessoa como um retrato existencial que foi feito dela há um tempo atrás. Esse retrato é como uma foto, que cristaliza a pessoa e mantém estática a imagem dela como se ela tivesse a necessidade de ser sempre daquela maneira.
***
Se olharmos para a nossa própria história veremos que algumas vezes fomos incompreendidos ou julgados por uma imagem existencial que fizeram de nós há muito tempo e que aqueles elementos que tem na foto não estão mais presentes em nossa vida. Por outro lado, provavelmente já utilizamos retratos existenciais de alguém que conhecemos, ou seja, olhamos para a pessoa como se ela fosse a mesma e tivesse os mesmos elementos de algo que não diz mais respeito a ela. 
O indicado é que os dados sejam atualizados, ou seja, que verifique-se como a pessoa está no mundo agora (e como estamos no mundo também), para não cairmos em equívocos e dubiedades que possam prejudicar nossas relações. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O homem não está, naturalmente, vocacionado para a felicidade

"Por que Kant não concorda com Mill? Para Kant, a felicidade não é o que existe de mais importante. Para Kant, a felicidade não é o bem maior. Para Kant, a felicidade não é aquilo que devemos buscar de qualquer jeito. E por que não? Porque isso significaria usar um martelo para pintar uma parede; estamos com o instrumento errado. O homem não está, naturalmente, vocacionado para a felicidade. Ele não é construído para isso, ele não é feito para isso. Por quê? Porque ele é, antes de mais nada, um ser de reflexão, de pensamento. E o pensamento, segundo Kant, atrapalha a busca da felicidade, é um obstáculo para maximizar a busca do prazer e diminuir a dor. E, portanto, é muito mais competente para buscar o prazer e diminuir a dor quem não pensa. E quem não pensa e pode sentir prazer e dor são animais. Portanto, a teoria de Mill funciona para uma girafa, funciona para um macaco, funciona para um animal qualquer, mas não funciona para nós. Por quê? Porque o que existe de mais importante em nós é a capacidade de pensamento e a capacidade de pensamento não é o que existe de mais adequado para buscar a felicidade. Por isso, você julgar a conduta das pessoas em nome da felicidade é julgar pelo critério errado; funciona para animais."

Professor Clóvis de Barros Filho, em aula sobre sobre o pensamento de Kant.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sucesso

Volta e meia me deparo com um dito que "o único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário". A frase é creditada a Albert Einsten. Curioso que sou, visitei o dicionário para conferir o significado da palavra sucesso e fui informado que significa "resultado feliz, êxito; o que alcança bom resultado, fama".
Nos discursos de autoajuda que se espalham de forma viral pela internet o tal do sucesso é uma tônica. Parece que todos tem que remar seus barcos nesta direção. E, por incrível que pareça, muitas vezes apontam as coordenadas e como se faz para chegar no destino. Geralmente, quem faz isso parece não considerar algo muito importante: a história de vida de cada pessoa, que é única, singular. 
Ora, se nada se sabe a respeito da outra pessoa, como imputar nela o que é o sucesso e ainda direcioná-la para tanto? Me parece um equívoco que pode ter resultados não muito producentes, dependendo do caso.
***
O que é sucesso para você? É ter o reconhecimento por aquilo que é? Ou ser reconhecido por aquilo que faz? Talvez seja algo relacionado com fama, com dinheiro ou sabe-se lá mais o que pode ser.
Tente analisar isso segundo as suas prerrogativas, de acordo com a tua historicidade.
***
Provavelmente você já ouviu falar de alguém que lutou com todas as forças para conseguir algo e que passou a vivenciar crises existenciais tremendas tão logo conseguiu o que almejava.
Ou talvez você mesmo já tenha passado por algo semelhante, buscou algo e quando conseguiu o que queria percebeu que isso não era bem o que pensava, ou que não tinha o valor que antes considerava, ou que não teve os resultados esperados. Alguns noticiários estão lotados de pessoas que puseram tudo a perder da noite para o dia. 
Isso pode perfeitamente acontecer. E se não focarmos no percurso, no caminho, talvez seremos os próximos a cair nesta armadilha.
***
Rubem Alves tem um conto chamado "Sucesso...", publicado no "Pimentas - para provocar um incêndio, não é preciso fogo" no qual ele relata algumas respostas que deu para uma enquete que queria descobrir o segredo do sucesso. Abaixo alguns recortes que considero relevantes para a reflexão.
"Cheguei onde cheguei porque tudo deu errado."
"Já vi muitas promessas em livros de autoajuda do tipo 'você está destinado ao sucesso'. Isso é mentira. O querer nada pode sem dom. Finalmente, é preciso trabalhar."
"Não gosto dessa palavra 'sucesso'. O que é 'sucesso'?"
"Não faça do sucesso o seu deus. Seja fiel a você mesmo. Se vier o tal de 'sucesso', melhor para você. Ou pior para você, nunca se sabe... Van Gogh foi um fracasso, nunca vendeu um quadro. Ele poderia ter se 'afinado' para o sucesso - pintando quadros bonitinhos..."
***
Para mim, sucesso é, em poucas palavras, fazer com carinho e com amor aquilo que se faz. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Outubro cinza

Quantos sentimentos cabem dentro de uma saudade!? Uma afirmação e uma pergunta num mesmo enunciado. 
Para cada pessoa isso se dá de uma maneira singular, sei. Mas saudade é aquilo que nos faz sorrir e lacrimejar ao mesmo tempo por algo que foi vivenciado ou por aquilo que gostaríamos de vivenciar?
Dói mais a saudade de algo que passou ou de algo que não aconteceu?
Onde a saudade se aloja, no pensamento, no coração, na alma, na pele?
Existe remédio para curar a saudade? E para provocar saudade, existe também?
Saudade da voz, do olhar, do toque, do cheiro. Do que está na memória, mas também o que está apenas na imaginação, uma espécie de "e se". Mas esses tantos "e se" não são passíveis de efetivação, porque no seu lugar está a saudade.
Saudade.
Saudade.
Saudade...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Cada encontro carrega consigo uma possível despedida

Saí sem rumo.
Numa rua escura dei de cara com a lua. O formato dela me lembrou teu sorriso. Estacionei e fiquei hipnotizado, contemplando aquela beleza singular.
Tal como as circunstâncias foram diminuindo a quantidade e a intensidade do teu sorriso, a lua foi se deixando esconder por detrás de edificações e montanhas. Como corri atrás de ti outrora, me pus a rodar para encontrar aquele risquinho no céu. Tive mais alguns momentos de êxtase, mas resolvi virar as costas antes da lua se esconder por completo.
Cada encontro carrega consigo uma possível despedida.
Ela volta. Você... já não sei...


domingo, 6 de outubro de 2013

Cuidado com o que você pensa

Eles voltam. 
Cedo ou tarde eles voltam. 
Geralmente é quando você está contigo mesmo. 
São poucas as chances de fugir. 
E mesmo que haja possibilidade de fuga, ela é momentânea.
Eles voltam.
Não pedem licença. 
Não dizem por que vieram.
Não tem prazo para bater em retirada.
Você não se sente preparado para recebê-los.
Mas eles voltam.
Para perturbar teu sono.
Para fazer companhia para tua insônia.
Para jogar para longe tuas certezas.
Ou para te dar ainda mais convicção de algo.
Eles voltam.
Talvez nem seja o caso de voltarem.
Talvez eles sempre estão contigo e só dão uma trégua ilusória.
E são como fogo queimando.
Ou como a brisa que toca o rosto.
Eles se alimentam de você.
E você pode também se alimentar deles.
Mas fique atento!
Cuidado com teus pensamentos.
Porque eles voltam.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quando o silêncio diz mais que as palavras

Quando criança, ou mesmo quando adulto, provavelmente você queimou a mão em algum lugar. Ou então prensou o dedo numa porta, numa janela, num baú. Ou talvez tenha encarado aquela dor fazer uma tatuagem... Enquanto lia isso, se você passou por alguma coisa dessas, você pode ter sentido um desconforto, já que uma memória foi acessada.

O filósofo escocês David Hume afirmava que a sensação original de algo é mais forte e mais intensa do que a lembrança de tal sensação. Às vezes lembramos de algo claramente, como se estivéssemos de fato sentindo novamente aquilo que foi vivenciado no passado. De acordo com as considerações de Hume, isso se dá apenas de forma aproximada, sendo menos intensa que a própria vivência. Aplicando isso aos nossos exemplos, tal desconforto que citei acima é apenas uma aproximação da dor que sentimos ao termos queimado a mão no fogão, ou prensado o dedo na porta do carro, ou aturado o entra e sai das agulhas na pele.
No que passo a considerar a seguir, isso é deslocado para a condição de nos colocarmos no lugar do outro. Ou seja, podemos até fazer esse exercício, mas nunca sentiremos, de fato, aquilo que a pessoa sente - será sempre algo por aproximação, nunca de maneira exata, precisa. 

                      * * *
Hipoteticamente, eis uma situação em que o teu melhor amigo te liga, emocionado, noticiando a morte do pai dele, ou da mãe, ou de uma pessoa que de certa forma era especial para ele. Na hora você vai meio que tentar negar a veracidade da notícia com algo do tipo "não acredito!", "sério?". Depois de desligar o telefone, um copo d´água para digerir o que lhe foi informado e provavelmente você começará a pensar na dor do teu amigo, dos familiares, dos conhecidos de quem acaba de partir. É nesse momento que não se mede esforços para tentar ajudar. 
O que geralmente costuma ser desconsiderado é a forma de ajuda que se está disponibilizando. Nessas circunstâncias difíceis um olhar, um aperto de mãos, um abraço, um carinho podem ser gestos nobres. Algumas palavras também podem ter alguma relevância. Porém, e muita atenção para este porém, gestos ou palavras jogadas ao vento podem surtir efeito reverso ou efeito algum em ocasiões assim. Isso porque a pessoa que você está disposta a ajudar está com a ferida aberta, com as funções do organismo debilitadas pelo choque, pelo cansaço de estar sem comer e sem dormir direito e pelos demais fatores e sintomas que uma perda pode trazer consigo.
O importante é se colocar no lugar do outro e ver as cosias com as prerrogativas dele. Não é uma tarefa fácil, pois nem todos conseguem se deslocar de seu próprio mundo e ir em direção ao mundo do outro. Fazer esse exercício ajuda a não cometermos equívocos quando, na verdade, nossa intenção era de ajudar, de ser útil, de confortar a pessoa que gostamos, como estamos tratando aqui.
De nada vai adiantar, por exemplo, tentar confortar seu amigo ateu com dizeres do tipo "ah, ela (a pessoa) vai estar melhor no lugar para onde foi". Ora, se seu amigo não confia na vida pós morte, essas palavras não vão ajudar em nada. Ou "foi melhor assim". Seu amigo pode pensar ou até mesmo lhe dizer "melhor pra quem?" ou "melhor pra você que não acabou de perder um irmão".
Entendo as manifestações de carinho em que cada um tenta, à sua maneira, minimizar a dor do outro. Geralmente isso costuma ser bom para quem enfrenta essa barra. Particularmente, e não é nada de insensibilidade - muito pelo contrário, prefiro um abraço e um silêncio. Voltando ao que introduziu esse texto, mesmo que nos desloquemos até o mundo do outro só conseguiremos sentir por aproximação aquilo que ele está sentindo.
* * *
Concluo com o que Rubem Alves expôs num escrito seu chamado A Dor da Morte, presente no livro Pimentas - Para provocar um incêndio, não é preciso fogo.
"A morte faz calar as palavras. São inúteis. Servem para nada. Somente os tolos tentam consolar. Eles não sabem que palavras de consolo, brotadas das mais puras intenções, são ofensas à dor da pessoa golpeada pela morte. Porque elas, as palavras de consolo, são ditas no pressuposto de que elas tem poder para diminuir o vazio que a morte deixou. Como se a pessoa que a morte levou não fosse tão importante assim e algumas palavras pudessem diminuir a dor que sua morte deixou."
* * *

domingo, 22 de setembro de 2013

não temos como passar pela vida imunes às coisas que não nos são muito agradáveis

Gosto do conceito de resiliência. Tanto que essa é uma das tatuagens que tenho. Dias atrás uma colega me perguntou o que significava. Expliquei que resiliência, grosso modo, é capacidade de superar condições adversas. 
Não conheço ninguém que tenha passado pela vida sem sem uma dor, sem uma decepção. Acontece que num determinado momento as coisas não vão dar certo, não vão sair conforme haviam sido planejadas; em outras palavras, alguma coisa vai fazer com que quebremos a cara. Isso porque a vida não vem empacotadinha, com manual de instruções, modos de usar, validade, entre outras recomendações. E, quer saber?, no fundo isso até torna as coisas um tanto divertidas.
Claro que não é bom sofrer. Mas, sinto muito, preciso te alertar de uma coisa: não temos como passar pela vida imunes às coisas que não nos são muito agradáveis. Desde cedo quebramos nossos brinquedos, extraviamos nossos pertences, nossas roupas logo ficavam pequenas e não serviam mais... Aí já está um indicativo de que na vida as perdas são inevitáveis, que naturalmente algumas coisas ficam para trás, queiramos ou não. Poderiam ter nos ensinado que o fato de termos aprendido a levantar das quedas que tomamos quando tentamos firmar os primeiros passos também era uma lição importante para a vida toda. Mas esses detalhes muitas vezes foram negligenciados na nossa educação e então mais tarde quando perdemos alguma coisa, uma pessoa, um relacionamento, um objeto, um mal estar muito grande se instaura.
As perdas remetem a um período de luto. Sim, luto não é apenas quando morre alguém que gostamos. É certo que vai haver um período difícil, já que uma "fossa" vai ser vivenciada até que as feridas cicatrizem. Há quem lamba as próprias feridas e há quem precise de ajuda para tanto. Tem aquelas pessoas que tentam resolver tudo imediatamente com precisão matemática e tem aquelas que deixam o tempo passar para amenizar os sintomas. Enfim, é muito singular o que ocorre com cada um(a).
Então, já que essas adversidades fazem parte da vida, resiliência! Que possamos, cada qual à sua maneira, superar os obstáculos que se apresentam e que isso, de certa forma, contribua de maneira positiva para com nossa existência.

"Nada como um dia após o outro.
Continuar. Viver. 
E quando o sol nascer temos que recomeçar de novo.
E acreditar, dias melhores virão.

Espere o melhor. 
Prepare-se para o pior.
E aceite o que vier"
Perdas - CPM 22 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"O diabo é deixar de viver" *

Mario Quintana tem um poema magnífico que volta e meia eu revisito.
"Um dia... pronto... me acabo.

Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver."
O fenômeno da morte biológica é irreversível. Começamos a morrer a partir do momento que fomos concebidos. E dessa morte não temos como fugir. 
Dos mortais, somos os únicos que temos consciência dessa finitude. O cão, o gato, o elefante, a girafa e os outros animais também morrerão, mas eles vivem cada dia como sendo o único, enquanto nós, seres humanos, vivemos cada dia como sendo o último.
Quando faço essas considerações acerca da morte não é somente a ela que me refiro, mas em especial à vida. Já que nosso prazo de validade não vem estipulado em rótulo algum (embora seja pouco provável ultrapassarmos mais de uma centena de anos), como estamos vivendo, como estamos preenchendo esse tempo de vida que ainda nos resta?
Cabe advertir que viver não é somente estar vivo. Até pode ser que algumas pessoas encarem a vida dessa forma, pois cada uma tem um universo singular de significação. Entendo e respeito isso. Mas me parece que apenas ocupar espaço no mundo não é uma das formas mais atraentes de ser.
O que tem preocupado ultimamente é o crescente número de pessoas que estão moribundas, vivendo vidas inúteis, fúteis, vazias, mornas; pessoas que deixaram de viver antes mesmo da morte biológica.
Torno a questionar: como estamos exercitando nossa existência no mundo?
Que possamos refletir sobre o estilo de vida que estamos levando e, se necessário, re-inventar nossa maneira de viver - cada qual levando em consideração a sua estruturação existencial, circunstâncias e contextos.

Que a vida pulse nas veias de cada um.

* Inspirado pela poesia, pela música e pelos murmúrios do silêncio que ecoavam na madrugada.

Como cantou Chorão com o Charlie Brown Jr, "vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo". E como canta Tico Santa Cruz com os Detonautas, "vamos viver, que o que a gente vive é uma vida e nada mais".




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Às vezes vale mais imaginar do que ver

Semana passada comentei com algumas garotas que ando com uma tendência a me apaixonar por mulheres que usam calça jeans. Siim, falei mesmo isso. E depois, pensando um pouco mais, percebi que não é tanta babaquice assim. Oras, em alguns lugares que vou estou acostumado a ver coxas torneadas e pedacinhos de nádegas à mostra em shorts e vestidos minúsculos...
      
Sei que me e se perguntarão se a roupa que uma pessoa usa diz alguma coisa sobre ela. Pois eu respondo: às vezes a roupa é, sim, uma maneira que a pessoa usa para se expressar; noutras vezes, nem de longe. E isso quem indica não sou eu, nem você, mas a pessoa em questão.

Continuando. Eu admiro o corpo feminino. Ah, o corpo feminino! Quantos encantos e enigmas podem haver nesse ser que foi feito carinhosamente a partir das costelas de Adão (ah, vamos fingir que todos acreditamos nessa parte da historinha da criação).
Pois bem, que padrão de beleza encontramos na nossa época? O corpo torneado, durinho, produzido ou na academia ou desenhado nas mesas cirúrgicas das clínicas de estética. Para muitas pessoas o que importa é isso mesmo. Mas também tem a contraposição: para muitas outras o corpo é apenas uma das tantas dezenas, centenas ou milhares de coisas que se tem na vida. 

Unindo a questão da roupa curta e a do corpo sarado, trago aqui algumas palavras do Ferreira Gullart, que foi de onde veio essa minha inquietação para escrever. Ele diz o seguinte: "antigamente a mulher não mostrava nem o pé ao namorado. Hoje muitas delas mostram a bunda em público, protegida apenas por um fio dental. A principal virtude dessa nova mulher é a bunda".
E logo adiante, continua: "que importância se dará aos joelhos de quem já se viu a bunda? Às vezes vale mais imaginar do que ver".
Gullart expressa isso no sentido erótico da coisa. Ora, o que está toda hora à exposição destrói o caráter imaginativo. Nessa perspectiva o corpo como cartão de visitas pode tanto causar o interesse quanto o desinteresse. E isso não depende só de quem se exibe, mas também de quem observa.


Mulheres que usam calça jeans, cuidado que eu me apaixono, hein?!
=)

domingo, 11 de agosto de 2013

Existe alguma fórmula mágica que te faça entender alguma coisa sem ao menos eu falar contigo? Telepatia ou alguma outra conexão através de pensamentos? 
Talvez nem seja o caso de te fazer entender, mas de te confundir. Ou, quem sabe, de te fazer sentir. Afinal, isso quebra a lógica racional, ultrapassa os limites das nomenclaturas, está para além daquilo que pode ser dito. 
Eu estava me sentindo bem, mas tua companhia me deixou melhor ainda. Peguei carona nas tuas asas. Fui às alturas contigo. Quando caí de volta para o chão nem pensei em me entristecer por ter te deixado partir. Pelo contrário, passei um bom tempo divagando e curtindo a sensação extasiante de poder ter estado em outro plano contigo. Afinal, não é todo dia que se embarca numa viagem assim.
O portal não se fechou. Quando me destes as costas, tua ida em direção contrária não significou um adeus, mas um até breve. E mesmo que isso demore uma eternidade, não esquecerei da suavidade na qual fui envolto.
Eu disse que não agradeceria, mas o fiz e estou novamente emanando minha gratidão a você, que de alguma forma ou de outra vai saber e vai sentir isso.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Saú(da)de!

Dia dos Pais se aproximando. 
Mais uma data para movimentar o comércio. Mas não dá para negar que também é uma data para desengessar o coração, para dar aquele abraço forte no "velho", no "coroa". Privilégio para quem tem o pai ao alcance. 
Sou da opinião que a figura de pai e de mãe ninguém substitui. Os papeis de ambos até podem ser se configurar com pai fazendo papel de mãe ou essa fazendo papel de pai. Mas a pessoa, a figura, essa nada nem ninguém substitui. Falo isso segundo as minhas prerrogativas. Sei que existem diferentes formas de ser no mundo e não é minha pretensão que todo mundo pense, sinta, se comporte da mesma forma. 

Já vi o mundo desabar nos meus ombros algumas vezes. A perda do meu pai foi uma delas. Mas aprendi a lição de ser forte, independente do que surja. Como cantou Chorão "quando a casa cai não dá pra fraquejar. Quem é guerreiro tá ligado que guerreiro é assim." É mais ou menos isso que me norteia. Desistir sem lutar não é comigo. Não para ser melhor que alguém, mas para ser melhor que fui ontem. E na maioria das vezes o aprendizado está sendo relevante. Como o marginal alado versou "vivendo nesse mundo louco hoje só na brisa, viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida."

Hoje faz 5 meses da morte do Chorão, o marginal alado. Final de semana é o 9º Dia dos Pais que o meu não está mais nessa jornada. Duas pessoas, cada qual com suas singularidades e dons, que deram a muitas a alegria de terem pisado na terra. 
A saudade é grande. Mas os ensinamentos repassados os fizeram imortais em minha mente e em meu coração e servem como antídoto.

Um brinde à saúde e à saudade.
Saú(da)de! 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

loucura no amor e razão na loucura

"É verdade: amamos a vida não por estarmos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre alguma loucura no amor. Mas também há sempre alguma razão na loucura.
E também a mim, que sou bem-disposto com a vida, parece-me que borboletas e bolhas de sabão, e o que há de sua espécie entre os homens, são quem mais entende de felicidade.
Ver esvoejar essas alminhas ligeiras, tolas, encantadoras e volúveis leva Zaratustra às lágrimas e ao canto.
Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar."

Nietzsche, Assim falou Zaratustra

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O homem como invenção de si mesmo

Saudações, terráqueos!
Minha leitura da madrugada foi bem interessante. Depois daquele café forte que eu sabia no que ia dar, fiquei zumbiziando até umas horas. O suficiente para ler O homem como invenção de si mesmo - monólogo em um ato, do Ferreria Gullar. Um livro de 70 páginas que na verdade foi pensado para ser uma peça teatral. Segue, então, um esqueleto do que se trata e, claro, alguns recortes literais da obra.

A temática central gira em torno do título da obra, ou seja, o homem como invenção de si mesmo. O autor afirma que a obra consiste em explicitar a teoria segundo a qual "a vida é inventada e que nós mesmos nos inventamos". 
Nos primeiros passos, ou nas primeiras páginas, surge a questão da inserção do bicho homem a uma cultura, o que nos torna seres humanos. Somos, então, seres naturais, constituídos por traços biológicos, naturais; por outro lado, somos seres culturais, o que nos permite a criação, a inventividade. "O homem quando nasce é ninguém. Ele se torna gente pela educação, pela cultura, pelo que lhe ensinam. Ele já encontra um mundo humano inventado e nele se integra; outros decidem reinventá-lo."
Tão logo inicia essa reflexão, aflora a questão de uma divindade. Para Gullar, "Deus é de fato a resposta que o homem encontrou para a mais angustiante de todas as perguntas: a vida tem sentido?" Segundo ele a resposta é negativa. "A vida não tem sentido. Nós é que lhe atribuímos sentido." A tese do autor é que o próprio homem inventou Deus para, de certa forma, responder inquietações que a consciência nos impõe, tais como "por que existo? Por que terei que morrer um dia? Será a morte o fim de tudo?" Para preencher a sensação de desamparo e lançar esperança numa vida após a vida terrena é que o homem criou a imagem do sobrenatural. Afinal, "é insuportável viver ao sabor do acaso, sujeito a forças que a gente não controla. Mais uma razão para existir Deus, Ele é o oposto do acaso. A Providência Divina nos faz acreditar que estamos protegidos, que vivemos em segurança".
Intrínseca a essa reflexão sobre a divindade está a temática das religiões. Elas ditam o que é certo e o que é errado e isso faz com que, desde cedo, as crianças aprendam a seguir a cartilha. O pensamento ou comportamento que destoe do que pregam os dogmas religiosos é considerado pecado. E quem peca ou se arrepende e não comete mais o erro, ou vai paro o inferno. Isso mesmo. Inferno, outra invenção humana carregada de significado religioso. Imagina então como fica a cabeça de uma criança com toda essa coação...
Pois bem, o primeiro pecado tem a ver com Adão e Eva. Portanto, muitos dos tabus, preceitos e preconceitos sexuais vem daí. E eu pergunto, o que eu e você temos a ver com pecado original? A condenação do sexo a ponto de torná-lo pecado é um dogma insustentável, segundo o autor, pois sexo é uma coisa natural, animal, instintual. Para dar uma falsa impressão de liberdade a Igreja Católica diminuiu o ímpeto a passou a permitir o sexo, desde que os casais se unam de acordo com as leis da igreja. "Mas só pode transar se for para procriar. Transar por transar, só para ter prazer, não pode. Nada de sacanagem, beijinho aqui, beijinho ali, mãozinha, dedinho, nada disso. Trepar é coisa séria. Papai-mamãe. Meteu, gozou, tirou e pronto. Nada de ficar gemendo, revirando os olhos, se torcendo de gozo na cama. Quem faz isso só pode estar com o Diabo no couro."
Retomando e finalizando, ao mesmo tempo. O homem é invenção dele próprio, ele se inventa e se reinventa de acordo com sua constituição animal, no contato com a cultura e o que advém dela e segundo a significação que atribui ao que se lhe apresenta. É isso o que expressa o conceito de constituição bio-psico-social. 
Creio que esses sejam os principais pontos desse pequeno livro, mas com profundo conteúdo filosófico, religioso, psicológico.
Quem refletiu até aqui provavelmente tem alguma coisa para refutar, para acrescentar, para criticar. Fique à vontade para tanto.


Fica a indicação de leitura dO homem como invenção de si mesmo.

Adiós.

Abrazo.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O caminho é você quem traça

Não sou muito pretensioso. Lembro de um passado no qual eu bolava planos mirabolantes na minha cabeça quanto ao futuro. Mas hoje a lista do que eu preciso para viver é bem menor. Acho que a tônica agora é intensidade, qualidade e não quantidade. Mas isso não necessariamente quer dizer que eu não queira ser uma pessoa melhor a cada dia. Não melhor que alguém, mas melhor para eu mesmo e melhor que eu mesmo. Superação, desenvolvimento, crescimento para que a vida não passe em vão e para que ela não seja inútil, fútil.

Mário Sérgio Cortella diz que "gente que é grande de verdade sabe que é pequena e por isso cresce; gente muito pequena acha que já é grande e o único modo de ela crescer é se ela abaixar/humilhar outra pessoa". Portanto, para potencializar a capacidade de crescimento devemos perceber nossa condição de pequenez. Não que devemos abortar nossos sonhos e ambições, mas nutrirmos a insatisfação. Guimarães Rosa já nos alertou que "o animal satisfeito dorme". A satisfação dá a falsa impressão de que tudo está consumado e de não se pode ir além de onde se está. 

Os deuses deram as cartas. A sorte foi lançada. Mas muito do resultado depende do que você fez a partir do momento que entrou no jogo.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"tu és um vice-treco do sub-troço" *

"Tu és um indivíduo entre outros 6 bilhões e 400 milhões de indivíduos, compondo uma única espécie entre outras 3 milhões de espécies já classificadas, que vive num planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre outras 100 bilhões de estrelas, compondo uma única galáxia, entre outras 200 bilhões de galáxias, num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

Quem é você? Quem sou eu?
Quem sou para achar que o único modo de fazer as coisas é como eu faço? Quem sou eu para achar que cor de pele adequada é a que eu tenho? Quem sou para achar que o único lugar bom para nascer foi onde eu nasci? Quem sou eu para achar que o único sotaque correto é o que eu uso? Quem sou eu para achar que a única religião certa é a que eu pratico? Quem sou eu?
Quem és tu? Tu és um vice-treco do sub-troço.”



* Mário Sérgio Cortella - em 2007.

=)


terça-feira, 18 de junho de 2013

Cansamos

Impossível não lembrar das canções do Cazuza, do Renato Russo, do Raul Seixas, da Plebe Rude, dos Titãs, dos Paralamas do Sucesso, dos Detonautas Roque Clube, do Gabriel O Pensador e tantos outros artistas que expressam em suas letras um sentimento de protesto, de revolta, de indignação. Mas não dá pra esquecer que muitos deles também propaga a paz, o amor, a poesia.
O Brasil está em ebulição. Muitas pessoas estão mudando de atitude, passando da passividade para a atividade, do comodismo para a reflexão, da teoria para a prática. Muitos brasileiros cansaram.
Nosso cansaço vem do descaso com as necessidades básicas dos cidadãos. Cansamos de trabalhar meio ano para pagar impostos. Cansamos de ver esses impostos irem para contas bancárias e cuecas de políticos corruptos. Cansamos de sustentar esse engravatados que são os mais caros do mundo. Cansamos de ver políticas públicas baratas feitas somente com o intuito de troca de favores eleitorais. Cansamos de ver gente morrendo em filas de hospitais. Cansamos de ver colarinhos brancos atolados até a bunda com propinas e falcatruas de todas as espécies. Cansamos de ver criança passando fome. Cansamos de idosos levando anos para receber uma migalha de aposentadoria. Cansamos de mendigar o mínimo, sabendo que de nós sempre foi cobrado o máximo. Cansamos de ver servidores públicos abandonando a carreira por falta de capacitação e de remuneração. Cansamos de ter nossos direitos privados sem justificativas morais e legais para tanto. Cansamos duma falsa democracia. Cansamos de ver gente fodendo com a nossa vida e com os nossos sonhos enquanto apenas gritávamos gol. Cansamos disso e de muitas outras coisas que cada um pode ir acrescentando motivos na lista ad infinitum. O jogo agora é outro. As regras são outras. Chega de ser prego, é hora de sermos martelo.
As manifestações que estão ocorrendo no país são, sim, legítimas. Essa história que a mídia está tentando passar, de que são apelos pela redução dos valores das passagens do transporte público das grandes cidades, é mais uma tentativa de minimizar os problemas que estão bem embaixo do nosso nariz. Só não enxerga quem não quer ver e quem é da elite que caga para o resto da população. Aliás, para entender um pouco mais do que realmente está acontecendo o mais indicado é que a televisão seja desligada. As redes sociais estão cheias de conteúdos, textos, imagens, vídeos do que está se passando em todos os cantos do Brasil. 
Os protestos estão ocorrendo num momento oportuno, já que os holofotes mundiais estão direcionados ao país devido à realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de Futebol. Os maiores motivos que eu vejo para a indignação e que me parecem contribuir para isso são os gastos elevados na construção de estádios para esses eventos, principalmente os das cidade que depois não sediarão eventos da mesma magnitude, e as barbáries que nossos representantes da Câmara dos Deputados e do Senado estão cometendo.
Está havendo excessos da polícia? Sim! Muitas vezes os policias acabam exagerando na dose e cometendo idiotices sem tamanho de abuso de autoridade e violência contra os manifestantes. Na semana passada o que mais teve foi disparo com munição de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. Isso só mostra o despreparo que eles têm para lidar com situações assim. Ontem em São Paulo a manifestação já foi mais pacífica e espera-se que assim seja de agora em diante.
Está havendo atos de vandalismo? Sim! Algumas pessoas também acabam confundindo um ato pacífico com um ato extremista. Além disso, há todo tipo de pessoa infiltrada numa massa de milhares de manifestantes. Então, nem 8, nem 80. Nem toda a polícia, nem todos os manifestantes são santos.
O fato é que o momento é um marco no futuro do país. 
Eu sou a favor das manifestações. Se possível, que seja sem violência de todas as partes. 
E que as cabeças pensantes continuem espalhando mensagens que possam contribuir para dar novos rumos para a zona chamada Brasil. Porque administrada do jeito que está, não dá. E nós cansamos...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

um pouco de realidade na fantasia ou um pouco de fantasia na realidade

Apenas mais um dia. Difícil, diga-se de passagem.
Depois de dias difíceis as criaturas noturnas tem ainda mais dificuldade de acomodar os pensamentos e dormir em paz. Uma mesa de bar e algumas bebidas costumam ser ótimas companhias e tranquilizantes melhores do que os vendidos nas farmácias.
Fim de noite. Esgotamento quase total. Percepção alterada. A noção do tempo já foi para o espaço. As energias são levemente revigoradas com apenas um olhar, com um gesto mínimo que aponte para a reciprocidade de diversão a dois. É hora de dar vazão aos instintos sem se preocupar com os papéis sociais ou quaisquer outras convenções que não se aplicam para o momento. Como expressou Bukowski, “sinta mais, pense menos”. E esse é o nosso acordo: se entregar, curtir e guardar isso só para nós mesmos. Foda-se o mundo lá fora. Agora o que importa é eu e você. E o que a gente pode fazer juntos.
O momento é nosso e de ninguém mais. Nossos corpos ávidos e sedentos entram em combustão quando sentem o calor um do outro. A química envolve os olhares, os toques, os cheiros, os suspiros, os sussurros, os gemidos, os sorrisos. E tudo isso é espontâneo. Ninguém nos obrigou, ninguém nos forçou. Estamos nos divertindo por opção, sendo levados pelo desejo, pelo tesão. Sensações indescritíveis fazem parte desses instantes sublimes. Esses prazeres carnais contribuem para deixar a alma leve.
Eu curti pra caralho! Quero bis. Se tiver outra oportunidade pode crer que não vai ser menos intenso, nem menos divertido.
O dia seguinte não teve ressaca moral. E a coisa mais agradável foi sentir o cheiro do teu corpo e dos teus cabelos em mim e na minha roupa.  

Valeu. Um piscar de olhos para você. ;) 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Dos dilemas da vida*

Duas pessoas, um homem e uma mulher, tem um compromisso uma para com a outra. 
O homem adoece. É diagnosticado um problema renal e a necessidade de transplante é urgente. 
A mulher realiza exames para verificar a compatibilidade. Ela poderia ser a doadora, não fosse a gravidez, descoberta na bateria de exames há pouco feita. Caso deseje mesmo doar o órgão ao parceiro, o feto não resistirá.
Eis aí o dilema para ambos.
O homem abre mão de sua própria vida para que a mulher tenha o bebê?
E a mulher, aborta o bebê para salvar a vida do companheiro?
Vários aspectos têm que ser ponderados para um esboço de argumentação. Imaginem, então, vivenciar esse dilema na pele... 
Deixemos as respostas simplórias para depois e nos esforcemos nessa tarefa hipotética. A questão é: e se eu estivesse diretamente envolvido numa situação assim?

* Ao som de

domingo, 19 de maio de 2013

Uma dúzia de mulheres que fazem minha cabeça

Algumas coisas mexem com o imaginário masculino. Às vezes eu fecho os olhos, abstraio e viajo com as vozes, sussurros e gritos dessas divas da música. Elas cantam e encantam, literalmente.

#musicismyreligion

Tarja Turunen, Amy Lee, Pitty, Flávia Couri, Érika Martins, Vivi Peçaibes, Vanessa Krongold, Megh Stock, Tati Portella, Deia Cassali, Luísa LoveFoxxx, Andrea Martins.

Di-vir-tam-se!
=)


























segunda-feira, 13 de maio de 2013

Barba Ensopada de Sangue

O pai o chama o para uma conversa franca. Eles conversam sobre a misteriosa e não esclarecida morte do avô. Inesperadamente, o pai pede para que lhe prometa uma coisa: sacrificar a cadela que há tantos anos lhe acompanha. Motivo? O pai tomara a decisão de suicidar-se. Acha que está velho e doente, que já viveu o que poderia viver, que já cumpriu sua jornada na terra.
Após o suicídio do pai, pega seus poucos pertences e muda-se para Garopaba. Não sacrifica a cadela, que torna-se sua melhor companhia. Aluga um lugar à beira-mar para morar, com pagamento adiantado por um ano. Vende seu Fista e começa a trabalhar numa academia, dando aulas de natação. Passa a perguntar para as pessoas se tem alguma informação do Gaudério, seu avô, que teria sido morto por aquelas bandas. Em vão.
Conhece algumas pessoas, inclusive algumas garotas com as quais manteve relacionamentos curtos e conturbados. Continua tentando desvendar o mistério da morte do avô e larga o trabalho. Se mete em grandes enrascadas remexendo no passado e pondo a própria vida (e a sanidade) em risco.
Certa feita recebe a visita da mãe. Quem o visita também é a esposa do seu irmão, sua ex-namorada, que o convida para ser padrinho do filho que está esperando...
Isso e tantas outras tramas se passam no livro de Gabriel Galera. Uma leitura envolvente, cheia de reflexões das bifurcações e surpresas que a vida eventualmente apresenta.

Trechos que (como de costume) grifei.

"Na adolescência o resto da vida parece uma eternidade e vamos supondo que sobrará tempo para tudo."

"Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo." 

"Tô começando a ficar doente e não tô a fim. Não sinto mais o gosto da cerveja, os charutos tão me fazendo mal e não consigo parar, não tenho vontade nem de tomar viagra pra fuder, não tenho nem a nostalgia de fuder. Essa vida é comprida demais e não tenho paciência. Viver depois dos sessenta, pra quem teve uma vida como a minha, é questão de teimosia. Respeito quem investe nisso, mas não tô a fim.Fui feliz até uns dois anos atrás e agora quero ir embora. Quem acha errado que viva até os cem se quiser, desejo sucesso. Nada contra."

"O que seria da gente sem falsas esperanças?"

"Às vezes só com as sacudidas e choques que a vida dá a gente consegue ter o desprendimento pra concretizar sonhos[...]"

"Essas coisas de relacionamento a gente não escolhe quando acontece. O vento cármico leva e traz."

"Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar despercebida."

"O melhor é jamais fazer esforço nenhum para conquistar ninguém."

"[...] há casos famosos de pessoas que se mataram por tédio ou cansaço, naturezas predispostas a ver a morte como uma questão pragmática. Vive-se enquanto vale a pena, enquanto é útil."

"O verão é euforia, dinheiro. O povo fica ocupado demais pra sofrer. O inverno é tédio, falta de perspectiva. Frio. Aí o bicho pega."

"É uma sociedade inteira despreparada pro sofrimento ou consciente demais do sofrimento. Quanto mais a gente compreende e trata o sofrimento mais a gente acha que sofre e ao mesmo tempo o sofrimento dos outros começa a parecer frescura."

"[...] falar sobre as coisas avacalha com tudo pra mim. Falar estraga. É só dar nome que morre."

"É sempre duro fazer o que tem que ser feito, romper com pessoas legais, mesmo quando se está convicto de que é o melhor."

"O amor é o coração do desespero."

"Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro."

"Ou existe livre-arbítrio ou não existe. Se o ser humano é um agente livre, se temos escolhas, podemos ser responsabilizados. Se não existe, se o universo é predeterminado pelas leis da natureza e tudo não passa do resultado do que aconteceu logo antes, aí ninguém tem culpa do que faz. Nem rancor nem perdão fazem sentido."

segunda-feira, 6 de maio de 2013

As coisas pelas quais valem a pena viver


Cada pessoa tem suas buscas e se posiciona perante o mundo de acordo com prerrogativas próprias, que vão sendo construídas no decorrer da vida. O respeito a isso é o mínimo que se espera.

A título de exemplificação, trago uma passagem do filme Sociedade dos Poetas Mortos, na qual um Professor explica aos seus alunos:
"Não lemos e escrevemos poesia porque é moda. Lemos e escrevemos poesia porque fazemos parte da raça humana. E a raça humana está impregnada de paixão. Medicina, Direito, Administração, Engenharia são atividades nobres, necessárias à vida. Mas a poesia a beleza, o romance, o amor são as coisas pelas quais valem a pena viver"
Isso aponta para a representação de mundo do professor. As coisas são assim para ele. Para outras pessoas as coisas pelas quais valem a pena viver podem ser outras. 

Se eu te perguntar quais as coisas pelas quais valem a pena viver? Qual será a tua resposta? Faça um exercício: olhe para a tua história e veja se realmente isso que você está vivenciando tem a ver contigo e o que pode ser feito a partir daí.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

15 doses de Bukowski*

Sensacionais algumas passagens dos poemas do Bukowski. Palavras viscerais, ditadas pela experiência de vivências intensas e/ou devaneios complexos.
Nunca é demais compartilhar.
=)

Desempenhando
[...] às vezes o cheiro do amor e sempre o cheiro do sexo
[...] mas várias vezes
nos momentos mais intensos
e apaixonados
eu desejei se aquele
cara solitário novamente
sentado no cinema com
meu pacote de pipoca
enquanto ao meu redor
casais se sentavam
juntos
lado a lado."

Todas, uma boa tentativa
"[...] refletindo sobre o meu fértil passado
lembro de todas as mulheres que conheci
que no início do namoro 
já estavam desanimadas e in-
felizes por causa de suas tristes
experiências anteriores com outros
homens.
eu era considerado apenas mais uma
parada no meio do caminho
e talvez eu 
fosse e talvez eu não fosse.
as mulheres há tempos eram usadas e ab-
usadas
enquanto certamente acrescentavam sua porção de
abuso
à mistura."

Moça na escada rolante
[...] observo ele acompanhando ela
pela
escada rolante, seu braço
de forma protetora na cintura
dela, pensando que tem
sorte,
pensando que é um cara muito 
especial, pensando que
ninguém no mundo tem
o que ele tem.
e ele está certo, terrivelmente
terrivelmente certo"

Uma definição
"amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro
[...] amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
[...] amor é tudo que nós dissemos
que não era
[...] e amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.

Um poema de amor
[...] não fui nem depravado nem
desleal. apenas
um aprendiz.
[...] as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros 
assuntos; cada uma tem limites assim como eu tenho
limites e nos descobrimos
um ao outro
rapidamente."

Então você quer ser escritor?
"[...] a não ser que saia de 
sua alma como um foguete,
a não ser que ficar parado te
leva à loucura ou
ao suicídio ou assassinato,
não faça.
a não ser que o sol dentro de você esteja
queimando suas vísceras,
não faça."

O poema
"[...] o poema não é grande coisa
mas deixa eu te dizer
se não tivesse descoberto
ele
eu estaria morto"

Às vezes quando você fica triste há uma razão
"é preciso apenas 6 ou 8 líderes políticos inaptos
ou 8 ou 10 escritores, compositores e pintores pedantes para
fazer o curso natural do desenvolvimento humano
retroceder
50 anos
ou mais."

A índole da multidão
"[...] e os melhores, na guerra
- no final - são os que 
pregam 
a paz.
[...] Cuidado Com Os Que Sempre Procuram
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos."

Um truque para atenuar nosso sangramento
"[...] e o fracasso não foi nada maisque um
truque
para nos fazer continuar,
e a fama e o amor
um truque para atenuar nosso sangramento.
[...] palavras bonitas
assim como mulheres bonitas,
ficam enrugadas e morrem."

Está feito
"[...] se queixar sobre velhas feridas é
um estúpido desperdício do coração."

Fim
"[...]nós já matamos a nós mesmos
a cada dia que levantamos da cama."

Nós, dinossauros
"[...] nascemos nisso
em hospitais tão caros que é mais barato morrer
em advogados que cobram tanto que é mais barato
se declarar culpado
num país onde as cadeias estão lotadas e os hospícios fechados
num lugar onde as massas promovem idiotas a heróis ricos
nascemos nisso
caminhando e sobrevivendo a isso
morrendo por causa disso
mudos por causa disso
castrados
depravados
deserdados
por causa disso
enganados por isso
usados por isso
desprezados por isso
ficando loucos e doentes por isso
ficando violentos
ficando desumanos
por isso"

Paraíso bastardo
"[...] mas o destino não é o único 
culpado.
nós desperdiçamos
nossas oportunidades,
nós estrangulamos
nossos próprios corações."

Jogue os dados
"se você tentar, vá até o 
fim.
caso contrário, nem comece.
[...] isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e 
talvez sua sanidade.
[...] solidão é uma dádiva."
           

                                                                                  *Trechos extraídos de

terça-feira, 2 de abril de 2013

Em que eu acredito?


            Religião é um tema um tanto delicado de conversar, sobretudo com quem tem uma visão unilateral e dogmática a respeita do mesmo. Por se tratar da fé das pessoas (e isso merece ser respeitado profundamente) geralmente o que se tem a fazer é ouvir a opinião da outra pessoa e entendê-la como legítima, contextualizando isso na história de vida dela. E ao expor a própria opinião não precisa ser ofensivo ou tentar convencer o outro a migrar para o mesmo credo que você. O mundo é muito vasto e nele tem espaço para todos, cada qual do seu modo, do seu jeito.
            Vez ou outra em converso com algumas pessoas que fazem parte de alguma religião ou que frequentam algum ritual religioso. Isso é uma opção existencial. Geralmente a institucionalização da fé acaba transformando a espiritualidade em religiosidade. E em casos assim o diálogo fica mais para monólogo. É quase inevitável que eu comunique a minha posição quanto aos assuntos apresentados. Acho interessante esse jogo de argumentos, embora perceba que a maioria deles já vem encaixotado/fechado de acordo com o que prega a doutrina que é seguida.
            Em alguns casos e para algumas pessoas a fé indispensável. Mas a fé cega, restrita aos dogmas das religiões, é um tanto perigosa, pois pode levar o indivíduo a uma alienação muito grande, deixando-o à mercê do que diz o padre, o bispo, o pastor. Às vezes esses que se intitulam como representantes de um sobrenatural na terra mais trabalham para tornar as pessoas ignorantes, quando na verdade deveriam esclarecê-las ou fazer outras coisas que não o que fazem. Com fé não se brinca. Ou ao menos não se deveria brincar.
            Há muito tempo me tornei agnóstico. Não tenho conhecimento, não posso saber da existência ou não de um ser sobrenatural, tampouco seus atributos e outros aspectos com relação a isso. Eu não sei. Simples assim. A capacidade humana é limitada e não temos alcance para saber/conhecer isso. O que existem são as crenças. Alguns acreditam na existência de um deus, ou de deuses, outros não acreditam. Eu estou mais para estes últimos. Então, recapitulando, sou agnóstico por não ter conhecimento, por não saber da existência de um sobrenatural e sou ateu por não acreditar nessa existência.
            Ter esses posicionamentos não me faz uma pessoa antiética, sem compaixão, desumana, et cetera e tal. Ser uma pessoa honesta e não fazer mal às pessoas, aos animais e ao planeta como um todo não necessariamente tem a ver com a crença religiosa. São coisas distintas. Algumas pessoas só agem assim impulsionadas pela fé, pela crença. Isso decorre, talvez, do entendimento de que Deus seria uma espécie de punidor das pessoas pelas coisas erradas que elas cometem e recompensador das mesmas pelas seus acertos. Meio infantil pensar assim, mas respeito que tem isso incutido sobre os ombros. E volto a afirmar, ética não tem a ver com religião. Se tivesse, pessoas religiosas não cometeriam algumas enormes atrocidades que vimos por aí.
            Eu costumo me questionar sobre dois pontos, já que admito não ter conhecimento, não saber sobre. Na hipótese afirmativa da existência de um sobrenatural e que ele possua algumas características que costumeiramente o são atribuídas, tal como onisciência, onipotência, onipresença, que ele seja infinitamente bom, infinitamente acolhedor e tudo mais que a tradição nos lega, (1) esse sobrenatural tem poder para interferir nas ações humanas? (2) Se tem, porque não o faz e permite que coisas más aconteçam com pessoas boas, com pessoas inocentes? Além dessas inquietações, outras coisas me instigam com relação ao assunto, mas vou abortar por aqui para não me estender muito e não correr (ainda mais) o risco de incompreensão ou julgamento equivocado.  
            É raro, após eu elucidar um pouco das minhas crenças (ou falta delas) não ouvir a pergunta “Mas então em que você acredita?” Não é uma resposta fácil. Há uma ebulição de ideias que apontam alguns caminhos. Costumo dizer que acredito nas pessoas, acredito no amor como sendo algo que dá sentido e movimento ao universo. Sim, o amor é o que nos move. Não esse amor romântico vendido nas bancas de revistas, nas novelas, nos faz-de-contas. Mas o amor como uma disposição para empenhar-se em fazer as coisas dando o melhor de si sem esperar nada em troca e sem querer tirar proveito sobre situações ou pessoas. Para alguns isso pode até parecer simplista, ou utópico, ou ridículo. Mas é isso. É nisso que eu acredito. É assim que eu me posiciono no mundo. É assim que eu vivo.
            Me desatei a escrever sobre essas coisas depois de ter lido, dias atrás, esse texto (clica pra ver) do David Coimbra, no qual ele fala de um câncer que culminou com a retirada de um rim. Sobre a situação ele fala do carinho e o apoio recebido das pessoas “Não há nada transcendental aí; o que há são as pessoas. Os homens. O homem que inventa a bomba atômica, mas que também desenvolve a medicina nuclear, o homem é, sim, o lobo do homem, mas também o seu consolo e a sua salvação. Depois de olhar na cara da morte, vi que a vida está na relação com as outras pessoas. As pessoas, as pessoas. Os outros seres humanos é que nos tornam humanos”.
            Minha pretensão com isso tudo? Instigar a reflexão e o senso crítico, lembrar que o preconceito não faz bem à nossa alma, quebrar algumas correntes que nos aprisionam e nos impedem de vislumbrar o que a vida tem a nos oferecer. Essas e algumas coisitas mais.
            Abraço de paz!