Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Ói nóiz aqui ôtraveiz!

Sumi aqui do Blogspot. Literalmente. Deixei de entrar no Eu na madruga e de acompanhar postagens dos blogs que sigo. A boa disso é que tenho muito conteúdo para conferir, já que acompanho uma galerinha bacana aqui. Nesse intervalo, criei conteúdo para o Facebook e adaptei alguns escritos daqui para publicar lá.
Hoje aproveitei a folguinha do feriadão para logar e deixar um abraço aos que, vez ou outra, espiam por aqui. Prometo voltar mais vezes.
Seguimos...

sábado, 20 de junho de 2015

Recortes d´O tempo é um rio que corre - III A embocadura do rio

Última postagem com os recortes que prometi. 
Espero que tenha incitado a reflexão com o que compilei aqui.
Dá pra ter uma ideia geral do que é abordado por Lya Luft no livro. Mas a indicação de leitura da obra ainda está valendo.

* * *

III) A embocadura do rio

"Somos náufrago ou timoneiro
nessas águas que tudo levam:
estrelas, escolhas, 
destroços e abraços."

"Se imaginarmos que o nebuloso mar chamado morte pode não ser o fim de tudo, e que esconder o rosto na dobra do braço não adianta nada, em lugar de deixarmos levar com desespero silencioso podemos ter mais consciência da construção disso que somos. E escrever partes desse roteiro, com decisões, com coragem, com medo e terror, acertos e tantos enganos - tudo faz parte.
[...] Nossa vida mais real é o tablet. Nossa única morte é a do game. Nossas alegrias correm o risco de serem apenas virtuais, o amor virtual, milhares de amigos virtuais, a maioria como bonecos nas prateleiras. Quem quer pensar em destino, decisões, compromissos, até mesmo poder e glórias reais que exigem trabalho, e perdas, e dores?"

"No começo da minha história pessoal, morte pertencia à linguagem dos adultos. Ficavam com ar sério ou triste, mas ninguém explicava nada. Possivelmente, se eu indagasse, minha mãe diria, como de costume que isso não é coisa pra criança. [...] Mas aso poucos fui percebendo que as coisas, os bichos, os momentos acabavam (ainda não imaginava que as pessoas também se incluíssem nesse acontecimento)."

"[...] a realidade não existe: cada um inventa a sua."

"A poderosa, onipotente, indesejável e inevitável senhora Morte, nossa desde sempre enamorada, que não queremos ver, nem ouvir, nem aceitar: ela é que vai ter de nos pegar nos braços. Seremos submetidos, seremos domados, seremos absorvidos.
(Não escrevi destruídos)."

"Se perder os pais é doloroso, se a consciência da súbita orfandade em qualquer momento da vida é difícil, uma criança que se vai, sugada pelo funil do grande enigma, é a dor maior. É o horror, a escuridão."

"Essa ave pousada em nosso ombro, pálpebras baixadas para que seu olhar não amedronte, está dizendo 'brinquem, dancem, riam, enquanto minha hora não chega. Paguem as contas! Transem ou bebam ou chorem, ou simplesmente fiquem encolhidos à minha espera, fazendo de conta que não, que não, com a cabeça, como crianças negando que eu existo.'"

"Em certo momento não caberá a nós decidir: apenas iremos. Com medo, com dor, com indiferença, com alguma tranquilidade, quem sabe curiosidade: o que existe e quem está na outra margem?"

"Quantas vezes, num convívio longo ou breve, nos demos conta de que não era eterno? Quantas vezes na lida diária sentimos que era passageiro? Quantas vezes pensamos que atrás dessa superfície alguma coisa mais espera, imóvel, paciente - concreta e real ainda que apenas névoa? Pouco disponíveis estamos para o inquietante. Mas está lá, o avesso de tudo, como passos no corredor embora não haja ninguém, um tumulto sutil no ângulo da sala indicando que acima das frivolidades paira um segredo sem tamanho, que torna tudo precioso e singular, e terrível.
Transitamos por tudo isso como crianças inconscientes, com uma leviandade invejável e alegre, até que essa realidade nos atinge, nos enfia a faca no peito, e nos derruba com aquele soco de uma mão poderosa na nuca de uma criança que não compreende nada.
Cada um de nós de inventar o seu próprio jeito de sobreviver: para alguns isso será deixar as pálpebras bem fechadas, apertar os olhos com os punhos e andar feito cegos como a gente brincava em criança."

"Importa que eu acredite mais na vida que na morte, mais na presença que na ausência: é o melhor que posso fazer por esses que, sem os perdi, perdi."

"Essa singular companheira nossa, a memória, nos ajuda a suportar despedidas."

"Amadurecer, envelhecer, traz várias coisas boas, mas também significa que mais amigos começaram a morrer."

"A morte pode ser o barco atracando em areias macias, ou o rio desaguando num oceano acolhedor. Como ninguém me prova o contrário, gosto de pensar assim."

"Em lugar de reclamar, podemos dialogar; em vez de nos matar, podemos outra vez tentar a vida e desenrolar a alma; em vez de ressecar podemos animar essa criatura singular que somos, com risos, com gemidos de dor, com sussurros no escuro. 
É preciso enfrentar isso que não controlamos, mas que não precisa nos destruir: a vida inevitavelmente fluindo. Pois nós também somos isso."

"Tempo de refletir: as vezes em que fomos egoístas, grosseiros, fúteis, infiéis. As vezes em que não estivemos presentes.
As vezes em que a gente não estava nem aí.
Mas todas as vezes em que a gente fez o melhor que podia naquele momento.
As vezes em que tivemos pena de nós mesmos, em que deixamos que alguém se afastasse ou nos isolamos de quem nos queria bem; o tempo desperdiçado ignorando uma boa oportunidade, e nos boicotamos - o quase imperdoável pecado, tão comum.
(E, mais uma vez, cada hora em que fizemos o melhor que podíamos.)"

"As águas não interrompem seus curso quando dormimos ou comemos, quando amamos ou nos frustramos, quando executamos projetos ou achamos que nossa força acabou. Não param quando comemos hambúrguer, usamos o computador, tomamos vinho, choramos no escuro, pensamos em nos matar, pagamos dívidas com mais dívidas, traímos ou somos traídos, ou rimos sem motivo porque nos sentimos bem." 


Foto extraída da internet.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Recortes d´O tempo é um rio que corre - II Maré alta

Seguindo na minha proposta de trazer recortes desta obra da Lya Luft, vamos para a segunda parte.
* * *
II) Maré alta


"Sem que a gente entenda direito, já nos acenam os dias de ter uma vida própria, segurar o leme, decidir: o curso, a profissão, o amor (esse se decide?), a casa, os filhos, o futuro, ah!, o futuro que pertence à velha feiticeira com suas agulhas loucas. Tudo o que desejamos ser e ao mesmo tempo tememos, como vai ser, o que terei de fazer?

Os compromissos, as dúvidas, o cansaço. A alegria algumas vezes, o inesperado êxtase, a tamanha esperança.
[...] Vamos nos alegrar, vamos nos assustar, nos encolher, nos fechar no quarto, entrar na internet e seguir os esse mil chamados em que não é preciso mostrar identidade e rosto verdadeiro?"


"Se a infância é o pátio dos sustos e dos devaneios, a juventude é o horizonte provocador que dá tontura, arrepio, fascinação. Mais medo. Época dos primeiros questionamentos e daquela doce arrogância (outra face da insegurança) com que nos fingimos de onipotentes."



"Rebeldias saudáveis, rebeldias tolas, rebeldias inúteis, sinais que existimos: somos pessoas, queremos nos entender, nos expandir, queremos chegar a outros lugares:que trilhas de angústia sem explicação, a que nem nomes conseguimos dar. Mas sempre queremos mais. 

(Aqui e ali, labaredas de euforia que ninguém decifra: nem nós.)"


"[...] o adolescente finge que olhando para os lados ou tocando música bem alto não se escutarão as dúvidas e as ansiedades. Híbrido entre criança e adulto jovem, suas antenas supersensíveis se expandem e se encolhem, assustadas, muitas vezes falhando na sensação, o que parece amoroso é duro, o que parece frio é cálido, mas ele nem sempre tem como saber, e a opinião dos adultos mais machuca que ilumina."



"Estar em trânsito é a nossa essência, ninguém tem tempo para pensar no tempo."



"Ora somos reais, ora nos sentimos réus. A tribo nos acolhe, nos conforta, quebra um pouco a solidão, mas também pode nos descaracterizar, nos engolir.  gente nunca sabe direito o que fazer, então canta, então dança, então chora, então ama, então se desespera, então ri com o mesmo encantador jeito infantil de outro dia.

Ainda temos a ilusão de que não será preciso pagar todos os preços."


"[...] Esperam que sejamos felizes nessa fase, como se lhes devêssemos isso."



"Viver é estar num campo de batalha, as metralhadoras disparando o tempo todo. Atingem desconhecidos, ou alguém bem longe, mais próximo, ou no nosso lado. Um dia os atingidos seremos nós."



"Como amadurecer sem perder a graça, sem ficar embotado, sem sucumbir ao tédio da rotina com que nos enrolamos feito um cobertor que abafa as inquietações, as dores e os maravilhamentos?"



"Vamos cumprindo tarefas, conquistando algumas coisas e perdendo outras, vamos largando pedaços aqui e ali - alguns jamais se recuperam.

[...] Empurramos mais para o fundo a incerteza quanto ao que estamos fazendo, fica aí, quieta, não me estorva, eu tenho de pegar o ônibus, chegar na hora, bater o ponto, cumprir a agenda, satisfazer o patrão, o marido, a mulher, o filho, a sociedade, é preciso, é preciso, é preciso. Pois agora somos responsáveis."


"Porque tudo se vai e se transforma, eventualmente nos damos conta da importância máxima das coisas mínimas."



"Aos poucos pesa em nosso corpo (e na alma não menos) a realidade de que o rio que empurra a vida não é miragem. Manchas, rugas, cansaço, impaciência, e sempre espiando atrás das portas, o medo: estou fora dos padrões, fora do esquadro, devo impedir isso, preciso mudar? O grande engodo da nossa cultura nos convoca: a endeusada juventude tem de ser a nossa meta."



"Agora a gente quer estancar, quer se prender numa moldura impossível, se preciso queremos parar de respirar.

Pois no conceito atual, o tempo é o vampiro que suga força, beleza, potência, e nos deixará como uma casca de uva chupada, cuspida, apodrecendo no asfalto."


"Depois, aos poucos, sem perceber, deixamos de questionar: a acomodação, adversária da vida, nos protege, mas também nos anestesia. Viver agora é cumprir deveres, correr atrás de horários, tentar crescer, tentar acertar, tentar esquecer o incômodo quebra-cabeças que somos e precisaríamos a toda hora recompor.

[...] A ilusão pode ser mais confortável, mas a verdade é mais simples, só não sabemos que verdade é essa. Começamos a rejeitar como futilidade ou romantismo aquela premente indagação da adolescência: o que quero da vida? Procuro por isso ou faço o que exigem de mim?


"Se não formos demasiado fúteis nem nos avaliarmos apenas pelo bolso e pelo físico, pode haver muita energia boa na maturidade. Alguns trabalhos cumpridos, ainda horizontes pela frente, sensação de que afinal podemos repensar muita coisa."



"Descartamos o que não faz parte do nosso mundo. Porque somos perversos?
Porque somos humanos.

(Pensar dói.)"


"Dissabores fazem parte.

(Maior devia ser a celebração da vida.)"


"Não saber seria melhor do que saber? Dormir seria melhor do que viver? Não ter nada seria melhor do que tantas vezes perder? Essas águas onde pescamos dádivas e jogamos despedidas nos desafiarão até o último instante de lucidez."



"O tempo não nos aniquila: ele nos move mesmo quando nos derruba e passa por cima de nós com suas grandes patas."



"Cruéis convenções nos convocam: estar em forma, ser competente, ser produtivo, mostrar serviço, prover, pagar, e ainda ter tempo para ternura, cuidados, amor. [...] A sociedade é uma mãe terrível."



"Tempo de perder: as despedidas sôfregas, ou a partida sem o tempo de um adeus; a alegria roubada, o amor estilhaçado, o rumo perdido, o leito de morrer, o quarto de acordar sozinha, onde estão os belos momentos, onde foram parar os projetos, onde devo me situar agora, neste tempo sem tempo?

[...] Avançar porque não havia outro jeito, as pessoas que me amparavam, que me amavam não mereciam que eu desistisse. Além do mais, não reagir seria homenagear a velho bruxa Morte, e declarar que ela tinha vencido."


"A gente resiste, se pode.

Segue em frente, do jeito que pode.
A gente vence.
A gente aceita.
Ou finge.
(Máscaras muito usadas se tornam a pele do nosso rosto.)"


"Porque o tempo passa é que tudo se torna tão precioso. Porque estamos sempre nos despedindo - dessa luz, dessa paisagem, dessa rua, desse rosto, desse momento, e de nós mesmos nesse momento -, tudo assume uma extraordinária importância. Não é coisa para sentirmo constantemente, mas nas horas em que a alma se expande saímos do fútil para o singular - e vemos como somos especiais."



"Seja como for, de tropeço em tropeço, de agonia em agonia, retomamos o prumo. Pois mesmo quando de um lado a morte nos abraça, do outro a vida nos chama."



"É cruel nosso esforço em iludir o tempo, em deter a vida, em não ser quem podemos ser a cada fase, numa mentira que sacrifica muito entusiasmo, muita alegria, doçura, interesse, experiência e esperança. 

[...] Armadilhas de uma cultura da futilidade: podendo viver mais, queremos permanecer na juventude como num tanque de formol, porque uma ideologia tola nos diz que só ali estão as possibilidades todas.
E nós seguimos a manada: vamos ignorar as coisas interessantes que o mundo nos oferece em qualquer fase, vamos desperdiçar a vida agarrados a um ideal impossível, talvez grotesco. Em lugar de um semblante, uma máscara onde só a boca se move um pouco, e as pálpebras abrem e fecham.
Estaremos felizes ou apenas mais desesperados?"


"É possível desafiar os conceitos que imperam, desatar os fios que nos enredam, limpar o pó desse uniforme de prisioneiros, deixar de lado as falas decoradas, a tirania do que temos de ser ou fazer. Pronunciar a nossa própria alforria: vai ser livre, vai ser você mesmo, vai tentar ser feliz, seja lá o que isso for.

Então podemos murmurar, gritar, cantar. Podemos até dançar. Não há marcações nem roteiro, mas a inquietante possibilidade de optar[...]"

"Velhos conceitos tortos ainda nos limitam, e o coração é pequeno demais para aceitar que há possibilidades de crescer - em qualquer tempo."

"Por que não se podem celebrar a vida pessoas, sonhos, até perdas, em qualquer idade? Por que temos de nos encolher, morrendo antes da hora?"

"O afeto, o interesse, a curiosidade, estar aberto para os outros são o maior talento."

"Frequentemente se pensa que qualidade de vida significa uma espécie de embalsamento em algum ponto da mocidade. Predomina a ideia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo."

"Quanto aos afetos, se ao nosso redor existe apenas um deserto, possivelmente nós mesmos o criamos.
Presenças amorosas a gente procura ou nos encontram. Ainda que os afetos perdidos sejam insubstituíveis, existe espaço na alma para novos acolhimentos, desde que a gente queira. Ou possa, me diz alguém, pois algumas pessoas são, por educação e bagagem psíquica, irremediavelmente estreitas e secas."

"Não precisamos ser ricos, magros, belos, ágeis, viajar a Paris, conhecer as ilhas gregas e o mais novo restaurante chique da cidade para estar bem. Em nenhum momento da vida projetos incríveis significam incríveis alegrias. Mas a cada momento a gente pode se transfigurar."


"E o sentido da vida?
Cada um tem de inventar o seu com seus talentos e sua própria inevitável incompetência."


"A vida é uma casa que construímos com as próprias mãos, criando calos, esfolando os joelhos, respirando poeira. Levantamos alicerces, paredes, aberturas e telhado. Podem ser janelas amplas pra enxergar o mundo, ou estreitas para nos isolarmos dele. Pode haver jardins, pátio, por pequenos que sejam, com flores, com balanços, para a alegria; ou só com lajes frias, para a melancolia."

"Acossados pelo medo e pela inquietação, nunca parando para refletir e raramente para respirar, algumas pessoas parecem tombar subitamente da juventude impensada para a velhice ressentida. Foram apanhadas desprevenidas. Estavam desatentas ao milagre da existência.
Toda essa realidade, que inclui nascimento e velhice, crianças doces e caras murchas, corpos sensuais ou mentes confusas, escorre como um rio no qual flutuamos, nadamos, resistimos ou nos deixamos levar - enquanto ele, estranho e belo, permanece em seu fluir, e nos leva até onde talvez apenas comece o novo roteiro de uma nova peça de teatro."

"Melhor ter rugas de riso do que cara feito máscara de gesso."

"Se alguém na velhice é realmente só, sem ninguém, nem vizinho, nem conhecido, nem parente, nem mesmo o quitandeiro da esquina com quem falar, me perdoem: a não ser uma tragédia tenha devastado sua vida sem deixar pedra sobre pedra, possivelmente faltou cultivar interesses e afetos, em vez de esperar por eles como obrigação alheia.
A vida não nos deve nada."

"Estar quieto não é sempre depressão: pode ser, como na infância, aquela contemplação prazerosa que na agitação atual dificilmente se entende."

"Não há garantia para nada, então, assim como ser bom, honesto, decente, trabalhar direito, seguir os preceitos todos não garante que sejamos felizes, recompensados, bem-sucedidos e saudáveis; amadurecer, envelhecer com o possível de otimismo e cordialidade não garante nada.
Também em nosso refúgio da casa, da família, do trabalho, da rotina e dos afetos bons, o mal é possível.
[...] Mas uma coisa a gente pode construir de positivo, em qualquer fase da vida."

"Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda ler, ouvir músicas, olhar a natureza; exercer afetos, agregar pessoas, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de seda) ou ágil, mas ainda lúcido. Todos queremos viver muito, esquecendo que viver muito é inevitavelmente envelhecer. E que envelhecer não é doença, não é deterioração: é apenas mais uma inevitável fase.
Que seja boa.
Que seja vivida, não suportada: isso, sim, depende de nós."

sábado, 13 de junho de 2015

Recortes d´O tempo é um rio que corre - I Águas mansas

Se eu fosse você, daria um jeito de colocar O tempo é um rio que corre mais acima na pilha dos livros que estão para serem lidos.
* * *
Esta é, no meu entender, a obra mais espetacular da Lya Luft. Quem já conhece a autora sabe que as relações humanas, o tempo e a morte são temas que ela não se cansa de abordar. Neste livro, especificamente, Luft discorre sobre o fluir das fases da vida - "o fluir da vida é o rio do crescimento e da transformação, diz ela, cada qual com seus prazeres, suas limitações, suas paixões, suas angústias, suas possibilidades, suas esperanças. O livro é dividido em três capítulos: 1) águas mansas, 2) maré alta e 3) a embocadura do rio. Por analogia, são a infância, a juventude e o envelhecer, respectivamente. Uma leitura leve e, ao mesmo tempo, de enorme profundidade reflexiva-existencial.
Como eu sou bonzinho com as poucas pessoas que me leem - e já que ando meio ausente desse meu cantinho no blog - vou deixar aqui alguns recortes de cada um dos capítulos da obra, começando agora e me estendo pelas próximas duas postagens.
Mas a indicação de leitura do livro na íntegra continua super valendo.
Bom proveito!
* * *
I - Águas mansas

"Cúmplices de nós mesmos nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante, desejo de se ocultar atrás de fantasias e o ímpeto de arrancar as máscaras e finalmente ser."

"No tempo sem tempo da infância , o trabalho dos relógios demarcando a vida é coisa dos adultos, é hora imposta de fora. [...] Tudo é possível nessa fase: o tempo em curso pode ser apenas uma invenção malévola dos bem-intencionados adultos para nos controlar."

"Se tivéssemos consciência de que estamos em transformação, de que tudo é passageiro e pode acabar em alguns minutos - ou anos, ou décadas que seja -, não suportaríamos a pressão, não haveria espaço emocional para viver com certa normalidade.
(Ou, na ambiguidade que nos caracteriza, daríamos mais valor ao que temos?)"

"Antes de lhe darmos nome tudo se chama: enigma."

"O mundo, com gente, casas, carros, florestas e rios, e todos os mares, será apenas a invenção de cada um para dar algum sentido a toda essa complexidade?"

"Não parece haver respostas.
Mas nós insistimos em inventar algumas - e isso afinal nos salva."

"O tempo, criador de ilusões: os que morreram são para nós sempre como eram - jovens, velhos, belos, feios, com suas manias e jeitos de ser que nos encantavam ou irritavam tanto. Não crescem os mortos, não envelhecem, nem se transfiguram."

"A gente pode não ser tão importante, nem nossas dores, e desejos, e alegrias, nem nossa morte: aprendi."

"Dores de crescimento furam os ossos da alma."

"Eu só queria um tempo sem medidas para ficar suspensa no varal dos devaneios: que figura estava se formando naquela nuvem, que unicórnio, que princesa habitavam os morros azuis, que dedo mágico do vento fazia um traçado nas copas das árvores numa linha caprichosa, só um arco de singular de folhagem se movendo?"

"Por algum tempo não somos nós mesmos, não somos nada, apenas transitamos, fluímos, os adultos nos olham com certa impaciência, bom humor (se tivermos sorte) ou compaixão: que idade essa, de não ser criança nem jovem, de simplesmente não ser?"

"O rio dos encontros e das despedidas. Dizer adeus a si mesmo em cada fase."

terça-feira, 26 de maio de 2015

O preço que se paga não é alto demais quando o valor é inestimável *

Minha mãe herdou um costume de minhas avós (na real, herdou vários - mas esse é especificamente o que vou utilizar para ilustrar o que estou querendo dizer): guardar coisas arcaicas. Mudança sendo organizada, embrulha daqui, encaixota dali, ensacola acolá e de repente "ah, eu não queria me desfazer disso!". Não preciso nem estar vendo o que é, mas só de ouvir algo do gênero sei que o "disso" a que ela se refere é, bem provavelmente, algo que estava guardado há tempos e que, mais provavelmente ainda, nem voltará a ser utilizado. Uma panela furada, um eletro-eletrônico que nem liga mais, uma máquina de escrever com os botões encravados, uma roupa de mil novecentos e setembro...
Pois cada uma dessas coisas tem um valor maior que o preço que possuem. Estão registradas na alma, no coração da minha mãe que a panela foi presente de um tio meu, ainda antes de ela ter deixado a casa dos pais; o rádio a pilhas foi a primeira coisa que ela comprou com o dinheiro do seu primeiro salário; a máquina de escrever lhe traz à memória os momentos íntimos em que nela escrevia cartas apaixonadas para meu pai; a blusa fora comprada em sua primeira viagem ao exterior... 
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Um colecionador que paga um preço altíssimo por um vinil do Beatles, alguém que paga um preço alto para ver um show do U2, outro que dá uma nota preta por um carro do ano, um vinho que é comprado por preço de três dígitos antes da vírgula e tantos outros exemplos possíveis. Isso aponta que, provavelmente, para a pessoa que paga, o valor é maior que o preço estipulado pelo mercado. Também pode ser indicativo que, para quem julga ser alto o preço, tal coisa não tenha tanto valor. 
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O valor às vezes transcende os cifrões, vai além dessa referência.
Algumas coisas valem muito mais que seu preço. Pode-se dizer, até, que são coisas que não tem preço.
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O preço que se paga não é alto demais quando o valor é inestimável. 

* reflexão sobre o preço e o valor que brotou do título desta canção

terça-feira, 28 de abril de 2015

Covardes sem ombridade!

Governantes que se escondem atrás de leis criadas para benefício próprio são covardes.
Políticos fajutos que não conseguem estabelecer diálogo com a sociedade são covardes.
Líderes que querem cercear os direitos das classes que mantém de pé a zona desse país são covardes.
Policiais que agridem professores ou quaisquer outros trabalhadores em manifestações são covardes.
Servidores que calam e consentem com o caos das condições de trabalho e salários defasados do funcionalismo público são covardes.
Os Estados são covardes.
Os que eram para ser nossos representantes são covardes.
Os que deveriam nos proteger são covardes.
Que país é esse?
Cadê os homens que honram o bigode e as calças que vestem, como faziam nossos antepassados?
Covardes sem ombridade!


terça-feira, 24 de março de 2015

De braços abertos para a morte

Vez ou outra me deparo com a morte. Ou melhor, algumas vezes me vem à cabeça este tema, este assunto, este conceito. Mas o que sabemos, eu e você, sobre ela? Sabemos tão pouco da imensidão da vida; quem dera soubéssemos sobre a morte... Podemos especular, mas nossas limitações apenas nos permitem levantar hipóteses, conjecturas, possibilidades. Afinal, como disse Epicuro, filósofo grego que viveu antes de Cristo, "Enquanto eu sou, a morte não é; e, quando ela for, eu já não serei. Por que deveria temer o que não pode ser enquanto sou?".
Na minha opinião, a vida é cheia de pequenas e de grandes mortes. Alguns de nossos sonhos já estão mortos e enterrados há tempos. Algumas fases de nossa vida também padeceram e deixaram de existir. Alguns comportamentos também falecem. Uma árvore que tinha no jardim de casa e que não mais está lá. Um animalzinho de estimação que morreu. Um ente querido, familiar ou amigo, que partiu dessa vida. E um tanto de outros exemplos. Viram só!? Direta ou indiretamente, a tal de morte nos visita, passa bem pertinho da gente, às vezes até esbarra no nosso ombro. "Tu não escapa, reles mortal, a tua hora também vai chegar. Me aguarde." E não tem choro. Aqui na terra nossa validade é limitada. Podemos até não saber quanto tempo ainda temos pela frente. Mas vai chegar a hora do apagão. Deixaremos de ser; a morte será. 
Diante disso, do inesperado, do fluir, do movimento, cabe a cada um viver. Algumas criaturas vão vivendo conforme a música do Zeca Pagodinho"deixa a vida me levar, vida leva eu". Já outras, preferem o coro do Geraldo Vandré e fazem a hora, não esperam acontecer. Quem sou eu e quem é você para julgarmos como o outro deve viver?! Quero mais é que cada pessoa siga seu caminho existencial conforme suas singularidades, de acordo com a estruturação única que cada ser possui.
Medo da morte? Às vezes tenho receio de perder algumas pessoas que são importantes para mim, seja para qual tipo de morte for. Mas medo da minha morte, não tenho nem um pouco. Eu vivo intensamente. Tenho uma história de amor com cada dia da minha existência. Tento deixar claro para quem me rodeia que se meu último dia de vida for hoje, terei aproveitado minha estada aqui. Não sei se isso servirá de consolo para quem ficar quando eu partir, mas é assim que gostaria que pensassem quando eu morrer. 
Lembro sempre de Quintana, que expôs com uma lucidez incrível um de seus pensamentos sobre a morte: "Um dia, pronto! Me acabo. Pois seja o que tem de ser. Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver." Sendo a vida um requisito para a morte, estou aproveitando bem cada disciplina do curso. Só que, ao invés de diploma, o que vou receber é um caixão, uma urna fúnebre... Pois então, seja qual for a hora - claro que quero alongar meu tempo aqui - te espero de braços abertos, morte. Pena que não poderemos nos abraçar, pois só há espaço e tempo para um de nós. Enquanto não me consomes por completo, continuarei espalhando os abraços para os meus chegados e ficarei tentando convencê-los de que não há motivos para temê-la...

Seguimos.      

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Do que não quero para o que me resta de vida

Da vida não se leva nem aperto de mão. 
A mortalidade nos torna iguaizinhos. A grana ou o status que isso traz não faz diferença alguma para a morte. Estamos todos viajando na mesma direção e, quer pensemos nisso ou não, queiramos ou não, a morte é nosso destino certo.  
E o que fica são as sementes que plantamos. Isso sim faz uma grande diferença nas relações que estabelecemos e para a posteridade. Ser lembrados pela mesquinhez ou por ter compartilhado vivências interessantes é decorrência das escolhas que fazemos e da maneira como escolhemos viver.
E se tem coisa que eu quero para o que me resta de vida, é não ter no meu círculo de amizades e de convivência gentes que não suportam a felicidade dos outros e que tentam puxar o tapete de outras pessoas, que semeiam discórdia, ódio e incompreensão ao invés de esforçarem-se para ser pessoas melhores para si mesmas e para quem as rodeia. Que eu afaste ou nem me aproxime de gente assim, amém!
Isso é para tornar a vida mais leve, com mais amor e humor e menos recalque.

Seguimos...

"Vencer na vida não é fácil. Num mundo decadente, um milhão de recalcados pra puxar o seu tapete.
Mas do jeito que eu vim, é do jeito que eu vou. É como vivo, como ando, como penso, como sou!
[...]
Eu não sou otário, eu aprendi a lição.
A sintonia faz o sangue, o sangue faz o irmão.
[...]
Se você quer minha amizade, vai ter que provar pra mim quem é você de verdade, se vamos juntos até o fim. 
Porque eu não quero do meu lado alguém que não confia em mim"


domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu e os pássaros

Tempo bom aquele em que as crianças ainda tinham tempo de ser crianças, de brincar, de se divertir sem terem que se preocupar com uma agenda programada pelos pais com mil e uma atividades. Bolinhas de gude, ou jogo de bolitas, brincar na areia, de esconde-esconde, de polícia e ladrão, fazer racha de bicicletas, escorregar na grama ou em barrancos sentado em um papelão, tomar banhos de piscina, de chuva, de cascata, de mangueira, de açude... enfim, muitas coisas que transcendem o mundo tecnológico-digital de hoje. Baaah! Até meio nostálgico. Maravilhas que tive oportunidade de vivenciar e que têm espaço reservado em minha memória e em meu coração.
Caçar de estilingue, ou bodoque, como chamávamos, era outra atividade que acabava em farra. Eu tive alguns colegas bons de mira. Era um passarinho descuidar, sentar num fio de luz ou numa árvore próxima e "toma!". Lá se ia o bichinho para o chão com uma pedrada. Tinha que ter boas noções de física, para saber a distância que a pedra lançada alcançaria, e de direção, para não atingir pessoas ou quebrar alguma coisa nas casas do arredores por onde passávamos. Duas coisas que eu não dominava muito bem. O que me restava, então, era catar as pedras mais redondas para que meus amigos atirassem com mais propriedade. Nisso eu era perito.
Pois um dia resolvi sair sozinho à caça. Fiquei com dor nos braços de tanto atirar. No caminho de volta para casa, acertei uma andorinha que fazia voos circulares com seu bando. Ela caiu no meio da rua, uma estrada de terra batida por onde eu passava. Que euforia. Eu acabava de matar o primeiro pássaro da minha vida. Mas logo a euforia se tornou algo um tanto incômodo. Eu não sabia se ficava ali, se corria, se pegava o bichinho ainda quente e com sangue escorrido no bico ou se o deixava lá caído, morto, sozinho. Desajeitado, peguei a andorinha e corri até onde minha mãe trabalhava. Cheguei chorando, dizendo para ela que havia matado um passarinho. E com um grau enorme de dificuldade, já que a andorinha não estava pousada em nada, mas em pleno voo. 
Até hoje não sei se minhas lágrimas eram por ter conseguido matar aquele bichinho ou se por ter tirado a vida daquele indefeso e inocente animal. Foi o primeiro e o último pássaro que matei.
...
Na janela da sala onde trabalho tem um pardal que, vez em quando, vem me visitar. É lindo olhar aquela criaturinha com o colorido das árvores e do céu como pano de fundo.
Costumo dizer que ele vem trazer alegria, que as batidas que ele dá com o bico no vidro são para alertar que lá fora existe um mundo que não pode ser esquecido, um mundo mágico. Basta estarmos atentos para perceber.
Uma colega minha já ficou íntima dele. É passar alguns dias sem o pardalzinho aparecer e ela já lembra "Estranho, tem dias que o nosso amigo não vem nos visitar"
...
Uma noite um casal de passarinhos invadiu a mesma sala onde trabalho. Fiquei feliz com a companhia, pois estava sozinho naquele turno. Larguei de lado o que eu estava fazendo e fiquei prestando atenção aos voos que fizerem. Sentaram no ventilador, olharam atentos para ver se achavam a saída, voaram para a copiadora, se separaram, um indo para cima de um arquivo de aço, o outro pousando no chão. Nossa! Como desconectei de toda a burocracia naqueles momentos. 
Quando uma moça entrou na sala para requerer um serviço eu estava agachado, falando com os pássaros, apontando para saírem pela porta, dizendo que voar contra os vidros só iria macucá-los. Atendi a moça, que ficou encantada com a calma que o casalzinho de asas apresentava dentro da sala. Estavam à vontade.
Saí, então, para pegar um pouco de água e quando retornei eles já não estava mais na sala. Saíram de mansinho. Acho que não gostavam muito de despedidas.
...
Escrevi essas linhas ao som de jazz. A inspiração me veio quando baixei um pouco o volume da música para que o canto dos pássaros ficasse no mesmo tom do piano e do saxofone. Que sinfonia! 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço?

            Em muitos casos, e para muitas pessoas, uma coisa é o que é pensado, o que habita o mundo das ideias e outra coisa é o mundo da concretude, das atitudes, da prática. E isso não necessariamente tem a ver com dissimulação, com falsidade, com falta de caráter ou de princípios.
             Diferente disso, outras pessoas tentam seguir à risca aquilo que pensam. Pessoas que estão assim estruturadas agem de forma que haja uma proximidade enorme entre o que teorizam e o que praticam, entre o que dizem e o que fazem. 
            Esses elementos apontam para características singulares de cada pessoa e não se trata de fazermos juízo de valor quanto a isso, tampouco estabelecermos uma forma de agir como sendo melhor que as outras. Podemos até não compactuar, não concordar com isso, mas é nosso dever respeitarmos a forma de ser de tais criaturas.
            Em muitas circunstâncias, no entanto, é importante que o discurso encontre acolhida na prática. Pense em um pai que fuma e consome álcool quase que diariamente orientando seu filho para que fique longe das drogas; em uma mãe que não lê, mas quer que sua filha adote o hábito da leitura. Não é impossível que o filho fique, de fato, longe das drogas e que a filha se torne uma leitora assídua, apesar do exemplo contrário dos seus pais. Talvez até o façam justamente por querer evitar se tornarem como seus criadores/educadores. Mesmo não havendo um elemento universal e de conexão necessária de causa e efeito para que um comportamento “x” decorra de um estímulo “y”, é bem provável que tanto o filho quanto a filha dos exemplos acima reproduzam as atitudes dos pais.
Para muitas pessoas, não se aplica o velho jargão de “faça o que eu digo, não faça o que faço”. Elas buscam consistência no sentido de estreitar o laço entre o pensar e o agir. O abismo entre o dizer e o fazer soam, para elas, como hipocrisia e deve ser evitado ao máximo, tanto que o que elas dizem é o que elas fazem e vice-versa. De nada adianta, por exemplo, professar uma fé que mova montanhas se, na prática, o indivíduo não move um alfinete para ajudar o próximo; não adianta um discurso bem elaborado em forma e conteúdo se a prática for na direção contrária daquilo que foi expresso.
Para amarrar meus raciocínios, cito o filósofo Ralph W. Emerson: “suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz” e as palavras de um dos expoentes da literatura portuguesa, Manuel Bernardes: “Não há modo de mandar mais forte e suave que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, convence sem debate, todas as dúvidas desata e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa e mandar ou aconselhar outra é querer endireitar a sombra de vara torcida.
Que texto lhe sirva de reflexão e que, mais do que isso, contribua para o aprimoramento dos seus afazeres, independente de quais sejam.

Seguimos...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Por um 2015 mais do caralho do que foi 2014

Já tomei banho de chuva no último dia do ano. 
E já tomei banho de champanhe na madrugada da virada.
Já vesti cuecas e camisetas de várias cores. 
Inclusive já passei sem essas peças de roupa.
Já usei tênis novinho, tênis batido, havaianas e até experimentei os pés descalços.
Já fiz simpatia de pegar em grana, comer variedades de frutas, mostrar a bunda para a lua, etc e tal.
Já enchi a cara de bebidas e chorei. 
Quando não bebi nada, chorei assim mesmo.
Já fiz mil e um planos e resoluções. 
E também não planejei sequer o que comeria no dia seguinte.
Já mandei sms em massa para amigos e conhecidos. 
E liguei para os do coração, claro.
Enfim, quem nunca, né!? Isso é meio que de praxe para muita gente em se tratando de virada de ano.
Para o réveillon que se aproxima, não planejei nada. 
Vai ser tudo ao natural, de forma espontânea, sem muita frescura.
E, diferente das outras vezes, não vou desejar um feliz 2015 com adjetivos mil. 
Apenas vou desejar que seja um bom ano, cheio de saúde e que se possa ser o que se é. 
Direto e reto.
E vou emanar energias positivas para que você possa gozar das coisas boas da vida e enfrentar de cabeça erguida e de peito aberto o que está por vir. 
É isso que está implícito no meu "feliz 2015!"
Para mim, está de bom tamanho se os dias do meu ano tiverem café, alguns minutos de música e outros de leitura e algumas construções compartilhadas com pessoas que tenho o privilégio de encontrar pelo caminho.
O resto eu dou um jeito.
Assim vou me despedindo de 2014 e firmando para entrar em 2015.
Seguimos...  

sábado, 27 de dezembro de 2014

O que habita minha alma

Na madrugada passada, lendo um texto do Rubem Alves chamado A alma é música, destaquei o seguinte: "a alma, no seu lugar mais fundo, está cheia de música." No mesmo momento me veio à cabeça uma música que ouvia com meu pai. Essa lembrança foi instantânea. A fita k7 branca, o rádio toca fitas preto com o botão de apertar para dar play e o de girar para dar volume, a estante onde o rádio ficava, a sala na antiga casa de madeira, entre tantos outros detalhes que saltaram à memória. Momento nostálgico.
***
Isso me remeteu também à teoria platônica da reminiscência, que afirma que aquilo que aprendemos já está em nós, ou seja, estamos apenas rememorando algo que nossa alma já havia apreendido. A alma, por ter habitado o mundo inteligível, onde se contemplam as verdades absolutas, mesmo agora fazendo morada no mundo sensível, onde tudo é cópia imperfeita daquele outro, tem a capacidade de resgatar aquilo que antes foi contemplado, que, portanto, já está em nós.
***
 A canção que lembrei é Shiny Happy People, do R.E.M. Ela fala de amor, de cuidado, de pessoas felizes dando as mãos e rindo.
Tenho a impressão que minh´alma deslumbrou muitas maravilhas no mundo inteligível. E é um prazer inominável quando eu resgato essas lembranças que já estão em mim, como nesse caso.
***
Seguimos...


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Celebrando o presente, preparando o futuro

   O filósofo Mário Sérgio Cortella é reconhecido internacionalmente em virtude de sua consistente trajetória acadêmica, suas publicações, palestras e participações em programas de rádio e televisão. Os noventa minutos de apresentação dessa personalidade, proporcionados pelo Sicredi Região da Produção na confraternização do último sábado, dia 06, deram uma mostra do potencial desse mestre na arte de ensinar. 
     Logo no início de sua fala, Cortella deu uma bela definição de cooperação. Como não sabemos tudo, juntamos o pouco que sabemos com o pouco que outras pessoas sabem e o resultado disso é o crescimento de todos que estão nesse processo. Se cada um ficasse somente com o já sabido, ficaríamos estagnados. Como já disse o poeta inglês John Donne “nenhum homem é uma ilha”. Portanto, esse movimento de compartilhar o que se sabe é essencial e se encaixa perfeitamente como definição de cooperação.
     Passeando por diversos contextos e situações, o filósofo refletiu com a plateia sobre a importância de comemorar o presente e planejar o futuro, título do trabalho daquela manhã. Para tanto, elencou quatro conceitos indispensáveis para o sucesso nessa empreitada, que cito a seguir.
    A humildade, da origem etimológica “humus”, terra fértil, onde tocam os pés, nada tem a ver com subserviência. É a postura de nos reconhecermos como pequenos para, então, vislumbrarmos a possibilidade de engrandecimento; é sabermos que não sabemos tudo e buscarmos saber cada vez mais.
    A coragem, que não é sinônimo da ausência de medo, também é importante. Termos coragem significa enfrentarmos o sentimento do medo, planejarmos seguir adiante na caminhada mesmo com as dificuldades e situações que nos colocam diante do inesperado. Nesse sentido, muitas de nossas conquistas são frutos de nossa coragem, não meramente destino. Basta olharmos para nossa história para identificarmos contextos em que, como diz o dito romano, “a sorte segue a coragem”. Se não tivéssemos tido coragem, talvez não estivéssemos na situação em que nos encontramos atualmente.
    A ambição é outro conceito que devemos ter em mente. Ambição é querer mais e melhor, bem diferente da ganância, que é querer tudo para si. Ao sermos ambiciosos estamos considerando não apenas nosso ego. Ambicionando, disponibilizamos nossas conquistas para toda a sociedade e não agimos meramente guiados pelos nossos desejos individuais.
    A paciência é outro elemento que devemos exercitar. Paciência é nossa capacidade de admitirmos a maturação de alguns processos em nossa vida, ou seja, darmos tempo para que as coisas fluam, para que possam vir a ser aquilo que planejamos ou o mais próximo disso. É importante que não se confunda paciência com lerdeza.
  Amarrando esses quarto conceitos, Cortella elucidou a importância de comemorarmos, sim, o presente. Não menos importante é refletirmos e observarmos que este só é possível devido ao trabalho de muitas pessoas em épocas que ficaram para trás. E, completando essa tríade, planejarmos o futuro com bases sólidas é indispensável para que tenhamos, no futuro, condições de vermos desabrochar as flores das sementes que agora plantamos.
    Tantos outros exemplos de enorme relevância e profundidade foram trazidos por Cortella, tanto na área da educação, quanto na área da economia. Mas acredito que as maiores lições que ele nos deixou são de demanda existencial. São lições que nos puseram em contato com o nosso íntimo, nos fazendo pensar sobre como estamos agindo no cotidiano, como estamos nos comportando em relação a nós mesmos, aos que nos cercam, ao universo como um todo. À partir disso, podemos prever, por aproximação, que herança estamos deixando para as futuras gerações.
    Desfrutemos com alegria do presente que agora temos acesso e edifiquemos um futuro cheio de grandes realizações e conquistas. E que façamos isso de forma coletiva, cooperativa, crescendo juntos. Afinal, parafraseando o encerrou da fala do Cortella, incompletos que somos, precisamos da asa de outras pessoas para podermos alçar voo.
Alegria pela oportunidade ímpar.

sábado, 8 de novembro de 2014

Que o urgente não ofusque o que é essencial

Posso garantir que, mesmo Cidadão Quem sendo uma banda gaúcha, muitas pessoas de todo o Brasil já ouviram a parte da canção Dia Especial que diz assim: "Se alguém já lhe deu a mão e não pediu mais nada em troca, pense bem, pois é um dia especial." Uma bela música, diga-se de passagem.
***
Hoje me comuniquei por facebook com uma pessoa que está hospitalizada há dias. Não foi uma conveeeersa cheia de detalhes. Apenas alguns breves minutinhos. Perguntei como ela estava, já que eu havia ficado sabendo que ela não tinha passado por dias muito bons. Ela disse que estava na sacada do hospital tomando chimarrão e olhando o pôr do sol e que estava se recuperando bem.
Me sensibilizei com a situação e tentei animá-la dizendo que logo ela estaria de volta para casa e que tinha muita coisa ainda para fazer com os amigos, para desfrutar a vida. Ela disse que a família dela estava lá dando uma força e que é bom receber o apoio das pessoas de seu círculo de amizade e convivência. 
*** 
Fiquei pensando aqui com meu botões... É tão simples e tão fácil tornar a vida boa de se viver. Um exemplo disso são esses pequenos detalhes que podem fazer uma grande diferença. Acontece que às vezes a correria diária acaba cegando, transferindo o foco para algo que talvez não seja o essencial em nossas vidas.
É tão clichê e tão verdadeiro o fato de que muitas vezes nos voltamos para o urgente e negligenciamos o que é importante.
São aqueles gestos que não custam nada além da vontade para serem praticados que geralmente apontam para elementos que costumamos não levar em conta no decorrer dos dias. Esses mesmos pequenos gestos fazem o coração pulsar mais forte e a alma ficar mais leve, e trazem uma sensação reconfortante de pureza, de paz tanto para quem pratica o ato quanto para quem o recebe.
***
Que não nos deixemos embrutecer e que possamos perceber que cada dia tem alguma coisa de especial.



quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Das histórias de Nikholas e Natasha

- Sabe, Natasha, sinto saudade de quando a gente ainda estava se conhecendo.
- Nossa! Nem faz tanto tempo assim.
- Não faz mesmo. Mas não é pelo tempo. É pela forma como a gente se relacionava. Me parece que estávamos mais próximos, mais interessados, mais cúmplices.
- Viagem tua, Nikholas. Talvez seja porque a gente anda envolvido com muitas coisas, trabalhos, estudos, tarefas, dilemas existenciais e tal.
- E antes não estávamos envolvidos com mil coisas? Não tínhamos mil coisas para pensar e/ou para fazer?
- Lá vem você de novo com esse lance de querer estreitar laços e bla-blá-blá. Isso enche o saco, cara!
- Ah, Nath, para você é assim, meu. Eu me esforço para entender. Mas chega um ponto que fica foda para mim. Acho que agora você já me descobriu, já sabe muitas coisas sobre mim. Talvez tenha percebido que havia criado expectativas a meu respeito que eu próprio desfiz uma a uma. Tipo, enquanto o chiclé era novo tinha um gosto bom, mas agora que deu umas mascadas quer mais é descartar e partir para outro.
- Nikh, olha aqui: eu gosto de ti. Tu que faz essas tuas pirações de maionese. Eu posso não ficar me declarando, mas ao menos eu te respeito.
- Foi mal, Nath. Nunca fui bom nessa parada de relacionamento. Não quero te magoar. Me deixa ser como eu sou. Ou me deixa...

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O que segura o homem é o sexo da mulher?

"Não adianta. O que segura o homem é o sexo da mulher."
Essa frase foi dita por um rapaz que conversava com outro, numa mesa ao lado da minha, numa padaria, enquanto eu tomava um café dia desses. Pois bem, para essa pessoa, para esse rapaz o que o mantém com uma mulher é o sexo. Ou seja, para ele se rolar a química na cama (ou sabe-se lá quais suas fantasias e posições sexuais preferidas) dane-se o resto e o relacionamento estará firme e forte.
Essa não é uma verdade universal. É certo que alguns homens só permencem ao lado de algumas mulheres devido ao sexo. Não menos verdade é que para algumas mulheres o que une ou mantém a relação com um homem é também o mesmo elemento: o sexo.  Mas sabemos que são infindáveis os motivos pelos quais um homem e uma mulher firmam e dão continuidade a um relacionamento. O sexo é apenas um deles. E para cada pessoa isso se dá de forma singular.
Algumas pessoas compartilham dos mesmos ideiais, dos mesmos projetos, das mesmas buscas e por isso se aproximam e permanecem lado a lado. Outras possuem valores semelhantes e então isso acaba sendo um elo de ligação entre ambas. Há quem se relacione com outra pessoa apenas como forma de obter alguma coisa, servindo o relacionamento, nesses casos, como mediação para obtenção de algum outro fim. Há quem encontre o significado na vida somente numa relação com outra pessoa. Existem também as que querem assumir futuramente o papel existencial de pai ou de mãe e sentem a necessidade de uma outra pessoa para efetivar isso. Enfim, temos inúmeros exemplos de motivos que levam pessoas a aproximarem-se e manterem um relacionamento. E para o vizinho da mesa, ao que tudo indica, o que mais tem peso subjetivo em sua malha intelectiva, o que de fato influencia nas suas tomadas de decisões quando se trata de manter um relacionamento com uma mulher é o sexo. É assim para a representação de mundo dele. E para você? Já pensou o que o ou a aproxima e o ou a mantém numa relação com outra pessoa?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Espero que compreenda

Numa noite qualquer... 
"Seu saldo está abaixo de $ 10,00. Estamos completando a sua ligação."

Oi! Como estão as coisas?
Então, pensei em te ligar só pra ouvir tua voz. Eu sei, nos vimos ontem, ficamos juntos e tal. Ainda não estou com problemas graves de memória. Acontece que pra mim nunca é demais estar contigo, sabe? Gosto de te ter em meus braços e também gosto de estar no teu colo. Se isso encher o saco é fácil tu me falar "olha, tu não tá nem me deixando respirar". É certo que eu vou fazer uma carinha de cão que perdeu-se na mudança. Mas logo vou estar sorrindo novamente. E vou me esforçar pra te respeitar, claro. Mas confesso que não o efeito disso não é muito duradouro e logo já vou estar pensando em ti, em nós dois juntos, algo que fizemos ou algumas coisas que ainda queremos fazer. Juntos.

Eu ainda acredito no amor. Acredito no sentimento, na sintonia fina de corações, na aliança de almas, nisso que muitos dizem ser viagem de maionese. Mas só parece ser assim para eles porque a maioria sequer vivenciou algo parecido com amor alguma vez na vida. Talvez tenham tido um sexo bem pegado, mas desconhecem a sensibilidade desses sentimentos sublimes despertados pelo love. Ou talvez tenham quebrado a cara com algum relacionamento e universalizaram a vivência ao ponto de pensarem não existir possibilidade de relacionamentos saudáveis, maduros. Vai saber dos motivos de cada um, né?

Não liga pro fato de eu ser repetitivo, tá? Eu te amo. Não falo muito isso porque não quero transformar esse amor em "bom dia". Às vezes sinto essa necessidade de comunicar verbalmente o que demonstro através das leais atitudes. Fique à vontade pra me mandar à merda, se quiser. Nem todo mundo sabe lidar com pessoas com eu. Não nasci pronto e posso aprender a conviver melhor comigo mesmo para, então, melhorar essa nossa relação. 
Não quero te acorrentar. Quero ser tuas asas para que possas alçar voos à altura da tua bondade e dos teus anseios. Quero passar muito tempo ao lado desse teu coração bom, desse jeitinho que é só teu.
Agora preciso desligar porque meus créditos já estão indo pro espaço.
Já tô com saudade.
Fica bem.
Beijos meus.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Mais 15 doses de Bukowski*


Bukowski publicou seu primeiro conto quando tinha 24 anos, em 1944. Aí deu uma pausa em suas produções por dez anos. Nesse intervalo de tempo viajou pela América, envolveu-se com várias mulheres e com a bebida. Esse ritmo culminou em uma hemorragia estomacal provocada pelo excesso de álcool. Essas experiências de autoconhecimento são a base da produção do escritor, que dedicou-se exclusivamente à tarefa da escrita a partir de seus 49 anos, após largar seu emprego nos correios.
Alguns críticos apontam para os gritantes aspectos do cotidiano abordados na poesia de Bukowski
Já havia postado aqui 15 doses de Bukowski e agora posto mais algumas das verdades desse homem, que, imagino, são também as verdades de tantas outras pessoas.




Garotas quietas e limpinhas de vestidos xadrez de algodão
"jamais apareça com uma puta, falo para meus
poucos amigos, eu ia me apaixonar por ela."

Borboletas
"acredito em fazer por merecer nosso caminho
mas também acredito em um presente
inesperado."

A gente precisa conversar
"É preciso ser homem para mostrar
seus sentimentos.
[...] vou arranjar para mim alguém que seja
real, alguém que converse comigo,
alguém que diga, 'olha, Paula, eu percebi
que estamos tendo alguns problemas e talvez
se nós falássemos sobre eles, poderíamos entender um ao outro melhor
e fazer as coisas funcionarem.'
[...] e o que você sabe sobre o amor?
é uma palavra suja para você! amor. você nem mesmo sabe o que é ´gostar'!
você não gosta do seu país, você não gosta de cinema, você
não gosta de dançar, você não gosta de dirigir na estrada, 
você não gosta de crianças, você não olha para as pessoas."

Corcunda
"eu fui amado por muitas mulheres,
e para uma vida corcunda,
isso é uma sorte.
[...]fui tratado melhor que deveria
ser -
não pela vida em geral
nem pelo mecanismo das coisas
mas pelas mulheres."

Eles, todos eles, sabem
"uma esposa rosnando no portão é mais
do que qualquer homem pode suportar."

Os substitutos
"agora nossos escritores 
discursam em universidades
de terno e gravata,
os aluninhos atentos e sóbrios,
as aluninhas de olhos vidrados
olhando
admiradas,
a grama tão verde, os livros tão chatos,
a vida tão morrendo de 
sede."

Assim que os poemas vão
"os melhores escritores disseram bem
pouco
e os piores,
demais."

Como ser um grande escritor
"você tem mais é que comer muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever uns poemas de amor decentes.
[...] não faça muito exercício.
durma até o meio-dia.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer coisa no 
dia.
[...] e se você tiver a capacidade de amar
primeiro ame a si mesmo
mas sempre tenha em mente a possibilidade de
derrota total
ainda que a razão dessa derrota
pareça certa ou errada - 
um gostinho de morte cedo não é necessariamente
uma coisa ruim.

Agora, se você estivesse lecionando escrita
criativa, ele perguntou, o que diria a eles?
"eu diria a eles para terem um caso de amor
infeliz, hemorroidas, dentes cariados
e para beberem vinho barato.
[...] jamais se considerem superiores e/
ou imparciais
e jamais tentem ser.
tenham outro caso de amo infeliz.
[...] jamais tentem fazer sucesso.
[...] aí depois de tudo isso
invertam o procedimento.
tenham um bom caso de amor.
e o que
vocês podem aprender 
é que ninguém sabe nada -
[...] e se vocês algum dia me pegarem 
lecionando escrita criativa
e lerem isso de volta para mim
eu darei um 10 direto
para você enfiarem naquele lugar."

Splash
"isto não é a porra 
de um poema.
isto é um cavalo adormecido.
uma borboleta em
seu cérebro.
isto é um circo
do diabo.
você não está lendo isto
numa página.
a página é que está lendo
você.
[...] estas palavras te arrastam 
para uma nova
loucura.
você foi abençoado,
você foi atirado 
num
lugar que cega
de tanta luz."

Os mais fortes dos estranhos
"você não vai vê-los direito
pois onde a multidão estiver
eles não estarão.
estes esquisitos, não
são muitos
mas deles 
vêm
os poucos
bons quadros
as poucas
boas sinfonias
os poucos
bons livros
e outras
obras.
e dos
melhores destes
estranhos
talvez 
nada"

Ressacas
"já tive provavelmente mais delas
do que qualquer outro ser vivo
e elas não me mataram
ainda
embora algumas manhãs parecessem
bem próximas
da morte.
[...] é preciso uma resistência inacreditável para
ser alguém que beba por várias
décadas.
[...] escrevo isto agora
sob os efeitos de uma das minhas
piores ressacas."

Assalto
"já fui um cara contente por estar só.
agora fui violado,
tudo tem seus limites.

A crise
"há uma solidão tão grande nesse mundo
que você pode vê-la no lento movimento dos
ponteiros do relógio.
pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto por amar como por não amar.
[...] nosso sistema educacional diz
que todos podemos ser 
grandes vencedores.
ele não fala nada 
sobre os miseráveis
ou os suicidas.
ou do pavor de uma pessoa
sentindo dor num lugar
sozinha
intocada
incomunicável.
[...] as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem 
nossas mortes não seriam tão tristes.
[...] com certeza deve haver um jeito que ainda não
pensamos."

Ao acender um charuto
"[...] e quando o amor veio a nós pela segunda vez
e mentiu para nós pela segunda vez
decidimos nunca mais amar novamente
isso era justo
justo com a gente
e justo com o amor mesmo."

* trechos extraídos do livro Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém, 2ª edição, 7 letras, 2012