Originalidade?

Minha história se fez e se refaz com resquícios de tudo que encontra minhas circunstâncias. O que se apresenta para minha representação pode (ou não), em maior ou menor relevância e intensidade, ser incorporado à forma com que entendo o mundo.
As tintas com as quais pinto as telas da minha existência são variadas. Algumas cores já foram utilizadas por muitos outros artistas e integram minhas obras por serem ainda vivas, intensas; outras matizes, por sua vez, são inéditas, mesclas de algumas cores que ninguém antes havia ousado em compor.
Se alguém sentir-se lesado por algum escrito, favor me comunicar por e-mail que tentaremos resolver isso.
Divirta-se ou se entristeça.
Boa viagem!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Foi um prazer, Lya

Eu já havia tido um breve contato com Lya através de uma leitura rápida de Perdas & Ganhos. Mas foi nessas férias, merecidas e memoráveis, que aprofundei meu contato com os livros dessa magnífica escritora.
Li O tigre na sombra, repleto de conflitos existenciais e familiares e que traz reviravoltas das possibilidades da vida (e por que não da morte?), do qual retirei os recortes abaixo, e comprei O ponto cego e O quarto fechado, que entraram na fila de leitura que não para de crescer. Lya Luft agora está na lista das minhas paixões. Foi um prazer ter tido você comigo nas minhas férias, Lya. Obrigado. E bem vinda ao meu quarto e ao meu mundo. 


"Quando estavam de bom humor os deuses abriram as mãos e despejaram sobre a terra os oceanos com seus segredos, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas - e, para atrapalhar tudo, as pessoas.
Mas onde está todo mundo? Buscando se anestesiar ou obter respostas, atrelados às mesmas incansáveis perguntas, como, quando, quanto, por quê, por que eu?"

"Amar é para os loucos:
me perdoem os românticos
e os sensatos,
se ainda existir algum por aí."

"As pessoas ficam muito boas quando alguém morre. Nessas horas aparecem parentes, primas, cunhadas, que na vida normal nem conhecemos direito: a morte une e reúne os mais desconexos e singulares, até que o cotidiano volte a engolir todos."

"Não sei se tudo são escolhas ou se algumas coisas vegetam feito plantas carnívoras nas nossas circunstâncias e na nossa bagagem psíquica. Nunca vou saber. Não adianta saber."

"As pessoas morrem demais.
A morte: o que ela faz com a gente. Arranca as entranhas, te deixa vazia, por dentro só uma ferida aberta, mucosa inflamada e suja. Você só por obrigação se arrasta num mundo irreal, queria mesmo era ficar na cama. Pessoas chegam, falam, tocam você, dizem coisas sem sentido, o mesmo de sempre, reaja, a vida continua, o mundo não acabou, ele ou ela queria que você continuasse vivendo bem.
"


"Como dizia a minha Vovinha, isso de realidade é bobagem: cada um inventa a sua, o avesso pode ser o certo, no espelho pode estar a vida, e tudo aqui fora ser um sonho."

"Toda história humana é complicada.
Nenhuma termina:
as ondas do mar são sempre as mesmas.
"


"O paraíso é duro de ser transitado.
As respostas não têm importância.
O amor é difícil - às vezes chega tarde.
"

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sol da Paz

Que um Sol de Paz nasça a cada instante em nossos corações e ilumine nossos caminhos. Amém!

"Pouco tempo é o bastante pra eternizar momentos que nem são pra sempre.
A vida é curta vou aproveitar. Somos tão jovens, mas nem sempre inconsequentes.
E ninguém sabe quando um simples tchau pode ser o adeus.
E nunca é tarde, já que o futuro só pertence à Deus.
Só peço que eu não perca a fé no amor, pr´um novo sol de paz se abrir.
E no que a escuridão tentar te dominar, sempre uma luz irá surgir.
Que prevaleça a fé até na dor, pr´um novo sol de paz se abrir.
E no que a escuridão tentar, eu hei de resistir. Vou adiante.
"
Strike – Sol de Paz

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Talk


Nascemos indefesos. E ficamos assim por um bom tempo.
Sozinhos não supriríamos nossas necessidades básicas. Por isso nossos pais e família ficam nos dando esse suporte. Mas aos poucos aprendemos algumas manhas da vida.
Andar. Quanto ralar os joelhos até aprendermos a dar os primeiros passos, bundadas no chão ao cairmos para trás, cabeçadas em cantos de móveis, quedas de escadas, tropeços nas próprias pernas. Nem parece que hoje andamos com tamanha propriedade, dadas as etapas cômicas que já superamos.
Acontece que agora, adultos ("gente grande" como dizem alguns) os tropeços, os tombos ainda podem acontecer. Para além do sentido físico, tais quedas acontecem com um sonho frustrado, a perda de um emprego, uma briga com alguém especial para nós, a morte de uma pessoa querida, amada e por aí adiante. E isso ainda pode ter o agravante de não termos mais aquele suporte familiar que tínhamos no início da vida e que durou até uma fase pós adolescência. Alguns até podem dizer que temos amigos para nos apoiar nos momentos difíceis. Sim, temos. Mas dar apoio não implica que eles farão todo o resto por nós.
Onde quero chegar com isso? Que a vida do "viveram felizes para sempre" não costuma sair das telas do cinema. Na vida real as coisas nem sempre são certinhas como nos contos de fada. Aqui na sociedade dos homens existem erros, frustrações, equívocos... E quando a vida bate a porta na nossa cara temos que lamber nossas feridas para continuarmos nossos caminhos. Às vezes não é fácil, mas precisamos re-aprender a andar, pois as quedas de agora exigem tanto de nós para nos reerguermos quanto o esforço que empenhávamos para colocarmo-nos em pé quando dos primeiros tropeços. Nesse processo, o auto-conhecimento pode ser de extrema importância. Não menos importante é reconhecer quando precisamos de ajuda e ter a humildade de buscar por alguém que compartilhe desse momento conosco.
Andar. Eis algo que é constante em nossa vida. No andar estão incluídos os momentos de pausa para tomar fôlego e seguir adiante, os passos para trás para impulsionar um passo mais firme logo ali na frente. Enfim, andar. Esse pode ser um indicativo de que, até certo ponto, podemos nós mesmos traçar nossos próprios caminhos. 
  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Começar poetizando

Os ponteiros giraram: das 23h.59min. para às 00h.
Os dias passaram: da terça para a quarta-feira.
E os anos se alteraram: de 2013 para 2014.
Resoluções? Não no meu caso. 
Aqui as coisas começaram de forma poética.

***
Às vezes,
ler é melhor que conversar,
dormir é melhor que almoçar,
beijar é melhor que transar,
jogar é melhor que descansar.
Às vezes,
o contrário,
ou vice-versa.
Às vezes,
o às vezes é sempre.
Noutras vezes,
às vezes é nunca.
Às vezes...

***

"Ah! que feliz um coração que escuta
as origens de que é feito!
e que não é nenhuma pedra bruta
mumificada no peito!


Ah! que feliz um coração que sente
ah! tudo vivendo intenso
no mais profundo borbulhar latente
do seu fundo foco imenso"
Cruz e Sousa

***

"tesão pulsando no texto
que eles coitentam interromper
sem supunhetar
nem invaginar q tenho pênis
deles q nádegas têm ânus dizer"
Eduardo Kac


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

passando a régua em 2013 e chegando firme em 2014

Numa reunião com minha chefia, eu estava anotando alguns compromissos profissionais que tenho prazo para cumprir. Depois de anotar, me dei por conta que restam algumas últimas páginas da agenda desse ano que está findando. Comecei a voltar as páginas. Algumas em branco, outras rabiscadas com canetas de cores diferentes, alguns "ok" em coisas que foram feitas, alguns palavrões ou anotações bizarras de quando o momento não era muito bom, balanços da grana que ganhei e da grana que torrei, extratos bancários presos com clips, bilhetes grampeados, enfim, aquela bagunça organizada que só eu sei como entender.
Folheando os dias, retrocedendo os meses fiz uma espécie de retrospectiva de 2013. Objetivamente estava tudo ali. Ou quase tudo. Mas aí é que pensei "tá bom, do mundo lá fora está muito bem compilado o ano de 2013. Mas e o meu mundo aqui dentro, como foi?".
Não é fácil fazer uma anamnese, uma análise de si mesmo, mas às vezes é necessário. Aproveitei a ocasião e dei uma desintegrada do que estava ao meu redor e me empenhei nessa tarefa. 
Olhei para trás e percebi onde minhas escolhas me trouxeram. Interessante como algumas coisas que na hora da decisão pareceram idiotice agora soam como producentes ao meu estilo de vida, à minha estruturação. E o inverso também. Muitas coisas que pareciam ser a melhor saída agora eu vejo que não foram escolhas tão maduras ou que poderiam ter sido diferentes.
As coisas poderiam ter sido diferentes. Sim, poderiam. Para isso as minhas escolhas tinham que ter sido diferentes. E tais escolhas diferentes provavelmente alterariam a forma das coisa estarem agora. Não é matemática, é existência. Só podemos usar a aproximação como critério, não a exatidão. Nessa de passar a limpo o ano, posso me orgulhar dos meus acertos e dos meus deslizes. Considerando meu eu agora, posso ver meu amadurecimento em alguns aspectos com relação ao eu que foi e está sendo lapidado.
Sim, eu mudei. Em algumas coisas mudei radicalmente. E isso está longe de ser contradição. É sinal de que atualizei algumas coisas que precisavam ser atualizadas na minha forma de pensar, de agir, de ser. 
Aliás, que dádiva ter me dado o direito de efetivar algumas mudanças sem medo de quebrar a cara logo ali na frente. Que bom ter deixado para trás algumas coisas que não me faziam bem e já não agregavam nada à minha existência. Que bom ter sido esse bicho-homem com possibilidades mil e ter escolhido e ter feito caminhos tão confortáveis para o meu coração e para a minha alma.
Claro que 2013 não foi conto de fadas, sempre com final feliz e "viveram felizes para sempre". Passei alguns perrengues, levei algumas quedas fortes, apanhei feio em e de algumas circunstâncias. Mas isso vem no pacote da vida. Alguns percalços são inevitáveis na trajetória mundana. Menos mau que consegui trabalhar comigo mesmo, ler e interpretar os sinais que a vida me deu, encaixar as peças dos quebra-cabeças, lamber minhas feridas e voltar a ver o brilho do sol e da lua, sentir o vento no corpo, os cheiros e aromas das flores e aquilo tudo que renova as energias. 
Importante ressaltar aquele ombro amigo, aquele abraço apertado, aquelas palavras de conforto e de incentivo de muitas pessoas que tenho contato. Muitos anjos disfarçados de pessoas me ajudam diariamente a pelear e a dar o melhor de mim em tudo o que faço. Minha gratidão a essas almas nobres, sempre. 
Pesando os prós e os contras, o que foi bom e o que poderia ter sido melhor, o que eu queria e o que de fato se concretizou 2013 foi um ano "do caralho!". Essa expressão é para sinalizar intensidade. Foi bacana. Eu fiz ser bacana, me esforcei para fazer isso acontecer.
Para o próximo ano minha prece é que não nos falte saúde, força e sensibilidade para vivermos intensamente aquilo que nossa existência carece para ser agradável. E isso é singular para cada indivíduo. Não quero apenas que 2014 traga coisas boas, porque o universo não cumpre promessas: ele não promete nada. Quero preencher o ano com coisas boas. Quero deixar minha marca em tudo aquilo a que me propuser a fazer. Quero praticar a minha religião do amor, que á única revolução verdadeira. E quero ser uma pessoa melhor. "Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu puder ser", como diria Chorão.
E aproveitando as palavras do saudoso e eterno marginal alado, "a vida é uma boca a ser beijada, mas a vida só gosta de quem gosta de viver. A vida não quer ser desperdiçada. Aproveite o seu tempo, está tudo aí pra você".

Abraços de urso e beijos de beija-flor.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

fazer o possível ou fazer o melhor?

Estava vendo uma palestra do filósofo Mário Sérgio Cortella e num determinado momento ele fala sobre a questão de se fazer o possível e de se fazer o melhor. 
Várias vezes, quando precisamos de alguma coisa, ouvimos alguém sentenciando "estou fazendo o possível" ou "farei o possível". Se aplica também ao plural disso. Diz Cortella que muitas vezes esse "fazer o possível" é indicativo de mediocridade. É como que se não tivesse empenho nisso que está sendo feito. Ou feito de forma morna, tipo "por mim tanto faz".
Para o filósofo, por outro lado, o que potencializa o crescimento existencial é se fazer o melhor dentro das condições que se tem, até que se tenha condições melhores de fazer ainda melhor. 
***
Outra coisa que merece destaque nas falas de Cortella é o fato dele seguidamente frisar que pessoas grandes sabem de sua pequenez e por isso tendem ao crescimento, enquanto que pessoas pequenas que se sentem grandes tendem a rebaixar os outros de alguma maneira.
***
É possível fazer uma conexão disso que foi mencionado com o trecho da música Camisa 10 Joga Bola até na Chuva, do Charlie Brown Jr.
"Sem desandar, sem humilhar ninguém. 
É assim que eu quero ser, sim, um cara melhor. Não melhor do que ninguém, mas o melhor que eu posso ser.
O tempo passa e tudo muda. E você tem que aprender que existem vários caminhos.
Escolha um pra você"
***
Qual caminho você escolheu, fazer o possível ou fazer o seu melhor?

domingo, 10 de novembro de 2013

dos retratos existenciais

Certamente você conhece alguma pessoa com quem não tem contato há 2 meses, 2 anos ou 2 décadas. É um familiar que mudou de cidade porque constituiu família, ou um amigo que foi promovido no emprego e teve que mudar também de cidade, uma amiga que foi para o exterior fazer um intercâmbio de estudos. Na hipótese de um reencontro, você conversa com a pessoa, percebe algumas mudanças e logo passa à sua cabeça "nossa, como o fulano mudou!". Isso pode ser um indicativo de que você fez um retrato existencial da pessoa e que ainda a enxerga como ela era tempos atrás.
***
Teu amigo era viciado em refrigerante e agora só toma água sem gás. Era o primeiro a sentar na mesa para apreciar um suculento churrasco e agora aderiu ao vegetarianismo. Sempre falou em ter um número de filhos que desse para montar um time de futebol e agora expressa a vontade de ter apenas mais um, para fazer companhia ao Júnior, o único filho até então. Tinha asco ao som de guitarras pesadas, pois só ouvia MPB em volume baixo, mas agora ouve rock´n´roll e metal a todo volume. Certamente você vai pensar que aconteceu alguma coisa esse amigo, pois ele mudou muito. Claro! Ele mudou de cidade, de emprego, ampliou o círculo de amizades, conheceu uma garota, casou-se com ela, teve um filho. Não é de estranhar que ele tenha mesmo mudado, não é?
Você pode ficar se perguntando como um outro amigo seu não teve essas mudanças, apesar de ter passado por contextos e circunstâncias parecidas. A resposta me parece simples: isso se dá porque cada criatura humana é única, cada pessoa possui um universo singular. E estamos tratando, aqui, de existência, não de lógica matemática.
***
As mudanças que uma pessoa realiza no decorrer de sua trajetória mundana não necessariamente indicam que ela está sendo contraditória, que não tem princípios, que deixou o poder subir à cabeça, ou coisas assim. 
É comum que muitos vejam a pessoa como um retrato existencial que foi feito dela há um tempo atrás. Esse retrato é como uma foto, que cristaliza a pessoa e mantém estática a imagem dela como se ela tivesse a necessidade de ser sempre daquela maneira.
***
Se olharmos para a nossa própria história veremos que algumas vezes fomos incompreendidos ou julgados por uma imagem existencial que fizeram de nós há muito tempo e que aqueles elementos que tem na foto não estão mais presentes em nossa vida. Por outro lado, provavelmente já utilizamos retratos existenciais de alguém que conhecemos, ou seja, olhamos para a pessoa como se ela fosse a mesma e tivesse os mesmos elementos de algo que não diz mais respeito a ela. 
O indicado é que os dados sejam atualizados, ou seja, que verifique-se como a pessoa está no mundo agora (e como estamos no mundo também), para não cairmos em equívocos e dubiedades que possam prejudicar nossas relações. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O homem não está, naturalmente, vocacionado para a felicidade

"Por que Kant não concorda com Mill? Para Kant, a felicidade não é o que existe de mais importante. Para Kant, a felicidade não é o bem maior. Para Kant, a felicidade não é aquilo que devemos buscar de qualquer jeito. E por que não? Porque isso significaria usar um martelo para pintar uma parede; estamos com o instrumento errado. O homem não está, naturalmente, vocacionado para a felicidade. Ele não é construído para isso, ele não é feito para isso. Por quê? Porque ele é, antes de mais nada, um ser de reflexão, de pensamento. E o pensamento, segundo Kant, atrapalha a busca da felicidade, é um obstáculo para maximizar a busca do prazer e diminuir a dor. E, portanto, é muito mais competente para buscar o prazer e diminuir a dor quem não pensa. E quem não pensa e pode sentir prazer e dor são animais. Portanto, a teoria de Mill funciona para uma girafa, funciona para um macaco, funciona para um animal qualquer, mas não funciona para nós. Por quê? Porque o que existe de mais importante em nós é a capacidade de pensamento e a capacidade de pensamento não é o que existe de mais adequado para buscar a felicidade. Por isso, você julgar a conduta das pessoas em nome da felicidade é julgar pelo critério errado; funciona para animais."

Professor Clóvis de Barros Filho, em aula sobre sobre o pensamento de Kant.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sucesso

Volta e meia me deparo com um dito que "o único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário". A frase é creditada a Albert Einsten. Curioso que sou, visitei o dicionário para conferir o significado da palavra sucesso e fui informado que significa "resultado feliz, êxito; o que alcança bom resultado, fama".
Nos discursos de autoajuda que se espalham de forma viral pela internet o tal do sucesso é uma tônica. Parece que todos tem que remar seus barcos nesta direção. E, por incrível que pareça, muitas vezes apontam as coordenadas e como se faz para chegar no destino. Geralmente, quem faz isso parece não considerar algo muito importante: a história de vida de cada pessoa, que é única, singular. 
Ora, se nada se sabe a respeito da outra pessoa, como imputar nela o que é o sucesso e ainda direcioná-la para tanto? Me parece um equívoco que pode ter resultados não muito producentes, dependendo do caso.
***
O que é sucesso para você? É ter o reconhecimento por aquilo que é? Ou ser reconhecido por aquilo que faz? Talvez seja algo relacionado com fama, com dinheiro ou sabe-se lá mais o que pode ser.
Tente analisar isso segundo as suas prerrogativas, de acordo com a tua historicidade.
***
Provavelmente você já ouviu falar de alguém que lutou com todas as forças para conseguir algo e que passou a vivenciar crises existenciais tremendas tão logo conseguiu o que almejava.
Ou talvez você mesmo já tenha passado por algo semelhante, buscou algo e quando conseguiu o que queria percebeu que isso não era bem o que pensava, ou que não tinha o valor que antes considerava, ou que não teve os resultados esperados. Alguns noticiários estão lotados de pessoas que puseram tudo a perder da noite para o dia. 
Isso pode perfeitamente acontecer. E se não focarmos no percurso, no caminho, talvez seremos os próximos a cair nesta armadilha.
***
Rubem Alves tem um conto chamado "Sucesso...", publicado no "Pimentas - para provocar um incêndio, não é preciso fogo" no qual ele relata algumas respostas que deu para uma enquete que queria descobrir o segredo do sucesso. Abaixo alguns recortes que considero relevantes para a reflexão.
"Cheguei onde cheguei porque tudo deu errado."
"Já vi muitas promessas em livros de autoajuda do tipo 'você está destinado ao sucesso'. Isso é mentira. O querer nada pode sem dom. Finalmente, é preciso trabalhar."
"Não gosto dessa palavra 'sucesso'. O que é 'sucesso'?"
"Não faça do sucesso o seu deus. Seja fiel a você mesmo. Se vier o tal de 'sucesso', melhor para você. Ou pior para você, nunca se sabe... Van Gogh foi um fracasso, nunca vendeu um quadro. Ele poderia ter se 'afinado' para o sucesso - pintando quadros bonitinhos..."
***
Para mim, sucesso é, em poucas palavras, fazer com carinho e com amor aquilo que se faz. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Outubro cinza

Quantos sentimentos cabem dentro de uma saudade!? Uma afirmação e uma pergunta num mesmo enunciado. 
Para cada pessoa isso se dá de uma maneira singular, sei. Mas saudade é aquilo que nos faz sorrir e lacrimejar ao mesmo tempo por algo que foi vivenciado ou por aquilo que gostaríamos de vivenciar?
Dói mais a saudade de algo que passou ou de algo que não aconteceu?
Onde a saudade se aloja, no pensamento, no coração, na alma, na pele?
Existe remédio para curar a saudade? E para provocar saudade, existe também?
Saudade da voz, do olhar, do toque, do cheiro. Do que está na memória, mas também o que está apenas na imaginação, uma espécie de "e se". Mas esses tantos "e se" não são passíveis de efetivação, porque no seu lugar está a saudade.
Saudade.
Saudade.
Saudade...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Cada encontro carrega consigo uma possível despedida

Saí sem rumo.
Numa rua escura dei de cara com a lua. O formato dela me lembrou teu sorriso. Estacionei e fiquei hipnotizado, contemplando aquela beleza singular.
Tal como as circunstâncias foram diminuindo a quantidade e a intensidade do teu sorriso, a lua foi se deixando esconder por detrás de edificações e montanhas. Como corri atrás de ti outrora, me pus a rodar para encontrar aquele risquinho no céu. Tive mais alguns momentos de êxtase, mas resolvi virar as costas antes da lua se esconder por completo.
Cada encontro carrega consigo uma possível despedida.
Ela volta. Você... já não sei...


domingo, 6 de outubro de 2013

Cuidado com o que você pensa

Eles voltam. 
Cedo ou tarde eles voltam. 
Geralmente é quando você está contigo mesmo. 
São poucas as chances de fugir. 
E mesmo que haja possibilidade de fuga, ela é momentânea.
Eles voltam.
Não pedem licença. 
Não dizem por que vieram.
Não tem prazo para bater em retirada.
Você não se sente preparado para recebê-los.
Mas eles voltam.
Para perturbar teu sono.
Para fazer companhia para tua insônia.
Para jogar para longe tuas certezas.
Ou para te dar ainda mais convicção de algo.
Eles voltam.
Talvez nem seja o caso de voltarem.
Talvez eles sempre estão contigo e só dão uma trégua ilusória.
E são como fogo queimando.
Ou como a brisa que toca o rosto.
Eles se alimentam de você.
E você pode também se alimentar deles.
Mas fique atento!
Cuidado com teus pensamentos.
Porque eles voltam.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quando o silêncio diz mais que as palavras

Quando criança, ou mesmo quando adulto, provavelmente você queimou a mão em algum lugar. Ou então prensou o dedo numa porta, numa janela, num baú. Ou talvez tenha encarado aquela dor fazer uma tatuagem... Enquanto lia isso, se você passou por alguma coisa dessas, você pode ter sentido um desconforto, já que uma memória foi acessada.

O filósofo escocês David Hume afirmava que a sensação original de algo é mais forte e mais intensa do que a lembrança de tal sensação. Às vezes lembramos de algo claramente, como se estivéssemos de fato sentindo novamente aquilo que foi vivenciado no passado. De acordo com as considerações de Hume, isso se dá apenas de forma aproximada, sendo menos intensa que a própria vivência. Aplicando isso aos nossos exemplos, tal desconforto que citei acima é apenas uma aproximação da dor que sentimos ao termos queimado a mão no fogão, ou prensado o dedo na porta do carro, ou aturado o entra e sai das agulhas na pele.
No que passo a considerar a seguir, isso é deslocado para a condição de nos colocarmos no lugar do outro. Ou seja, podemos até fazer esse exercício, mas nunca sentiremos, de fato, aquilo que a pessoa sente - será sempre algo por aproximação, nunca de maneira exata, precisa. 

                      * * *
Hipoteticamente, eis uma situação em que o teu melhor amigo te liga, emocionado, noticiando a morte do pai dele, ou da mãe, ou de uma pessoa que de certa forma era especial para ele. Na hora você vai meio que tentar negar a veracidade da notícia com algo do tipo "não acredito!", "sério?". Depois de desligar o telefone, um copo d´água para digerir o que lhe foi informado e provavelmente você começará a pensar na dor do teu amigo, dos familiares, dos conhecidos de quem acaba de partir. É nesse momento que não se mede esforços para tentar ajudar. 
O que geralmente costuma ser desconsiderado é a forma de ajuda que se está disponibilizando. Nessas circunstâncias difíceis um olhar, um aperto de mãos, um abraço, um carinho podem ser gestos nobres. Algumas palavras também podem ter alguma relevância. Porém, e muita atenção para este porém, gestos ou palavras jogadas ao vento podem surtir efeito reverso ou efeito algum em ocasiões assim. Isso porque a pessoa que você está disposta a ajudar está com a ferida aberta, com as funções do organismo debilitadas pelo choque, pelo cansaço de estar sem comer e sem dormir direito e pelos demais fatores e sintomas que uma perda pode trazer consigo.
O importante é se colocar no lugar do outro e ver as cosias com as prerrogativas dele. Não é uma tarefa fácil, pois nem todos conseguem se deslocar de seu próprio mundo e ir em direção ao mundo do outro. Fazer esse exercício ajuda a não cometermos equívocos quando, na verdade, nossa intenção era de ajudar, de ser útil, de confortar a pessoa que gostamos, como estamos tratando aqui.
De nada vai adiantar, por exemplo, tentar confortar seu amigo ateu com dizeres do tipo "ah, ela (a pessoa) vai estar melhor no lugar para onde foi". Ora, se seu amigo não confia na vida pós morte, essas palavras não vão ajudar em nada. Ou "foi melhor assim". Seu amigo pode pensar ou até mesmo lhe dizer "melhor pra quem?" ou "melhor pra você que não acabou de perder um irmão".
Entendo as manifestações de carinho em que cada um tenta, à sua maneira, minimizar a dor do outro. Geralmente isso costuma ser bom para quem enfrenta essa barra. Particularmente, e não é nada de insensibilidade - muito pelo contrário, prefiro um abraço e um silêncio. Voltando ao que introduziu esse texto, mesmo que nos desloquemos até o mundo do outro só conseguiremos sentir por aproximação aquilo que ele está sentindo.
* * *
Concluo com o que Rubem Alves expôs num escrito seu chamado A Dor da Morte, presente no livro Pimentas - Para provocar um incêndio, não é preciso fogo.
"A morte faz calar as palavras. São inúteis. Servem para nada. Somente os tolos tentam consolar. Eles não sabem que palavras de consolo, brotadas das mais puras intenções, são ofensas à dor da pessoa golpeada pela morte. Porque elas, as palavras de consolo, são ditas no pressuposto de que elas tem poder para diminuir o vazio que a morte deixou. Como se a pessoa que a morte levou não fosse tão importante assim e algumas palavras pudessem diminuir a dor que sua morte deixou."
* * *

domingo, 22 de setembro de 2013

não temos como passar pela vida imunes às coisas que não nos são muito agradáveis

Gosto do conceito de resiliência. Tanto que essa é uma das tatuagens que tenho. Dias atrás uma colega me perguntou o que significava. Expliquei que resiliência, grosso modo, é capacidade de superar condições adversas. 
Não conheço ninguém que tenha passado pela vida sem sem uma dor, sem uma decepção. Acontece que num determinado momento as coisas não vão dar certo, não vão sair conforme haviam sido planejadas; em outras palavras, alguma coisa vai fazer com que quebremos a cara. Isso porque a vida não vem empacotadinha, com manual de instruções, modos de usar, validade, entre outras recomendações. E, quer saber?, no fundo isso até torna as coisas um tanto divertidas.
Claro que não é bom sofrer. Mas, sinto muito, preciso te alertar de uma coisa: não temos como passar pela vida imunes às coisas que não nos são muito agradáveis. Desde cedo quebramos nossos brinquedos, extraviamos nossos pertences, nossas roupas logo ficavam pequenas e não serviam mais... Aí já está um indicativo de que na vida as perdas são inevitáveis, que naturalmente algumas coisas ficam para trás, queiramos ou não. Poderiam ter nos ensinado que o fato de termos aprendido a levantar das quedas que tomamos quando tentamos firmar os primeiros passos também era uma lição importante para a vida toda. Mas esses detalhes muitas vezes foram negligenciados na nossa educação e então mais tarde quando perdemos alguma coisa, uma pessoa, um relacionamento, um objeto, um mal estar muito grande se instaura.
As perdas remetem a um período de luto. Sim, luto não é apenas quando morre alguém que gostamos. É certo que vai haver um período difícil, já que uma "fossa" vai ser vivenciada até que as feridas cicatrizem. Há quem lamba as próprias feridas e há quem precise de ajuda para tanto. Tem aquelas pessoas que tentam resolver tudo imediatamente com precisão matemática e tem aquelas que deixam o tempo passar para amenizar os sintomas. Enfim, é muito singular o que ocorre com cada um(a).
Então, já que essas adversidades fazem parte da vida, resiliência! Que possamos, cada qual à sua maneira, superar os obstáculos que se apresentam e que isso, de certa forma, contribua de maneira positiva para com nossa existência.

"Nada como um dia após o outro.
Continuar. Viver. 
E quando o sol nascer temos que recomeçar de novo.
E acreditar, dias melhores virão.

Espere o melhor. 
Prepare-se para o pior.
E aceite o que vier"
Perdas - CPM 22 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"O diabo é deixar de viver" *

Mario Quintana tem um poema magnífico que volta e meia eu revisito.
"Um dia... pronto... me acabo.

Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver."
O fenômeno da morte biológica é irreversível. Começamos a morrer a partir do momento que fomos concebidos. E dessa morte não temos como fugir. 
Dos mortais, somos os únicos que temos consciência dessa finitude. O cão, o gato, o elefante, a girafa e os outros animais também morrerão, mas eles vivem cada dia como sendo o único, enquanto nós, seres humanos, vivemos cada dia como sendo o último.
Quando faço essas considerações acerca da morte não é somente a ela que me refiro, mas em especial à vida. Já que nosso prazo de validade não vem estipulado em rótulo algum (embora seja pouco provável ultrapassarmos mais de uma centena de anos), como estamos vivendo, como estamos preenchendo esse tempo de vida que ainda nos resta?
Cabe advertir que viver não é somente estar vivo. Até pode ser que algumas pessoas encarem a vida dessa forma, pois cada uma tem um universo singular de significação. Entendo e respeito isso. Mas me parece que apenas ocupar espaço no mundo não é uma das formas mais atraentes de ser.
O que tem preocupado ultimamente é o crescente número de pessoas que estão moribundas, vivendo vidas inúteis, fúteis, vazias, mornas; pessoas que deixaram de viver antes mesmo da morte biológica.
Torno a questionar: como estamos exercitando nossa existência no mundo?
Que possamos refletir sobre o estilo de vida que estamos levando e, se necessário, re-inventar nossa maneira de viver - cada qual levando em consideração a sua estruturação existencial, circunstâncias e contextos.

Que a vida pulse nas veias de cada um.

* Inspirado pela poesia, pela música e pelos murmúrios do silêncio que ecoavam na madrugada.

Como cantou Chorão com o Charlie Brown Jr, "vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo". E como canta Tico Santa Cruz com os Detonautas, "vamos viver, que o que a gente vive é uma vida e nada mais".




segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Às vezes vale mais imaginar do que ver

Semana passada comentei com algumas garotas que ando com uma tendência a me apaixonar por mulheres que usam calça jeans. Siim, falei mesmo isso. E depois, pensando um pouco mais, percebi que não é tanta babaquice assim. Oras, em alguns lugares que vou estou acostumado a ver coxas torneadas e pedacinhos de nádegas à mostra em shorts e vestidos minúsculos...
      
Sei que me e se perguntarão se a roupa que uma pessoa usa diz alguma coisa sobre ela. Pois eu respondo: às vezes a roupa é, sim, uma maneira que a pessoa usa para se expressar; noutras vezes, nem de longe. E isso quem indica não sou eu, nem você, mas a pessoa em questão.

Continuando. Eu admiro o corpo feminino. Ah, o corpo feminino! Quantos encantos e enigmas podem haver nesse ser que foi feito carinhosamente a partir das costelas de Adão (ah, vamos fingir que todos acreditamos nessa parte da historinha da criação).
Pois bem, que padrão de beleza encontramos na nossa época? O corpo torneado, durinho, produzido ou na academia ou desenhado nas mesas cirúrgicas das clínicas de estética. Para muitas pessoas o que importa é isso mesmo. Mas também tem a contraposição: para muitas outras o corpo é apenas uma das tantas dezenas, centenas ou milhares de coisas que se tem na vida. 

Unindo a questão da roupa curta e a do corpo sarado, trago aqui algumas palavras do Ferreira Gullart, que foi de onde veio essa minha inquietação para escrever. Ele diz o seguinte: "antigamente a mulher não mostrava nem o pé ao namorado. Hoje muitas delas mostram a bunda em público, protegida apenas por um fio dental. A principal virtude dessa nova mulher é a bunda".
E logo adiante, continua: "que importância se dará aos joelhos de quem já se viu a bunda? Às vezes vale mais imaginar do que ver".
Gullart expressa isso no sentido erótico da coisa. Ora, o que está toda hora à exposição destrói o caráter imaginativo. Nessa perspectiva o corpo como cartão de visitas pode tanto causar o interesse quanto o desinteresse. E isso não depende só de quem se exibe, mas também de quem observa.


Mulheres que usam calça jeans, cuidado que eu me apaixono, hein?!
=)

domingo, 11 de agosto de 2013

Existe alguma fórmula mágica que te faça entender alguma coisa sem ao menos eu falar contigo? Telepatia ou alguma outra conexão através de pensamentos? 
Talvez nem seja o caso de te fazer entender, mas de te confundir. Ou, quem sabe, de te fazer sentir. Afinal, isso quebra a lógica racional, ultrapassa os limites das nomenclaturas, está para além daquilo que pode ser dito. 
Eu estava me sentindo bem, mas tua companhia me deixou melhor ainda. Peguei carona nas tuas asas. Fui às alturas contigo. Quando caí de volta para o chão nem pensei em me entristecer por ter te deixado partir. Pelo contrário, passei um bom tempo divagando e curtindo a sensação extasiante de poder ter estado em outro plano contigo. Afinal, não é todo dia que se embarca numa viagem assim.
O portal não se fechou. Quando me destes as costas, tua ida em direção contrária não significou um adeus, mas um até breve. E mesmo que isso demore uma eternidade, não esquecerei da suavidade na qual fui envolto.
Eu disse que não agradeceria, mas o fiz e estou novamente emanando minha gratidão a você, que de alguma forma ou de outra vai saber e vai sentir isso.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Saú(da)de!

Dia dos Pais se aproximando. 
Mais uma data para movimentar o comércio. Mas não dá para negar que também é uma data para desengessar o coração, para dar aquele abraço forte no "velho", no "coroa". Privilégio para quem tem o pai ao alcance. 
Sou da opinião que a figura de pai e de mãe ninguém substitui. Os papeis de ambos até podem ser se configurar com pai fazendo papel de mãe ou essa fazendo papel de pai. Mas a pessoa, a figura, essa nada nem ninguém substitui. Falo isso segundo as minhas prerrogativas. Sei que existem diferentes formas de ser no mundo e não é minha pretensão que todo mundo pense, sinta, se comporte da mesma forma. 

Já vi o mundo desabar nos meus ombros algumas vezes. A perda do meu pai foi uma delas. Mas aprendi a lição de ser forte, independente do que surja. Como cantou Chorão "quando a casa cai não dá pra fraquejar. Quem é guerreiro tá ligado que guerreiro é assim." É mais ou menos isso que me norteia. Desistir sem lutar não é comigo. Não para ser melhor que alguém, mas para ser melhor que fui ontem. E na maioria das vezes o aprendizado está sendo relevante. Como o marginal alado versou "vivendo nesse mundo louco hoje só na brisa, viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida."

Hoje faz 5 meses da morte do Chorão, o marginal alado. Final de semana é o 9º Dia dos Pais que o meu não está mais nessa jornada. Duas pessoas, cada qual com suas singularidades e dons, que deram a muitas a alegria de terem pisado na terra. 
A saudade é grande. Mas os ensinamentos repassados os fizeram imortais em minha mente e em meu coração e servem como antídoto.

Um brinde à saúde e à saudade.
Saú(da)de! 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

loucura no amor e razão na loucura

"É verdade: amamos a vida não por estarmos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre alguma loucura no amor. Mas também há sempre alguma razão na loucura.
E também a mim, que sou bem-disposto com a vida, parece-me que borboletas e bolhas de sabão, e o que há de sua espécie entre os homens, são quem mais entende de felicidade.
Ver esvoejar essas alminhas ligeiras, tolas, encantadoras e volúveis leva Zaratustra às lágrimas e ao canto.
Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar."

Nietzsche, Assim falou Zaratustra

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O homem como invenção de si mesmo

Saudações, terráqueos!
Minha leitura da madrugada foi bem interessante. Depois daquele café forte que eu sabia no que ia dar, fiquei zumbiziando até umas horas. O suficiente para ler O homem como invenção de si mesmo - monólogo em um ato, do Ferreria Gullar. Um livro de 70 páginas que na verdade foi pensado para ser uma peça teatral. Segue, então, um esqueleto do que se trata e, claro, alguns recortes literais da obra.

A temática central gira em torno do título da obra, ou seja, o homem como invenção de si mesmo. O autor afirma que a obra consiste em explicitar a teoria segundo a qual "a vida é inventada e que nós mesmos nos inventamos". 
Nos primeiros passos, ou nas primeiras páginas, surge a questão da inserção do bicho homem a uma cultura, o que nos torna seres humanos. Somos, então, seres naturais, constituídos por traços biológicos, naturais; por outro lado, somos seres culturais, o que nos permite a criação, a inventividade. "O homem quando nasce é ninguém. Ele se torna gente pela educação, pela cultura, pelo que lhe ensinam. Ele já encontra um mundo humano inventado e nele se integra; outros decidem reinventá-lo."
Tão logo inicia essa reflexão, aflora a questão de uma divindade. Para Gullar, "Deus é de fato a resposta que o homem encontrou para a mais angustiante de todas as perguntas: a vida tem sentido?" Segundo ele a resposta é negativa. "A vida não tem sentido. Nós é que lhe atribuímos sentido." A tese do autor é que o próprio homem inventou Deus para, de certa forma, responder inquietações que a consciência nos impõe, tais como "por que existo? Por que terei que morrer um dia? Será a morte o fim de tudo?" Para preencher a sensação de desamparo e lançar esperança numa vida após a vida terrena é que o homem criou a imagem do sobrenatural. Afinal, "é insuportável viver ao sabor do acaso, sujeito a forças que a gente não controla. Mais uma razão para existir Deus, Ele é o oposto do acaso. A Providência Divina nos faz acreditar que estamos protegidos, que vivemos em segurança".
Intrínseca a essa reflexão sobre a divindade está a temática das religiões. Elas ditam o que é certo e o que é errado e isso faz com que, desde cedo, as crianças aprendam a seguir a cartilha. O pensamento ou comportamento que destoe do que pregam os dogmas religiosos é considerado pecado. E quem peca ou se arrepende e não comete mais o erro, ou vai paro o inferno. Isso mesmo. Inferno, outra invenção humana carregada de significado religioso. Imagina então como fica a cabeça de uma criança com toda essa coação...
Pois bem, o primeiro pecado tem a ver com Adão e Eva. Portanto, muitos dos tabus, preceitos e preconceitos sexuais vem daí. E eu pergunto, o que eu e você temos a ver com pecado original? A condenação do sexo a ponto de torná-lo pecado é um dogma insustentável, segundo o autor, pois sexo é uma coisa natural, animal, instintual. Para dar uma falsa impressão de liberdade a Igreja Católica diminuiu o ímpeto a passou a permitir o sexo, desde que os casais se unam de acordo com as leis da igreja. "Mas só pode transar se for para procriar. Transar por transar, só para ter prazer, não pode. Nada de sacanagem, beijinho aqui, beijinho ali, mãozinha, dedinho, nada disso. Trepar é coisa séria. Papai-mamãe. Meteu, gozou, tirou e pronto. Nada de ficar gemendo, revirando os olhos, se torcendo de gozo na cama. Quem faz isso só pode estar com o Diabo no couro."
Retomando e finalizando, ao mesmo tempo. O homem é invenção dele próprio, ele se inventa e se reinventa de acordo com sua constituição animal, no contato com a cultura e o que advém dela e segundo a significação que atribui ao que se lhe apresenta. É isso o que expressa o conceito de constituição bio-psico-social. 
Creio que esses sejam os principais pontos desse pequeno livro, mas com profundo conteúdo filosófico, religioso, psicológico.
Quem refletiu até aqui provavelmente tem alguma coisa para refutar, para acrescentar, para criticar. Fique à vontade para tanto.


Fica a indicação de leitura dO homem como invenção de si mesmo.

Adiós.

Abrazo.